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Brasileiros incrementam a compra de livros usados

Livros e automóveis são os produtos usados mais adquiridos nos últimos 12 meses, revela estudo da CNDL/SPC Brasil de setembro

Num país onde o índice de leitura é insuficiente e as editoras sofrem com o baixo número de exemplares vendidos, é um alento saber que os livros são os produtos usados mais comprados pelos brasileiros.

Um país se constrói com homens e livros“. A frase — adaptação da sentença de Monteiro Lobato e lema dos comerciais da Biblioteca do Exército — serviu como base para a formação de uma geração que tinha na leitura um dos alicerces da sua educação.

Líder de vendas

Os livros foram responsáveis por 54% das vendas de produtos usados em 2017, na frente até dos automóveis (43%), segundo pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).

Não sei se isso significa que a população está lendo mais, mas é um dado que deve ser comemorado de qualquer forma. Ainda mais, se levarmos em conta que a maior parte dos produtos colocados à venda no período foi formada por eletrônicos (40%) e smartphones (40%).

A pesquisa mostra que a oportunidade de diminuir gastos e poupar é um dos objetivos da maioria das pessoas que optam pela aquisição de produtos usados. Dentre os que compraram ou venderam produtos usados nos últimos 12 meses, 65% calcularam a economia proporcionada, sendo 41% no caso da compra e 24% com a venda. Entre esses, nove (92%) em cada dez consumidores acreditam que a economia de dinheiro com a compra de usados foi significativa para o bolso. Os sites ou aplicativos especializados e o contato com amigos e conhecidos se destacam entre os principais locais para compra e venda de usados.

A pesquisa

A pesquisa ouviu 824 consumidores de ambos os gêneros, todas as classes sociais, capitais do país e acima de 18 anos. A margem de erro é de no máximo 3,4 pontos a uma margem de confiança de 95%.

Baixe a íntegra da pesquisa em https://www.spcbrasil.org.br/pesquisas

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A última balada de Wilde (by André Machado)

Edição de 1921 do poema, editado por Robert Ross (foto minha, eu tenho o livro)

Num país como o nosso, com prisões superlotadas e volta e meia palcos de rebeliões e chacinas, é válido lembrar um dos mais famosos textos que denunciaram a dura realidade das prisões inglesas no século XIX — o longo poema “A balada do cárcere de Reading“, de Oscar Wilde, cuja publicação completou 120 anos no último dia 13 de fevereiro.

Condenado por sua homossexualidade a dois anos de prisão com trabalhos forçados a partir de 1895, Wilde viu sua vida ruir: foi à falência (seus bens foram leiloados às pressas antes mesmo do julgamento final), nunca mais pôde ver os filhos e tornou-se um pária. Um dos diretores do presídio de Reading, onde cumpriu a maior parte da pena, previu que o regime de trabalhos forçados a que o escritor foi submetido o deixaria alquebrado e o levaria à morte em poucos anos. De fato: Wilde morreu pobre e esquecido em Paris três anos e meio após sair da cadeia.

Edição de 1904 do poema (domínio público)

Enquanto estava em Reading, Wilde soube que um soldado de um regimento de cavalaria real, Charles Thomas Woolridge, seria enforcado por matar a esposa (cortou-lhe a garganta), o que lhe causou profunda impressão. Teria sido um crime passional. A execução ocorreu em julho de 1896, e o escritor foi libertado no ano seguinte, mudando-se para um chalé em Berneval-sur-mer, na França. Ali começou a rascunhar a balada, que se tornaria sua mais célebre obra em versos.

Dedicado ao soldado enforcado, o poema descreve as sofríveis condições na prisão, o clima de medo e solidão, a rotina de labuta e privações, e chega ao auge com a estrofe:

“Todos os homens matam o que amam

Seja por todos isto ouvido,

Alguns o fazem com acerbo olhar,

Outros com frases de lisonja,

O covarde assassina com um beijo,

O bravo mata com um punhal!”

(Tradução de Oscar Mendes)

Dedicatória de Wilde ao Major Nelson, diretor que o tratou melhor em Reading. Lê-se:"[ao] Major Nelson, do autor, em reconhecimento de muitos atos de delicadeza e gentileza". Note o C.3.3, número da cela de Wilde, com que foram assinadas as primeiras edições (reprodução)

Com tais versos, Wilde se compara ao cavalariano enforcado, mas em seu caso foi de sua própria vida social e liberdade que ele deu cabo, ao tentar processar o marquês de Queensberry, pai de seu amante, Alfred Douglas, e ver o governo britânico se voltar contra si.

O poema, última obra literária do escritor irlandês, teve seu esboço inicial escrito em apenas 12 dias, segundo o biógrafo Richard Ellmann. Depois foi revisado e aumentado. No total são 109 estrofes com seis versos cada uma, alternados entre oito e seis sílabas. Mas uma versão com 63 estrofes também apareceu em edições póstumas, editadas por Robert Ross, melhor amigo, amante e testamenteiro literário de Wilde. Numa reedição de 1921 de “Selected poems – Oscar Wilde“, originalmente publicada em 17 de agosto de 1911, Ross apresenta as versões completa e a condensada, indicando que a última deriva “do esboço original. Ela foi incluída para beneficiar récitas cujas plateias acharam o poema muito longo para declamação”. (Uma leitura magistral do texto em inglês está no YouTube. O poema original em inglês pode ser encontrado aqui.

Wilde em 1897 em Nápoles, após sair da prisão (reprodução) Ross também nota que a balada representou a volta de Wilde à poesia após 16 anos mergulhado em prosa e teatro, com a notável exceção de “A esfinge”, de 1894. O poema foi inicialmente publicado pelo editor Leonard Smithers sem o nome do autor e com o pseudônimo C.3.3, que indicava a cela onde Wilde ficava. Só após sete edições seu nome foi revelado, e mesmo assim ao lado do C.3.3, entre parênteses, na folha de rosto. Segundo Ellmann, entre 1898 e 1899 foram vendidas cerca de 4.100 cópias (até a sexta edição). Uma tradução francesa feita por Henry Davray saiu ainda no final de 1898.

“Estou tão feliz com o sucesso de meu poema na Inglaterra”, escreveu Wilde a um amigo. “Mas é o meu canto de cisne, e sinto ter de partir com um grito de dor; mas a Vida que tanto amei — amei demais — me dilacerou como um tigre (…). Não creio que escreverei novamente; la joie de vivre se foi.”

Dito e (não) feito. A chama wildeana se apagou em novembro de 1900 em Paris. Mas “A Balada…” permanece. Dela saiu o próprio epitáfio de Wilde: “Por ele se encherá de alheia lágrima/ A urna partida da compaixão,/ porque por ele chorarão os proscritos/ E os proscritos sempre choram“.

 

Sobre o autor

André Machado é jornalista, rockeiro, bluseiro, amante da boa literatura e uma das pessoas mais especiais que já conheci. Difícil encontrar algo que ele não faça bem.

Crítica: 1973 – O ano que reinventou a MPB

1973capalivroSe vivemos uma época onde as fitas cassetes são desconhecidas, os festivais de música acabaram, os CDs estão virando história e os LPs – aqueles bolachões feitos de vinil – voltaram a moda, nada melhor do que um olhar crítico sobre a época onde os LPs eram verdadeiramente as estrelas da indústria fonográfica, muito antes dos WalkMan, iPods e etc. Foi com a intenção de contextualizar a produção musical brasileira em um dos anos mais importantes de sua história que o jornalista Célio Albuquerque organizou o livro “1973 – O ano que reinventou a MPB” (Editora Sonora), que terá lançamento em Niterói na próxima terça-feira.

Para quem é muito jovem ou nunca se preocupou em conferir os anos nos quais seus discos preferidos foram lançados, um lembrete: 1973, ainda sob forte ditadura e muita censura, foi o ano dos Secos e Molhados, do primeiro disco de Raul Seixas, de Clementina de Jesus e seu “Marinheiro Só” e do debut de Luiz Melodia, só para citar alguns dos 50 títulos revistos pela obra.

Os textos, escritos com liberdade por nomes como Antônio Carlos Miguel, Silvio Essinger, Pedro Só, Rildo Hora, Tavito, Roberto Muggiati e Moacyr Luz, entre muitos outros, dão visões diferentes para cada um dos discos. Alguns em tom mais de crítica musical, outros em clima de memórias nostálgicas e alguns como sinceros depoimentos de quem participou dessa história.

SecoseMolhados1973Como toda lista de “melhores”, a do livro também tem suas polêmicas, a começar pelo próprio ano escolhido. É verdade que 1973 produziu alguma obras que até hoje se mantém atuais e seminais para nossa história musical, mas talvez seja um exagero disser que foi “O ano que reinventou a MPB”, já que um ano antes, apenas para citar um exemplo, foram lançados o Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges) e Acabou Chorare (Novos Baianos), o que põe em cheque o status de reinvenção do ano seguinte. Mesmo entre os títulos analisados (até mesmo alguns que não chegaram ao mercado) podemos perguntar sobre a ausência do disco de Roberto Carlos que, apesar de realmente não ser dos mais inspirados do Rei, conta com canções como Proposta, uma das mais populares de seu repertório, lembrando que Roberto construiu nesta década o seu “reinado”.

Alguns dos textos são deliciosamente envolventes, outros mais informativos, mas em todas as resenhas há um quê de admiração, de reverência (justa) ao que foi produzido. Uma pena que não seja tão fácil reunir todo esse material em CD ou em formato digital, pois ouvir cada um dos discos escolhidos para compor o livro seria um complemento perfeito para o leitor/ouvinte com menos de 40 anos.

Bom saber que ainda há espaço e pessoas com disposição para resgatar nossa história, seja ela de qual setor for. Como diz o prólogo do livro:”os autores não pretendem fornecer explicações… mas sim abordar a certeza absoluta do mistério que envolverá para sempre 1973 – O ano que reinventou a MPB”.

 Serviço:

Lançamento: 1973 – O ano que reinventou a MPB
Local: Livraria Gutenberg, Rua Cel. Moreira Cesar 211 loja 101, Icaraí
Horário: 17h

Crazy Diamond – Syd Barrett e o surgimento do Pink Floyd

crazydiamondsydbarrettLançado no Brasil no fim do ano passo pela editora Sonora (especializada em publicações musicais) o livro Crazy Diamond – Syd Barrett e o surgimento do Pink Floyd, dos jornalistas Mike Watkinson e Pete Anderson, traça um perfil do integrante mais obscuro e cultuado do grupo, que fez fama após a sua saída.

Morto em 2006, Barrett se transformou de um jovem brilhante em uma alma atormentada e uma mente alterada pelo uso excessivo de drogas, principalmente o LSD. O legado musical de Barrett, que gravou apenas dois discos de estúdio – The Madcap laughs e Barrett (os dois de 1970) e teve uma coletânea com registros raros, Opel, lançada em 1988. Os três álbuns foram relançados em uma caixa nos anos 90 e a leitura do livro faz crescer em muito a vontade de ouvi-los.

Mas, voltando ao livro, a sua leitura é obrigatória (e um prazer) para todos os fãs da banda e os que se interessam por rock. A tradução é das melhores e o preço (por volta de R$ 28) é uma pechincha.

Peço desculpas por só escrever essa crítica agora em janeiro, mas não consegui começá-la antes de terminar de ler o livro até a última linha.

Já na lista dos melhores do ano (mesmo sendo um lançamento de 2013).

Ouça algumas músicas de Barrett na playlist do F(r)ases, no menu lateral.

A (chata) polêmica das biografias não autorizadas

Roberto Carlos em DetalhesSaio de férias e fico, na medida do possível, acompanhando a surreal discussão sobre as biografias. Sendo um devorador deste estilo literário (autorizada ou não) e tendo entrevistado recentemente dois dos maiores biógrafos do mundo, ainda me surpreendo com a posição de certos artistas e da nossa Justiça, que permite que uma obra seja recolhida por que o objeto do texto não gostou de algo que foi revelado.

As autobiografias têm um valor inestimável, já que alguns aspectos e incidentes só podem ser explicados por quem estava lá. Porém, como todos sabem e, quero acreditar, tenha sido o caso recente de Chico Buarque, a memória trai.

Infelizmente, por conta de uma posição radical e “censurista” do rei Roberto Carlos, e que ganhou o apoio de vários nomes da música, aparentemente por conta de um apoio na questão dos royalties – mas isso é outra história – parece ter-se aberto um abismo entre liberdade de expressão e privacidade. Proibir a divulgação de qualquer fato é censura (ponto). Privacidade é algo que uma figura pública deveria saber que não tem. Pode até conseguir esconder melhor sua  vida, mas se quiser tranquilidade, não entre para o mundo artístico ou não faça (nunca) nada do que se possa arrepender.

Man on the runA impressão que fica é a de que há uma inundação de biografias não autorizadas e que expõem uma série de inverdades sobre nossos astros e estrelas (da música, principalmente), o que é uma inverdade. Um amigo até me disse: “Quem iria escrever uma biografia do Djavan, por exemplo? Pior, quem iria LER uma biografia do Djavan?”. Mas, gostos a parte, a vida de certos personagens fazem parte da história do país. Como falar em jovem guarda sem citar Roberto e Erasmo, ou como falar de tropicália sem Gil, Mutantes ou Caetano? A simples ideia de que nada pode ser publicado sem o “consentimento” dessas pessoas é uma distorção de qualquer conceito moral e lógico que possa existir.

A discussão também serviu para amplificar o coeficiente de escrotidão de certas pessoas, como a Sra que foi até um programa de TV e tentou constranger uma jornalista, falando de sua homossexualidade – como se ela mesmo não possa ser lembrada de nada parecido em sua passagem pela Terra. A repercussão do episódio foi tão ruim e a receptividade do público (que ficou ao lado da liberdade de expressão) foram tão fortes que foi preciso um “recuo estratégico” e até mesmo uma “entrevista Seinfield” – aquela que não diz nada – de Roberto Carlos ao Fantástico foi preparada, para tentar “amenizar” a situação.

eric-clapton-biografiaQue qualquer um tem o direito de se proteger de calúnias e difamações, mas, mais que isso, todos têm o direito de divulgar qualquer fato que possa ter relevância na história de alguém ou de algum movimento cultural. Resta definir o que é calúnia e como esse ressarcimento vai acontecer. Tirar uma obra das prateleiras é pura e simplesmente uma atitude arbitrariamente censurista.

Uma vez Erasmo Carlos me disse: “Tem coisas que só Roberto e Erasmo podem sabem. Quem fez o que. E tem vezes que nem nós mesmos lembramos”.

É isso, Erasmo. Pode ser que vocês não lembrem de muitas outras coisas, mas que um amigo, amante, músico, ex-amigo, empresário, porteiro ou qualquer outra pessoa, tenha lembranças que divirjam das suas e que podem até estar mais corretas. Quem, com mais de 30 anos, nunca passou por um evento no qual a sua memória vai de encontro com a de outros que testemunharam o mesmo fato? Você confia 100% na sua versão? Jura?

layla-bookSó no último mês li três biografias (por acaso, todas não autorizadas), com fatos que se repetem nas três obras, mas sempre com testemunhos diferentes, de personagens que vivenciaram o acontecido. Se há incorreções em algumas (ou todas) elas? Provavelmente sim, mas isso não indica desonestidade do autor ou dos entrevistados. Imagine se não houvesse uma biografia não autorizada de Eric Clapton, por exemplo, já que ele mesmo escreveu na sua auto, que não lembra de muita coisa que aconteceu em meados da década de 70.

Pelo menos vimos que a sociedade se posicionou ao lado da liberdade e que figuras escrotas tiveram que sair da linha de frente, já que não têm nível para poder discutir com um mínimo de educação o assunto.

Que o STF tenha uma posição simplesmente democrática e constitucional sobre o assunto.

Agora chega, né?

Johnny Cash ganha autobiografia

Com uma vida marcada por altos e baixo, o cantor, que já foi tema do filme Johnny & June, ganha agora a edição de sua autobiografia, chamada simplesmente Cash

CashJohnny Cash, um dos principais nomes da country music norte-americana, um dos principais artistas da Sun Records, o mesmo selo de nomes como Carl Perkins e um tal de Elvis Presley, volta aos holofotes. Com uma vida marcada por altos e baixos e muitas confusões, o cantor, que já foi tema do filme Johnny & June (2006), ganha agora a edição de sua autobiografia, chamada simplesmente Cash.

O livro, escrito em parceria com o jornalista Patrick Carr e publicado pela Editora Leya, é praticamente uma leitura obrigatória para quem gosta de saber dos bastidores da vida dos astros da música, embora alguns episódios possam estar um tanto amenizados, embora o vício em anfetaminas, por exemplo, não tenha sido deixado de lado, já que teve papel importante em vários momentos da carreira do músico, que também se aventurou pelo cinema e apresentou um programa na TV. Belo registro de uma das figuras mais icônicas da música norte-americana.

Esse texto também foi publicado no jornal O Fluminense