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Phil Collins ganha nova caixa e mostra que realmente não está morto

Plays Well With Others, coletânea com 4 CDs, cobre a carreira do arroz de festa Phil Collins como convidado de outros artistas

Não faz muito tempo Phil Collins ganhou uma caixa que trazia seus oito CDs solo remasterizados e por um preço ridiculamente barato (£9) – Take A look At Me Now… The Complete Studio Collection. Agora, Tio Phil vai ganhar outra caixa com suas aventuras em discos de outros artistas.

Plays Well With Others chega ao mercado no dia 28 de setembro e já está com a pré-venda aberta por módicas £22 na Amazon inglesa. Vale fazer a pre-order. Detalhe: não há informações sobre se ela será lançada no Brasil.

 

Onipresente

Quem viveu os anos 80 sabe que Phil Collins era onipresente. Quando não era com o Genesis, Phil podia ser ouvido solo ou ajudando artistas como Brian Eno, John Cale, Eric Clapton, Tears For Fears, Howard Jones, Paul McCartney, Adam Ant e quem mais requisitasse sua presença.

São 59 faixas divididas por eras (começando pela década de 1970, seguindo até 2011, com um disco bônus ao vivo). Interessante ver que Phil conseguiu autorização para incluir Angry, faixa que gravou com Pete Townshend para o disco Press to Play, de Paul McCartney, com quem Collins acabou criando um grande mal-estar depois do lançamento da sua autobiografia (que será resenhada em breve).

— Algumas pessoas dirão que vivi uma vida cheia de charme. Eu fiz o que eu quis fazer na maior parte dela e fui bem pago por uma coisa que faria de graça: tocar bateria. Durante esse tempo eu toquei com muitos dos meus heróis e alguns deles viraram grandes amigos. Nesses quatro CDs você vai encontrar uma pequena amostra desses momentos. Agradeço aos artistas por me deixarem fazer essa caixa, o que não foi fácil — diz Phil no material promocional da caixa.

Tempo vago

A quantidade de faixas, projetos e artistas incluídos em Plays Well With Others impressiona e confirma a fama de arroz de festa do baterista — figurinha fácil também em shows beneficentes e programas de TV — ainda mais se levarmos em conta que tudo foi feito nos intervalos das gravações e shows com o Genesis e da carreira solo.

Esses intervalos permitiram que Collins produzisse e até mesmo excursionasse com alguns desses artistas. Sua parceria com Eric Clapton, para citar um exemplo, gerou o ótimo e subestimado Behind the Sun e o esquecível August, além de uma turnê (1986).

Tudo isso sem contar com a tour de force que o baterista protagonizou no Live Aid, quando tocou em Londres, pegou um Concorde e ainda tocou nos EUA (com Clapton e o Led Zeppelin).

Destaques

Algumas faixas se destacam, seja pela qualidade, seja pelos nomes envolvidos. No quesito qualidade eu destaco No One Is To Blame (de Howard Jones), Woman In Chains (do Tears for Fears), Intruder (de Peter Gabriel) e Do They Know It’s Christmas (Feed The World) — do Band Aid e que se encaixa nas duas categorias.

Já falando em nomes, os destaques são, além das já citadas Angry e Do They Know It’s Christmas (Feed The World), Lead Me To The Water (de Gary Brooker), Hero (de David Crosby), Just Like A Prisoner (de Eric Clapton) e Pledge Pin (de Robert Plant).

No geral, a qualidade das canções é muito boa e deveria fazer muita gente repensar no que foram os anos 80, principalmente quando deixamos de lado as baterias eletrônicas.

Ao vivo

O disco bônus traz registros ao vivo, com destaque para as apresentações no Jubileu de Ouro da Rainha (Party at the Palace) e os shows onde dividiu o palco com Tony Bennett, George HarrisonRingo Starr e outros superastros.

Cotação: **** ½

Disco 1: 1969 – 1982

“Guide Me Orion” – Flaming Youth
“Knights (Reprise)” – Peter Banks
“Don’t You Feel It” – Eugene Wallace
“I Can’t Remember, But Yes” – Argent
“Over Fire Island” – Brian Eno
“Savannah Woman” – Tommy Bolin
“Pablo Picasso” – John Cale
“Nuclear Burn” – Brand X
“No-One Receiving” – Brian Eno
“Home” – Rod Argent
“M386” – Brian Eno
“And So To F” – Brand X
“North Star” – Robert Fripp
“Sweet Little Mystery” – John Martyn
“Intruder” – Peter Gabriel
“I Know There’s Something Going On” – Frida
“Pledge Pin” – Robert Plant
“Lead Me To The Water” – Gary Brooker

Disco 2: 1982 – 1991

“In The Mood”‘ – Robert Plant
“Island Dreamer” – Al Di Meola
“Puss ‘n’ Boots” – Adam Ant
“Walking On The Chinese Wall” – Philip Bailey
“Do They Know It’s Christmas (Feed The World)” – Band Aid
“Just Like A Prisoner” – Eric Clapton
“Because Of You” – Philip Bailey
“Watching The World” – Chaka Khan
“No One Is To Blame” (Phil Collins version) – Howard Jones
“If Leaving Me Is Easy” – The Isley Brothers
“Angry” – Paul McCartney
“Loco In Acapulco’ – Four Tops
“Walking On Air” – Stephen Bishop
“Hall Light” – Stephen Bishop
“Woman In Chains” – Tears For Fears
“Burn Down The Mission” – Phil Collins

Disco 3: 1991 – 2011

“No Son Of Mine” – Genesis
“Could’ve Been Me” – John Martyn
“Hero” – David Crosby
“Ways To Cry” – John Martyn
“I’ve Been Trying” – Phil Collins
“Do Nothing ‘Till You Hear From Me” – Quincy Jones
“Why Can’t It Wait Til Morning” – Fourplay
“Suzanne” – John Martyn
“Looking For An Angel” – Laura Pausini
“Golden Slumbers / Carry That Weight / The End” – George Martin
“In The Air Tonite” – Lil’ Kim featuring Phil Collins
“Welcome” – Phil Collins
“Can’t Turn Back The Years” – John Martyn

Disco 4: Ao Vivo 1981 – 2002

“In The Air Tonight” (Live At The Secret Policeman’s Other Ball) – Phil Collins
“While My Guitar Gently Weeps” – George Harrison
“You Win Again” – The Bee Gees
“There’ll Be Some Changes Made” – Phil Collins and Tony Bennett
“Stormy Weather” – Phil Collins and Quincy Jones
“Chips And Salsa” – The Phil Collins Big Band
“Birdland” – Phil Collins with The Buddy Rich Big Band
“Pick Up The Pieces” (Live At The Montreux Jazz Festival 1998) – The Phil Collins Big Band
“Layla” (Live At Party At The Palace, 3 June 2002) – Eric Clapton
“Why” (Live at Party At The Palace, 3 June 2002) – Annie Lennox
“Everything I Do (I Do It For You)” (Live at Party At The Palace, 3 June 2002) – Bryan Adams
“With A Little Help From My Friends” (Live at Party At The Palace, 3 June 2002) – Joe Cocker

Uma versão desse texto foi publicada na Revista Ambrosia.

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Jards Macalé, muitíssimo bem e ao vivo

Artista ganha box com gravações ao vivo feitas entre 1977 e 1983. Muitas delas inéditas

Jards Macalé é o tipo de artista que não pode ser ouvido com pouca atenção. Nada nele ou em sua trajetória é óbvio. Por isso, sempre demanda um tempo maior para fazer a crítica de qualquer um de seus discos. Ainda mais quando são quatro, sendo três deles inéditos.

O box Jards Macalé ao vivo resgata registros históricos. Como o do show de lançamento do disco Contrastes (1977).

Lançado pelo selo Discobertas, capitaneado pelo pesquisador Marcelo Fróes, traz, ainda, uma rara apresentação: para os internos do Presídio da Papuda, em Brasília, em 11 de setembro de 1978.

— Esse projeto é decorrência do trabalho no acervo de Macalé. Faltava fazer esse box com shows memoráveis e que conta como ele se afastou das gravadoras e tornou-se independente — explica Fróes.

Documento histórico

A caixa ainda traz A volta para Vitória, gravado no Teatro Carlos Gomes, em 1981. E também o encontro ao vivo em estúdio com o percussionista Naná Vasconcelos (Let´s Play That, de 1983).

Como a maioria dos registros históricos — algumas das gravações vieram do acervo particular de Macalé —, a qualidade de som não se compara com a qualidade e importância das performances. O que não importa muito.

Os quatro shows de Macalé

Presídio da Papuda

Dos quatro shows, o mais interessante é o gravado no Presídio da Papuda (1978). Macalé desfila uma série de canções do repertório do também genial Moreira da Silva, com quem excursionava na época.

Jards Macalé Canta no Presídio é uma deliciosa, despretensiosa e improvisada homenagem ao mestre do samba de breque.

Acertei no Milhar, Olha o Padilha e Sim ou Não, valem deixar de lado qualquer deficiência na qualidade de áudio. Macalé & Cia aparecem em plena forma. E aparentam estarem se divertindo em divertir uma plateia nada comum.

Os comentários entre as canções são uma debochada viagem, assim como cantar Vara Criminal para os internos. Impagavelmente imperdível!

Contrastes ao Vivo

Contrastes ao Vivo marca o lançamento do disco homônimo. Foi gravado no Teatro Teresa Rachel, em Copacabana (atual Teatro NET Rio).

Nele, vemos um Macalé mais sério. Porém, não menos anárquico e maldito, com suas harmonias complexas e acordes dissonantes e surpreendentes saindo do seu violão.

São 22 canções (CD duplo) no formato banquinho e violão, em um registro bem mais profissional que o captado no presídio.

O trabalho de edição e masterização realça a qualidade das canções e da ótima nterpretação do artista.

A Volta para Vitória

A Volta para Vitória (1981) ajuda a compor um quadro melódico, louco e lírico de Macalé. Logo na abertura, A Melhor Coisa do Mundo (Jards Macalé/Xico Chaves) é um ótimo exemplo dessa mistura. Assim como a ode bossanoviana Chega de Saudade (Antonio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes), que fecha o disco.

No meio dele, o escrachado samba de breque Tira os Óculos e Recolhe o Homem, parceria de Jards e Moreira da Silva. Conta a história da prisão de Macalé, anos antes, por ter cantado músicas que não estavam no roteiro dos censores — coisas da ditadura militar.

Estava deitado no meu apartamento
Dormindo tranquilamente
Entregue aos braços de Morfeu
Quando chegou um fariseu…
Um só não, eram uns dez ou vinte, espadaúdos
Homens que davam a impressão
De terreno de dez de frente
Por vinte e quatro de fundos
Que foi dizendo: “levanta que está na hora
A hora é esta, vamo logo, sem demora”
Fiquei atônito e liguei pra Morengueira
Que estava hospedado naquele mesmo hotel
E fui dizendo: “ó Kid, venha cá!
O homem quer me conversar!”
Eu vou cumprir com meu papel
É seu destino, está escrito lá no céu…
A esta altura, pobre do meu coração:
Lá embaixo me esperava, de porta aberta, um camburão
E lá fui eu, com meu irmão Moreira
Fomos cantando, levando na brincadeira…

Let’s Play That

O CD que fecha a caixa é, talvez, o menos interessante, Let’s Play That. Não pela sua qualidade, mas por já ter sido lançado em 1994, apesar de ter sido gravado em 1983, num climão de jam session no estúdio, entre Macalé e o percussionista Naná Vasconcelos (1944-2016).

Nesse registro, a qualidade de som é impecável e os desempenhos, inspirados. Tudo bancado por um dos sócios do Ponto Frio!

Uma história estranha para um disco que merecia mesmo ser (re)descoberto.

— Eu e o Naná sempre quisemos gravar um disco juntos. Eu o conheci em “Gotham City“, no Maracanãzinho; a gente estava ensaiando, tal e coisa, aí de repente, de cima do palco eu olhei e vi, tinha aquele cara ali, já fazendo percussão: “Posso entrar nessa?”. Eu disse: “Esteja à vontade”. Foi aí que nós nos conhecemos e fizemos uma grande amizade — revela Macalé.

Let’s Play That traz composições solo e parcerias com Xico Chaves, Jorge Mautner e Fausto Nilo, entre outros. A excelência dos músicos é genialmente espalhada pelas dez faixas do álbum.

Mais uma vez, a elegância dissonante de Macalé se faz protagonista. Dessa vez com a luxuosa companhia da percussão louca de Naná Vasconcelos. O disco é tão diferente que talvez a música menosincomum se chame Estranha (Jards Macalé/Xico Chaves).

Quando eu nasci
Um anjo louco
Um anjo solto
Um anjo torto, muito
Veio ler a minha mão
Não era um anjo barroco
Era um anjo muito solto, solto, solto
Doido, doido
Com asas de avião
E eis que o anjo me disse
Apertando a minha mão
Entre o sorriso de dente
Vá, bicho, desafinar o coro dos contentes

Let’s play that

Para ouvir com atenção e reverência

Jards Macalé ao vivo reúne 53 faixas. Abraça um período dos mais ricos na trajetória de um dos artistas mais inquietos e criativos da nossa música.

Os shows contidos nessa caixa são daquelas obras para serem ouvidas com atenção, reverência e muito respeito.

Como já citei, a qualidade de som pode não ser 100% perfeita. Mas isso acaba dando um charme e valor ainda maiores aos registros.

O legado de Jards Macalé

Macalé já foi tema de outra (ótima) caixa do selo Discobertas (Anos 70). Lançada em 2016, que reúne seus dois primeiros discos, recheados com alguns demos e faixas ao vivo. Traz também outros dois CDs com gravações raras, muitas vezes tiradas de velhas fitas cassete.

Porém, o legado de Macalé vai além da sua própria obra autoral. Ele foi o responsável, por exemplo, pelos arranjos do ótimo Transa, gravado por Caetano Veloso durante o seu exílio em Londres.

Sua trajetória já foi alvo de dois documentários. Infelizmente, falta um registro mais histórico e pessoal da carreira do senhor Jards Anet da Silva. Aos 75 anos, ele tem muita história para contar. E muita gente quer e precisa ouvir.

O resgate do seu legado musical nos últimos anos vem conquistando uma legião de jovens fãs. Não se fazia ideia de que um som tão inovador pudesse ser produzido numa década (para eles) tão distante.

Tomara que esse resgate continue. E que Macalé não pare de produzir.

Cotação: ****

PS: Macalé é um apelido dado por conta da falta de habilidade do jovem Jards no futebol. Os amigos o comparavam a um jogador do Botafogo chamado Macalé, que podia jogar muito ou ser o perna de pau das partidas. No caso de Jards, na maioria das vezes, o perna de pau.

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia

Casuarina volta forte com o álbum +100

Grupo carioca reúne bambas como Martinho da Vila e Lecy Brandão e mostra que a saída de João Cavalcanti não diminuiu o apetite musical da banda

Já faz tempo que os meninos do CasuarinaDaniel Montes (violão de sete cordas e vocais), Gabriel Azevedo (voz e percussão), João Fernando (bandolim, violão e vocais) e Rafael Freire (cavaquinho, banjo e vocais) – não são mais meninos. O grupo, criado em 2001, chega ao 8° álbum (+100) sem a participação de João Cavalcanti, que até então era o principal vocalista e compositor do grupo. Mas se muitos ficaram preocupados com o efeito da saída do filho de Lenine na sonoridade do agora quarteto, podem se despreocupar: +100 é um dos melhores (se não o melhor) disco do grupo.

O samba chegou diferente
E agora é para ficar
Vem que a batucada tá quente
E a gente é de firmar

É bom pra curar a dor
Tem ginga que vem de lá
Trago no pandeiro a fé de um orixá

– A saída do João já era uma coisa esperada e, claro, teve um impacto sobre o grupo, mas tem sido uma mudança positiva. Isso nos tirou da zona de conforto e estão todos mais participativos. São 16 anos juntos e a saída reforçou a nossa condição de grupo, culminando com o lançamento do +100 – conta Gabriel Azevedo, principal vocalista do Casuarina.

Convidados de luxo

Leo Aversa

Cria da Lapa, no Rio de Janeiro, o Casuarina se consolidou depois de dois ótimos álbuns lançados pelo selo Biscoito Fino – Casuarina (2005) e Certidão (2007) -, o mesmo por onde gravaram +100, e parece que a volta a velha casa fez bem aos rapazes. Deixando de fora o lado autoral, o grupo peneirou um repertório extremamente inspirado e ainda recheou o álbum com algumas participações mais que especiais, como Lecy Brandão (Herança de Partideiro) e Martinho da Vila (Tempo Bom na Maré), além de Geraldo Azevedo (Embira) e Criolo (Quero Mais Um Samba).

– Tivemos essas quatro participações, mas Tempo Bom na Maré, com o Martinho, ficou exatamente da maneira que imaginamos. Além disso, ele é um cara que dignifica o samba e dá essa chancela de qualidade ao disco. Foi um sonho concretizado – confessa Gabriel.

Meu amor quando sorri é o tempo bom na Maré
Rede na beira do mar, fruta madura no pé
Água doce no riacho, lua cheia no céu
Camarão frito no tacho, sereno beijando o chapéu
Samba no pé da fogueira, mel de engenho no licor
É a vitória do sonho, vida vivida sem dor

Fôlego renovado

Foto: Leo AversaCom um título que remete aos 100 anos do samba (completados em 2017), o novo trabalho mostra que, se o presente da Lapa anda incerto, com os problemas econômicos do país e a insegurança e violência que assolam o Rio de Janeiro, o futuro do samba oriundo da região está mais que garantido. Com arranjos que unem simplicidade e sofisticação, e um trabalho vocal de primeira, +100 renova o fôlego do grupo.

Sambões, ritmos africanos e até forró estão na mistura que faz do novo trabalho casuarinense um prazer de ouvir. As 12 canções levam o ouvinte – seja ele amante do ritmo que for – por uma estrada pela qual não há como não trafegar com alegria.

– A gente vinha fazendo um show em homenagem ao centenário do samba e pensamos em gravar o disco novo baseado no repertório do show, mas achamos melhor apontar para frente e interpretar só com sambas inéditos. Isso reaproximou a gente da galera do samba, da qual nos afastamos um pouco nos dois últimos discos – No Passo de Caymmi (2014), um projeto totalmente conceitual e 7 (2016), um álbum autoral – explica Azevedo.

Força para a Lapa

Um dos principais polos de criação de novos talentos do samba, a Lapa, conforme já citado nesse texto, padece com os problemas do Rio de Janeiro (cidade e estado)

– A Lapa está sofrendo muito com o que está acontecendo com a cidade. Fizemos uma temporada lá em dezembro e janeiro e a coisa não está muito boa por lá. Tem muita casa fechando por conta da violência e da insegurança. Precisamos dar uma força para não deixar essa bela história morrer – diz o músico.

Até rapper vira sambista

Em um lançamento marcado pela sonoridade da percussão, com um repertório de novos sambas de primeira, o nome de Criolo pode até parecer um tanto deslocado, mas o rapper fecha o disco dividindo a faixa Quero Mais um Samba, mostrando que também caminha bem pela passarela do samba.

No fim das contas, +100 reforça a importância do Casuarina na cena do samba e da música brasileira. O disco também mostra que ainda há muita gente produzindo música boa e que a mistura do novo com nomes tradicionais é uma fórmula que vai sempre valorizar os trabalhos bem elaborados.

Nota: **** ½

Fotos: Leo Aversa e Diogo Montes

Uma versão desse texto foi publicada na Revista Ambrosia

Homem-Formiga e Vespa protagonizam o filme mais engraçado da Marvel

Filme, com estreia marcada para o dia 5 de julho, diverte adultos e crianças

Quem acompanha o Universo Marvel está acostumado com a atmosfera sombria dos filmes do Thor, a moralidade dos longas do Capitão América, do carisma do Homem de Ferro e a grandeza dos encontros dos Vingadores. Para balancear esse universo, tivemos o filme que introduziu na gangue o Homem-Formiga, leve e com uma dose de humor infantil bastante destacada, bem ao estilo da Disney, dona da Marvel.

O novo longa do herói, agora com uma companheira de primeira linha, volta a reunir o mesmo elenco – Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas e Michael Peña – agora com os reforços luxuosos e de peso de Michelle Pfeiffer e Laurence Fishburne. O diretor Peyton Reed (o mesmo do primeiro filme) aproveita bem o roteiro e injeta doses cavalares de humor. Mesmo as cenas mais sérias são recheadas de alguma piadinha ou referência que vão fazer o público rir.

Para quem acompanha ou não a saga dos heróis Marvel

Claro que há algumas subtramas e citações que só serão compreendidas por quem segue os filmes da Marvel, mas mesmo quem não viu nenhum dos lançamentos do estúdio vai se divertir, o que qualifica o longa para se tornar um campeão de bilheteria, mesmo que não na mesma escala do Pantera Negra ou dos Vingadores.

A história, que se desenrola após os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil e em paralelo aos eventos de Vingadores: Guerra Infinita, nem importa tanto, embora deva se conectar com a próxima aventura dos Vingadores.

Coadjuvantes de luxo

Ter a sempre bela Michelle Pfeiffer e o competente Laurence Fishburne no elenco vai elevar a expectativa de boa parte do público, mas quem rouba a cena é Michael Peña, cujo personagem – o melhor amigo de Scott Lang/Homem-Formiga – ganhou muito destaque e é o responsável por alguns dos melhores momentos cômicos do roteiro. O papel de Peña se sobrepõe até ao da vila, interpretada por Hannah John-Kamen. Já Michelle Pfeiffer, que vive Janet Van Dyne – a Vespa original, esposa do Dr. Hank Pym (Michael Douglas) e mãe da nova Vespa (Evangeline Lilly) – faz parte da trama principal do filme, mas merecia um fim melhor (se é que o que acontece é o fim). O papel do personagem protagonizado por Laurence Fishburne é o mais fraco de todos, parecendo mal construído e ambíguo demais. Há mais personagens, mas, sinceramente, não fazem lá muita diferença.

Mais que um filme-tampão

O que poderia ser facilmente classificado como um filme-tampão para preencher o vácuo entre os Vingadores 3 (Guerra Infinita) e 4 (ainda sem título), acaba se tornando um belo programa, graças ao acerto da direção, o ótimo elenco, a química entre os dois protagonistas e a óbvia ideia de não se levar muito a sério.

Se você achava que Guardiões da Galáxia foi bom e engraçado, não deixe de ir ao cinema conferir Homem-Formiga e a Vespa. É um programão!

Procurei não dar muitos spoilers, mas não posso deixar de avisar para não sair da sala de projeção antes de assistir as duas cenas extras que são exibidas durante os créditos do filme.

Futuro dos heróis desaparecidos

Tenho a impressão – e deixo claro que não é uma opinião baseada em informações – que os executivos da Marvel e da Disney guardam alguma surpresa para os fãs. Não é possível que eles mantenham o script onde um grande número de personagens foi dizimado na última aventura dos Vingadores. Há uma deixa dada pelo Dr. Estranho que me deixa com a pulga atrás da orelha e o destino do Homem-Formiga parece ter ligação com essa deixa.

Boa diversão!

Cotação: **** ½

Fotos: Divulgação

Uma versão desse texto foi publicada na Revista Ambrosia

Erasmo Carlos continua acreditando no amor

…amor é isso, novo álbum do Tremendão, traz parcerias com Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Tim Maia!

Quem disse que rockeiro não pode ser romântico? Erasmo Carlos é a prova viva de que rock e amor combinam. Responsável por grande parte das mais conhecidas canções de amor do país (compostas em parceria com o amigo Roberto Carlos) e depois de três discos de estúdio voltados mais para as guitarras, mas sem perder a gentileza – Rock n’ Roll (2007), Sexo (2011) e Gigante Gentil (2014) – o Tremendão vira o jogo e lança …amor é isso, baseado em e-mails com poesias que escreveu para a mulher, Fernanda Passos, durante os oito anos de namoro do casal.

O resultado, além das composições solo de Erasmo, é uma coleção de ótimas parcerias – Marisa Monte, Dadi, Samuel Rosa, Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, Emicida e Tim Maia – e presentes de amigos como Marcelo Camelo e Nando Reis, formando um repertório de altíssima qualidade, que fala sobre todas as faces do mais intenso dos sentimentos e passeia por vários estilos, não ficando preso apenas as baladas.

Paixão e inocência

Já na primeira canção – Convite para nascer de novo (Erasmo Carlos / Marisa Monte / Dadi), o ouvinte é levado a deixar a tristeza de lado e abraçar a oportunidade de uma nova paixão.

Houve um tempo em que eu chorava quase todo dia / Dando linha a uma vida extremamente chata / Com a vontade disponível de não existir… / Houve um tempo em que eu morava com minha tristeza / Era amigo e confidente das manhãs sem sol / Prisioneiro de mim mesmo, sem poder fugir… // De repente, o infinito de uma coisa boa / Começou devagarinho a orbitar em mim / Como num conto de fadas dos Irmãos Grimm… / Era um universo puro de uma pessoa / Que me viu um mundo morto portador de vida / Como um beija-flor perdido no próprio jardim… //

Mas se as letras dão o norte do disco, o instrumental também merece destaque. O baixo de Dadi, os violões e guitarras de Luiz Lopes, e os backings de Pedro Dias e Luiz Lopes, dão peso e unidade ao material pinçado por Erasmo. A faixa-título é um ótimo exemplo disso, com um arranjo delicado onde se destacam os violões e a ótima melodia.

Uma alegria de luz, o orgasmo da arte / Um sonho, uma ardência na alma / Uma dor, uma sorte / Mais que uma oferta egoísta e possessiva / Uma canção de ninar em carne viva… // Um universo inteiro de prazer no céu / A ressonância da paz no coração do seio / Nobre ilusão do horizonte da febre sem fim / E o som da banda avisando que o show é assim…

Sempre moderno

O romantismo não pode ser considerado uma novidade na carreira de Erasmo e mesmo assim ele ainda consegue encontrar formas de se manter novo e atualizado. Uma das surpresas do disco é a sua parceria com Emicida, que também faz uma participação vocal em Termos e Condições, faixa que fala sobre tecnologia e que é um dos destaques do disco. Até mesmo as semelhanças com trabalhos anteriores (Carlos Erasmo e A Banda dos Contentes) soam atuais e trazem um frescor reconhecível ao novo trabalho.

Erasmo pensou mesmo em tudo. O CD está sendo vendido (no site da Som Livre) com um lápis para que as pessoas possam expressar sua própria opinião sobre o que é o amor, já que o sentimento tem significados diferentes para cada alma.

Homenagem ao amigo

Se o sexo já foi tema de um disco recente, o amor expressado nas faixas de …amor é isso é daqueles que todos deveríamos querer viver: intenso, traidor, romântico, idealista e sem fim. Mesmo as canções onde o sentimento veio por conta de uma amizade – como a versão que Erasmo fez para a canção New Love, do companheiro de infância Tim Maia – têm um saboroso toque de inocência.

Eu amei / Todo o amor / Que eu tinha pra amar / O que eu não sabia / É que ela não me amava… / Eu chorei / Toda a dor / Que eu tinha pra chorar / E o pranto que eu chorava / Não fez ela voltar… / Foi então / Que a vida entre o cinza e o azul / Me mostrou / A beleza do mundo em você / Me pergunto / Se eu tenho alguma chance / De contar com seu amor nesse romance… / Ôôô love / Meu novo love / Foi tão bom achar você…

Muitos altos

Toda a unanimidade é burra, já diria Nelson Rodrigues, e dizer que …amor é isso é um trabalho perfeito seria muita pretensão, mas os altos são tantos que mesmo os mais exigentes vão se dobrar a qualidade das (12) canções e da produção (Pupillo). Convite para nascer de novo, Novo sentido, Novo Love e Parece que foi hoje, fazem os 50 minutos do álbum passarem muito mais rápido do que o normal, como num jogo de futebol bem jogado, que sempre passa mais rápido do que uma pelada.

Erasmo Carlos continua produzindo em um ritmo e com uma qualidade que impressionam, principalmente se compararmos com a preguiça do seu velho parceiro. Com …amar é isso, Erasmo deixa a estrada livre para mais canções e álbuns.

Graças a Deus!

Cotação: ****


Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia

Eduardo Dussek esbanja humor e ritmo – Niterói – 13/6/18

Cantor encantou a plateia no Teatro da UFF

O Tao de Dussek é PH*dd*! O ator/compositor/cantor entrega sempre um caminhão de alegria para suas plateias e não foi diferente na última quarta-feira (13), na sua apresentação no Show das 4, projeto que leva grandes nomes ao Teatro da UFF, em Niterói, sempre às 16h.

Comemorando 40 anos de carreira (completados ano passado) e com uma carreira musical que abrange vários ritmos e tendências – nada de sertanejo ou pagode, deixo claro -, Eduardo Dussek continua em forma musicalmente e no humor afiado, mesmo lutando há mais de uma década contra o mal de Parkinson.

 

Fazendo um show sem roteiro e escolhendo as canções de acordo com o seu humor (e o do público), Dussek ainda é uma usina de força. Para o pessoal mais jovem, ele desfila marchinhas e sucessos autorais que muitos nem devem conhecer ou saber que são de sua autoria – Seu tipo (gravada por Ney Matogrosso), por exemplo. Para os mais velhos, recorda pérolas como Nostradamus, Cabelos Negros e Barrados no Baile.

A comemoração segue dia 20 com uma apresentação no Teatro Riachuelo, no centro do Rio, que vai contar com a participação especial de Silvia Machete.

Fotos e vídeo: Jo Nunes

Roger Daltrey aposta no soul e se dá bem

As Long as I Have You traz canções originais e outras que inspiraram Daltrey na sua juventude

Uma das vozes mais marcantes do rock em todos os tempos, Roger Daltrey lança o seu 9º disco solo – ou 10º, se considerarmos o excelente Going Back Home (2014), feito em parceria com Wilko Johnson – dessa vez apostando no soul e no R&B, e se sai muito bem. Daltrey, que já passeou pelo e sempre será lembrado pelo trabalho com o The Who, mostra que, aos 74 anos, ainda tem muita lenha para queimar. A voz continua potente e afinada (apesar de algumas oitavas mais baixa) e ele consegue imprimir uma emoção genuína em todas as faixas.

Com a nobre presença do violão de Pete Townshend em sete das 11 faixas do disco, o frontman do The Who nos proporciona uma viagem por canções que fazem parte da sua vida desde jovem e por novas composições como Certified Rose, escrita para sua filha. Mas os destaques ficam mesmo com as regravações de How Far (Stephen Stills), Into My Arms (Nick Cave) e, principalmente, a faixa-título. As Long as I Have You é, inclusive, uma das canções que os High Nunbers (que depois se tornariam o The Who) tocavam em seus shows.

– Esse é um retorno ao tempo no qual Pete ainda não havia começado a compor, um tempo quando éramos uma banda de adolescentes tocando soul music para pequenas plateias em bailes de igreja – conta Daltrey.

Clima Who By Numbers

Townshend é, aliás, responsável por um clima Who by Numbers. How Far, por exemplo, poderia muito bem ter sido gravada pelo quarteto britânico em meados dos anos 70. Mas se o violão de Townshend remete aos anos 70, a inclusão de backing vocals gospel e o uso de metais em alguns arranjos fazem o disco soar denso e com a força de ícones como Otis Redding, que não é citado, mas está lá, em espírito.

Foto: Jo Nunes

O peso grave da voz de Daltrey é presença em números como Into My Arms, mas como mostrou na sua passagem pelo Brasil ano passado, ela ainda é versátil e potente o suficiente para segurar as canções mais balançadas, mostrando uma força e suingue bem maiores que os demonstrados no bom Endless Wire (2006), do The Who, e o já citado Going Back Home.

Mas nem tudo são flores. You Haven’t Done Nothing (Stevie Wonder) é um daqueles momentos que poderiam e deveriam ser evitados. Parece que faltou alguém avisar que ela destoa do resto do álbum, soando forçada e sem acrescentar nada ao disco ou a sua versão original.

Rumo ao topo

As Long as I Have You é uma prova de que o que é bom ainda faz sucesso. O disco – lançado no Brasil em CD e disponível nas plataformas de streaming – já alcançou o 3º lugar nas paradas britânicas, na frente até do moderninho Drake. Segundo as previsões, o álbum deve alcançar o topo até o início da próxima semana.

Coração: ****

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia.

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“Novo” Barão Vermelho revisita “velhos” sucessos

Carl Palmer – Teatro Municipal de Niterói – 26/5/2018

Baterista termina turnê brasileira mostrando energia e que a magia do rock progressivo não morreu

Enquanto a história mostra que bandas de rock sofrem com a perda de seus bateristas (casos do The Who, com Keith Moon, e do Led Zeppelin, com John Bonham), algumas ficam com seu legado a cargo dos donos das baquetas. O Emerson, Lake and Palmer – formado pelos ingleses Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer – entra nessa categoria.

Ícone do rock progressivo, a banda tem sua música imortalizada pelo baterista Carl Palmer, que passou pelo Brasil com a sua Carl Palmer’s ELP Legacy Tour 2018, como parte da Top Cat Series, que também trouxe o guitarrista do Genesis, Steve Hackett e o grupo Premiata Forneria Marconi. Na sua última apresentação no país, o músico e seus dois ótimos escudeiros – Paul Bielatowicz (guitarra) e Simon Fitzpatrick (baixo) – fizeram uma apresentação de gala no Teatro Municipal João Caetano, em Niterói, no Rio de Janeiro.

Clássicos

Seguindo um setlist bem próximo das apresentações anteriores, Palmer desfilou uma série de clássicos de seu ex-grupo, mostrando uma vitalidade e força surpreendentes para um senhor de 68 anos e viveu o auge do sexo, drogas e rock and roll. Peças musicais como Trilogy, Lucky Man, Fanfare for the Common Man e Tarkuso ponto alto da noite -, foram executadas com precisão e muita energia.

Recuperando o fôlego

A energia do baterista era recarregada entre as músicas, quando o britânico aproveitava para contar algumas histórias sobre as canções e sobre o grupo, e ainda recuperava o fôlego antes de atacar furiosamente a sua bateria. Normalmente a parte mais chata de um show de rock fica dividido entre a hora do solo de baixo ou do solo de bateria. Nos dois casos a surpresa foi mais que agradável. Simon Fitzpatrick fez um solo onde incluiu o clássico From the Beginning, com uma técnica de dedilhado (a lá Stanley Jordan) impecáveis. Já Palmer fez seu tour de force durante Fanfare for the Common Man, quase no fim da apresentação, marcada por vários pequenos solos.

Ataque epilético ou músicos cheios de ego e talento?

Há quem diga que o ELP não era apenas a reunião de músicos talentosos tocando música complexa e pretensiosa (no bom sentido). Para muitos o estilo do grupo se aproximava mais de um ataque epilético coletivo, onde cada um tocava de maneira egoísta. Apesar de concordar que musicalmente eles tinham um grande ego (com razão), a química e entrosamento eram inegáveis. A produtividade da banda no início dos anos 70, com a gravação de 5 álbuns de extrema qualidade – Emerson, Lake & Palmer (1970), Tarkus (1971), Pictures at an Exhibition (1971), Trilogy (1972) e Brain Salad Surgery (1973) – dentro de um período de apenas três anos é típica de uma época onde mesmo as mais complexas produções eram realizadas em uma velocidade impensável para os dias de hoje, assim como alcançar vendas de 48 milhões de discos, nesses tempos de streaming.

Teatro cheio de “combustível”

– Obrigado por terem vindo nos assistir essa noite. Sei dos problemas que vocês estão tendo com combustível e outras coisas. Nós mesmos tivemos uma carreta com equipamento parada em uma estrada e tivemos que alugar alguns equipamentos – falou Palmer para a plateia em certo momento da apresentação.

Se o país sofre com o bloqueio das estradas realizado por caminhoneiros e empresários e com a total falta de habilidade e força do Governo para resolver o problema, o público de Niterói deu uma demonstração de que mesmo com os problemas no transporte e a escassez de gasolina, a boa música vence. O belíssimo Teatro Municipal de Niterói estava praticamente lotado e, tenho certeza, suas paredes – quase bicentenárias – foram revigoradas com uma energia e uma música não muito comum para o local.

No fim das contas, os que não tiveram a oportunidade de assistir ao ELP com os três integrantes ou alguma de suas reencarnações, teve uma boa mostra da magia que a sua música ainda possui.

Ainda há grandes nomes do progressivo vivos e fazendo história. Quem tiver a oportunidade de, por exemplo, assistir ao Yes (com Rick Wakeman), não deve deixar de aproveitá-la, mas quem presenciou o Carl Palmer de 2018 pode se orgulhar de um ídolo que soube envelhecer com a força de um rapaz de vinte e poucos anos.

O show

Abaddon’s Bolero (Emerson, Lake & Palmer cover)
Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2 (Emerson, Lake & Palmer cover)
Tank (Emerson, Lake & Palmer cover)
Knife-Edge (Emerson, Lake & Palmer cover)
Trilogy (Emerson, Lake & Palmer cover)
From the Beginning (+ solo de baixo)
Canario (Emerson, Lake & Palmer cover)
21st Century Schizoid Man (King Crimson cover)
Solo de guitarra
Hoedown (Aaron Copland cover)
Lucky Man (Emerson, Lake & Palmer cover)
Tarkus (Emerson, Lake & Palmer cover)
Carmina Burana (Carl Orff cover)
Fanfare for the Common Man (Aaron Copland cover)
Solo de bateria
Nutrocker (Pyotr Ilyich Tchaikovsky cover)

Uma versão deste texto foi publicado na Revista Ambrosia

“Novo” Barão Vermelho revisita “velhos” sucessos

O Barão Vermelho, conjunto que catapultou Cazuza e Frejat para o rol dos grandes nomes da música nacional com sucessos como Pro Dia Nascer Feliz e Bete Balanço, aprendeu a se adaptar a perda dos dois líderes e segue com uma nova formação, preparando um novo disco de inéditas e regravando alguns dos clássicos da banda.

Pense e Dance, Pro Dia Nascer Feliz, Meus Bons Amigos, Puro Êxtase, Tão longe de tudo, Billy Negão e Eu Queria Ter Uma Bomba, foram gravadas no fim de 2017, por Maurício Barros (teclados), Guto Goffi (bateria), Fernando Magalhães (guitarra), Rodrigo Suricato (vocal e guitarra) e Rodrigo Santos (baixo), que também deixou o grupo. Já sem o baixista, o grupo ainda recriou versões acústicas de Por você e Brasil, formando o projeto Barão Pra Sempre, disponível nas plataformas de streaming.

– Escolhemos músicas que seguem relevantes para a banda e para o nosso público. Também foi uma forma de mostrar que várias músicas do repertório do grupo são de autoria dos integrantes da atual formação, que já cont

ribuem como compositores desde o primeiro disco – explica Maurício Barros.

Renovando o público

Muitas bandas acabam perdendo o rumo e a relevância muitas vezes pela incapacidade de renovar o seu público. Esse, definitivamente, não parece ser o caso do Barão Vermelho. Se a ban

da segue sendo um dos ícones do boom do rock brasileiro nos anos 80, as apresentações sempre lotadas, com público de todas as idades, comprovam o fôlego do Barão.

– A renovação é constante, muito aparente com a garotada, que vem ouvindo pela influência dos pais, assistindo documentários e agora tem a possibilidade de nos ver ao vivo e fazer com que o Barão faça parte da vida dela- diz Fernando Magalhães.

Novo disco

Enquanto seguem com uma agenda lotada de shows pelo Brasil, os membros do Barão também se preparam para o lançamento de um novo disco, que deve ser lançado ainda este ano.

– Estamos no processo de compor e gravar um material inédito e novo para lançarmos no segundo semestre. O disco será totalmente autoral – conta Fernando Magalhães.

O novo projeto – ainda sem título – promete ser um marco para a consolidação do som grupo na fase pós-Frejat e Rodrigo Santos.

– Neste disco vamos focar na nova formação tanto na parte autoral como na execução – complementa Guto Goffi, descartando a possibilidade de participações dos ex-integrantes.

A nova fase do Barão Vermelho pode ajudar na renovação do pouco divulgado rock nacional.

Vida longa ao Barão!

 

Uma versão deste texto foi publicado na Revista Ambrosia

Han Solo: Uma História Star Wars – apenas uma boa diversão

Filme conta a história do personagem imortalizado por Harrison Ford. Diverte, mas não empolga

Han Solo: Uma História Star Wars, chega as telonas brasileiras nesta quinta bombardeado por uma série de opiniões divergentes. Se por um lado a direção precisa de Ron Howard não pode receber muitas críticas, a escolha do elenco causa polêmica, principalmente a do protagonista Alden Ehrenreich, que faz um Han Solo longe do original de Harrison Ford.

A história

A ideia do longa é mostrar a origem de Solo, o início de sua amizade com Chewbacca, e como tomou a Millenium Falcon do dono Lando Calrissian (Donald Glover). Ou seja, não é um filme para os não iniciados, se é que eles ainda existem. Os demais personagens da história são fracos. Nenhum deles consegue trazer nada de peso para a história e não merecem ser lembrados em mais nenhum momento da saga.

O novo Solo

Seguir os passos de Harrison Ford não é tarefa fácil e Alden Ehrenreich não é muito feliz. Enquanto alguns argumentam que a ideia não era imitar Ford, mas criar um novo Han Solo – pode ser, mas preferiria ver uma atuação mais parecida com a de Chris Pine, recriando todos os trejeitos do James T. Kirk original, fazendo com que o novo capitão da Enterprise se tornasse uma boa xerox do interpretado por William Shatner – a maior parte da plateia sai do cinema com uma sensação estranha de que algo não está certo.

No fim das contas o longa diverte, mas fica longe de ser memorável e não deve chegar nem perto dos sucessos emplacados pela Marvel.

Han Solo: Um História Star Wars (Solo: A Star Wars Story)
Direção: Ron Howard
Elenco: Alden Ehrenreich, Emilia Clarke, Donald Glover
Duração: 2h 15 min
Classificação: 12 anos

Rosa Marya Colin – 19 de maio de 2018 – Festival Tudo Blues – Teatro da UFF (Niterói)

Música boa é atemporal! Dito isso, qualquer coisa que seja dita sobre a voz e o repertório da apresentação da cantora Rosa Marya Colin, na sexta-feira (18 de maio) no Teatro da UFF, como parte do Festival Tudo Blues, pode parecer supérfluo, mas não é. Acompanhada de uma banda de primeira – Flavinho Santos (bateria), Samir Aranha (contrabaixo) e Eduardo Ponti (guitarra) – e com a participação mais que especial do mestre da gaita, Jefferson Gonçalves.

O repertório foi um luxo, com clássicos do rock, soul e rithym and blues, como Precious Lord, St Louis Blues, Summertime, Sunshine of Your Love, The Weight e, claro, California Dreamin’, fizeram parte da apresentação. Com arranjos elegantemente certeiros e usando a gaita de Jefferson Gonçalves de maneira inteligente, não servindo apenas como instrumento de solo, a cantora fez uma apresentação empolgante.

Rosa Maria, cuja carreira iniciou nos anos 60, mas que estourou mesmo em 1998, com a gravação de California Dreamin’ para um comercial de TV, está em plena forma. Sua voz afinadíssima e potente, e sua imagem (quase uma Nina Simone) nos transportam para uma Lousiana imaginária, que se mistura com uma Londres psicodélica e alguma igreja do Harlen.

Quem perdeu o show (veja o vídeo completo abaixo) ainda pode se programar para ir até Rio das Ostras, onde a cantora se apresenta no dia 2 de junho (de graça), na 15ª edição do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival.

O Festival Tudo Blues segue até o dia 27 de maio, no Teatro da UFF, com shows de El84 Rock’n’ Blues Band (24), Ticão Freitas (25), Blues Etílicos (26) e The Al Pratt Blues Session (27).

 

Big Gilson, ícone do blues brasileiro, comemora 30 anos de carreira

O blues brasileiro nunca teve o mesmo espaço na mídia que outros ritmos como a bossa nova, o pagode ou o sertanejo. Pode até ser que o som criado nas plantações de algodão do Sul dos Estados Unidos no século XIX não seja visto como algo natural para o brasileiro. Mas um país que já teve (e tem) artistas do calibre de Celso Blues Boy, Baseado em Blues, Blues Etílicos e Big Gilson não pode relegar a qualidade da música produzida por essas bandas.

Gilson Szrajbman, o Big Gilson, guitarrista, cantor, compositor e um dos maiores nomes do gênero do Brasil, já tendo tocado e recebido elogios do mestre B.B. King, que disse: “Quando vejo um jovem tocando blues tão bem assim e tão longe da América, sinto que minha missão nesta vida está cumprida”, completa 30 anos de estrada com uma série de shows e um disco autoral.

Fundador do grupo Big Alambik, responsável por ótimos trabalhos como Blues special reserve (1993) e Black Coffee (1995) — que infelizmente estão perdidos, já que não estão disponíveis no formato físico ou nos serviços de streaming —, Big Gilson se apresenta no Blue Note RJ, no dia 18. O show mescla canções do seu 13º disco, o ótimo XXX, e sucessos da carreira solo.

Movido a desafios

Big Gilson, que além do Blue Note, também sobe no palco do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, no dia 31, segue o conselho de Muddy Waters e está sempre em movimento para não deixar o limo crescer.

– Não gosto de seguir a maré. Sou movido a desafios. Estou preparando um DVD desse show, que gravei no Mississippi Delta Blues Festival (em Caxias do Sul, RS), no fim do ano passado. As apresentações do Blue Note e do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (no fim de maio) serão praticamente prévias desse DVD, com algumas músicas extras. O bom dessas apresentações é que eu já sei quais músicas funcionam ao vivo, deixando o setlist bastante poderoso. Há algumas canções clássicas que faço versões que as deixam com a minha cara, soando praticamente novas – explica o guitarrista.

Sempre repaginado, sempre renovando

Gilson é daqueles músicos que muitas vezes é mais reconhecido lá fora que no Brasil, já tendo tocado com alguns dos maiores nomes do blues.

– Faço muitos shows lá fora e até já tive convites para morar no exterior. Tive a sorte de viver grandes momentos, mas, pra mim, o highlight da minha carreira foi quando fui convidado para abrir o show do Johnny Winter, que é o meu mentor guitarrístico, que foi quem me inspirou a empunhar uma guitarra, e tocar com ele. Também foi inesquecível tocar com o Mick Taylor, subir no palco do clube do Buddy Guy – com ele na plateia – e abrir shows do Chuck Berry, no B.B. King Club, em Nova York (infelizmente recém-fechado) – conta.

Com as mudanças na indústria da fonográfica, viver de música no Brasil não é fácil. Viver tocando blues é mais difícil ainda, já que o estilo fica fora da grande mídia.

– O mercado, tanto lá fora quanto aqui está difícil. Blues nunca foi fácil, mas tem uma característica muito interessante: o público é fiel. Aqui no Brasil estão acontecendo muitos festivais e até mesmo os eventos de Food Truck travestidos de festivais ajudam a mostrar a música para um público diferente. O problema maior é mesmo a renovação do público. Por isso os festivais são importantes – diz Gilson, que acredita na renovação do estilo.

– O Joe Bonamassa é o top do momento, mas vira e mexe aparece alguém de quem eu nunca tinha ouvido falar e que arrebenta. Infelizmente, nem tudo chega ao nosso alcance. O próprio John Meyer, que é o Eric Clapton da atualidade, misturando o blues, o pop e o rock, tudo muito bem, ajuda a manter acesa a chama do blues. Quem gosta de música boa, gosta de música boa. Não adianta – sentencia.

O disco

XXX é o 13º disco de Big Gilson e mostra que o bluseiro caprichou na comemoração de seus 30 anos de carreira. Cantado totalmente em português (embora com alguns números instrumentais), XXX é explosivo, misturando rock e blues, como na faixa de abertura (Hey Você) e na também roqueira Xamã do Raul.

– Parti do zero nas composições para este disco. Tudo nele é material inteiramente novo. Seria muito mais fácil fazer um Best of ou regravar clássicos do blues, mas queria algo novo para mim e para o meu público– conta Gilson.

Mas o CD é eclético. Há até baladas (Canto), mas sempre baseadas em ótimos riffs de guitarra. A produção de Bacalhau Baca (ex-baterista dos Autoramas e Planet Hemp), as letras do parceiro Leão Leibovich e os convidados especiais – Jefferson Gonçalves (gaita), Sergio Rocha (guitarra) e do produtor Bacalhau Baca (bateria), entre outros – dá mais peso ainda a celebração musical de Big Gilson.

Disponível nas plataformas musicais e em algumas das ainda existentes lojas que vendem CD, XXX é daquelas obras que merecem ser ouvidas, seja pela excelência na execução, seja pelo momento histórico da carreira de um músico que pode ser considerado um orgulho nacional.

Fotos: Jo Nunes e Divulgação

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia.

Elton John ganha dois discos-tributo

Revamp: Reimagining the Songs of Elton John and Bernie Taupin e Restoration: Reimagining the Songs of Elton John and Bernie Taupin, já estão disponíveis em streaming

Sir Elton John, um dos mais conhecidos artistas pop do mundo e seu letrista, Bernie Taupin, ganharam mais dois discos-tributo a sua obra: Revamp e Restoration, lançados após o anúncio de que Elton vai se aposentar dos palcos, reuniram astros do pop atual e da música country, com resultados bastante irregulares. Essa não é a primeira vez que a obra dos compositores é revista por outros astros. Antes de Coldplay, Q Tip, Demi Lovato, The Killers, Queens of the Stone Age, Mumford and Sons, Florence and the Machin, Mary J. Blige, Ed Sheeran, Lady Gaga, Sam Smith, Pink and Logic, Alessia Cara, Willie Nelson e uma surpreendente Miley Cyrus, entre outros, tentarem reler as canções da dupla, um outro grupo de artistas fez o mesmo em 1991, no bom Two Rooms: Celebrating the Songs of Elton John & Bernie Taupin, que reuniu um naipe de astros de mais peso como Eric Clapton, Sting, The Who, Rod Stewart, Phil Collins, The Beach Boys, Joe Cocker e Tina Turner, para citar apenas alguns nomes.

Voltando a 2018, Revamp tem uma pegada mais pop, enquanto Restoration vai pela linha country. Claro que é difícil reinterpretar canções que já são clássicos e acrescentar um pouco da sua personalidade a elas. Louvo o esforço do Coldplay (We All Fall in Love Sometimes) ou Q-Tip e Demi Lovato (Don’t Go Breaking My Heart), mas o resultado acabou soando superproduzido e sem a profundidade que, imagino, tenha sido a ideia dos intérpretes. Mas se o Coldplay não conseguiu entregar a melancolia desejada na balada escolhida, pior foi Ed Sheeran, que escolheu fazer uma versão acústica de Candle in the Wind e acabou soando um pastiche malfeito da versão que o próprio Elton lançou na caixa comemorativa dos 40 anos do álbum Goodbye Yellow Brick Road (2014). Mas nem tudo está perdido, Miley Cyrus vai muito bem em Don’t Let The Sun Go Down On Me e Lady Gaga consegue – apesar de algumas críticas (injustas) – deixar sua marca em uma boa versão de Your Song, que não faz feio se comparada com as interpretadas por Billy Paul ou Al Jarreau. Outros ficaram no meio do caminho, alguns mais para o lado bom – The Killers, com uma versão semi-golspel de Mona Lisas And Mad Hatters – e outros para o lado ruim – Sam Smith e a sua versão melosa de Daniel.

Mas se o disco pop tem mais baixos que altos, a reunião de astros do country faz de Restoration uma experiência bem mais agradável. Com apenas uma canção repetida do disco pop (Mona Lisas and Mad Hatters) e só um artista presente nos dois tributos (Miley Cyrus) o disco segue bem mais coeso, tanto em termos de repertório quanto em termos de qualidade. Miley Cyrus manda bem novamente, embora The Bitch Is Back não se encaixe bem no conceito do álbum, e Willie Nelson faz uma ótima Border Song. Outros destaques ficam por conta de Rhonda Vincent e Dolly Parton (Please) e a bela versão de This Train Don’t Stop There Anymore, interpretada por Rosanne Cash e Emmylou Harris.

No geral, os dois discos soam excessivos – seria muito melhor se escolhessem as melhores faixas e tivessem colocado em um único álbum -, mas não chegam a ser um crime contra o patrimônio do pop internacional. A ideia de homenagear Elton John e Bernie Taupin sempre merece aplausos, mesmo que sirva para lembrar como são boas as gravações originais.

PS: Os dois álbuns não têm previsão de lançamento em formato físico no Brasil.

As canções

Revamp:

01. Bennie and The Jets — Elton John, P!nk, Logic
02. We All Fall In Love Sometimes — Coldplay
03. I Guess That’s Why They Call It The Blues — Alessia Cara
04. Candle In The Wind — Ed Sheeran
05. Tiny Dancer — Florence And The Machine
06. Someone Saved My Life Tonight — Mumford and Sons
07. Sorry Seems To Be The Hardest Word — Mary J. Blige
08. Don’t Go Breaking My Heart — Q Tip feat. Demi Lovato
09. Mona Lisas And Mad Hatters — The Killers
10. Daniel — Sam Smith
11. Don’t Let The Sun Go Down On Me — Miley Cyrus
12. Your Song — Lady Gaga
13. Goodbye Yellow Brick Road — Queens of the Stone Age

Restoration:
01. Rocket Man – Little Big Town
02. Mona Lisas And Mad Hatters – Maren Morris
03. Sacrifice – Don Henley and Vince Gill
04. Take Me To The Pilot – Brothers Osborne
05. My Father’s Gun – Miranda Lambert
06. I Want Love – Chris Stapleton
07. Honky Cat – Lee Ann Womack
08. Roy Rogers – Kacey Musgraves
09. Please – Rhonda Vincent and Dolly Parton
10. The Bitch Is Back – Miley Cyrus
11. Sad Songs (Say So Much) – Dierks Bentley
12. This Train Don’t Stop – Rosanne Cash and Emmylou Harris
13. Border Song – Willie Nelson

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Who Came First faz 45 anos e ganha nova reedição

Who Came First, para muitos o primeiro disco solo de Pete Townshend (o gênio por trás do The Who) fez 45 anos e ganhou uma nova reedição remasterizada e estendida. O disco pode ser considerado uma forçação de barra da gravadora, que juntou demos (a maioria para o abortado projeto Lifehouse, que acabou tendo várias canções servindo como base do LP Who’s Next) e algumas faixas já lançadas por Townshend nos seus dois (verdadeiros) primeiros discos solo – Happy Birthday e I Am, ambos em homenagem ao seu guru: Meher Baba. Esses dois discos chegaram a ser lançados em CD pelo próprio Townshend  – em um box chamado Avatar, que também continha o álbum With Love (1976) e um DVD – em seu (falecido) site. Infelizmente, a edição foi limitada e foram poucos os que conseguiram uma cópia (eu, incluído).

Lançado originalmente em 1972, Who Came First era composto por apenas nove faixas. Dessas, Townshend não compôs três delas, participou como músico em duas e não teve nenhuma participação em uma (Forever’s No Time at All, cantada por Billie Nicholls e com instrumentação por conta de Caleb Quaye). Portanto, considerar esse um disco solo tem lá suas controvérsias.

Versão definitiva?

Dito isso, vamos ao relançamento. De um disco de nove faixas, Who Came First se transformou em um CD duplo, com mais 17 faixas, oito delas inéditas. Estas inéditas, juntamente com as originais Pure and Easy, Nothing is Everything (Let’s See Action) e Sheraton Gibson, já valeriam a compra. Se esse relançamento é a versão definitiva? Em termos de qualidade de som, sim. Em termos de conteúdo, talvez. Desta vez o álbum – que já havia sido alvo de relançamentos nos anos 90 e em 2006 – foi remasterizado a partir das fitas máster por Jon Astley, colaborador de longa data de Towshend e que foi o responsável pelas (controversas) remixagens dos álbuns do Who. O som é muito superior ao das versões anteriores, mas ainda há material que poderia ter feito parte do setlist, mas foi deixado de fora (Lantern Cabin, por exemplo), além de vários outros demos que podem ser encontradas na Lifehouse Chronicles, uma caixa de seis CDs que Townshend lançou em 2000 e que também foi lançada em edição limitada e está fora de catálogo.

A edição de 45 anos também conta com novas liner notes escritas pelo próprio Townshend, uma reprodução do poster que acompanhava o LP original e um livreto de 24 páginas com fotos de Townshend e Meher Baba no estúdio de gravação, tornando o lançamento bastante relevante para os fãs de carteirinha e para os que apenas conhecem o básico da obra do guitarrista.

Pontos altos

Além das já citadas Pure and Easy, Nothing is Everything (Let’s See Action) e Sheraton Gibson, There’s a Heartache Following Me e Parvardigar são os pontos altos do disco original. Já o segundo CD oferece aos fãs pérolas como uma nova edição do demo de The Seeker, uma versão instrumental de Baba O’Reilly (com mais de 9 minutos de duração) e duas canções que parecem um pouco fora de contexto: a versão de Evolution, cantada no memorial de Ronnie Lane, em 2014, e Drowned, gravada na Índia, em 1976.

Mas, o verdadeiro ponto alto é a qualidade de som. A nova edição (mesmo em streaming) deixa no chinelo todos os relançamentos anteriores – fiz a comparação. Desta vez Astley fez um trabalho exemplar. O som está mais alto e muito mais claro, melhor até do que o encontrado nas versões da série Scoop, na qual Townshend despejou grande parte dos seus demos.

A edição comemorativa dos 45 anos de lançamento do Who Came First deve ser a última (espero), já que não faz sentido obrigar os fãs a comprarem um material já amplamente divulgado. O lançamento – da Universal Music – ainda não tem previsão de lançamento no Brasil. Só nos resta encomendar lá fora (a Amazon inglesa está com um bom preço) e torcer para que a sua encomenda não seja roubada no meio do caminho.

Que venham os relançamentos dos demais álbuns solo de Townshend.

As faixas

CD 1
1. “Pure and Easy”
2. “Evolution”
3. “Forever’s No Time At All”
4. “Let’s See Action”
5. “Time Is Passing”
6. “There’s a Heartache Following Me”
7. ” “Sheraton Gibson”
8. “Content”
9. “Parvardigar”

CD2
1. “His Hands”
2. “The Seeker” (2017 edit)
3. “Day Of Silence”
4. “Sleeping Dog”
5. “Mary Jane” (Stage A Version)
6. “I Always Say” (2017 Edit)
7. “Begin The Beguine” (2017 edit)
8. “Baba O’Reilly” (Instrumental)
9. “The Love Man” (Stage C)*
10. “Content” (Stage A)*
11. “Day Of Silence” (Alternate Version)*
12. “Parvardigar” (Alternate take)*
13. “Nothing Is Everything”*
14. “There’s A Fortune In Those Hills”*
15. “Meher Baba In Italy”*
16. “Drowned” (live in India)*
17. “Evolution” (live at Ronnie Lane Memorial)
(* Versões ou canções inéditas)

Leia também: Documentário escancara os demônios e os dramas da vida de Eric Clapton

Documentário escancara os demônios e os dramas da vida de Eric Clapton

Life in 12 Bars, que foi exibido nos cinemas lá de fora e chega nas lojas em junho, emociona até mesmo quem não é fã do guitarrista



Eric Clapton
é um dos músicos mais famosos e talentosos do mundo. Já compôs canções que se tornaram clássicos do rock, já ganhou vários prêmios e amou várias mulheres. Porém, teve uma vida cheia de baixos e agora, depois dos 70 anos, decidiu abrir o coração em um documentário onde, mais que narrar sua carreira, conta sobre suas mágoas, seus vícios (álcool e drogas) e seus traumas. Life in 12 Bars (Vida em 12 compassos, em tradução livre) serve como um belo complemento para alguma das inúmeras biografias do músico e confirma que ele é mesmo um sobrevivente.

O filme, dirigido pela diretora e produtora vencedora do Oscar, Lili Fini Zanuck, teve como base uma série de entrevistas onde Clapton falou sem reservas sobre tudo. Por isso, talvez, a música fique em uma espécie de segundo plano, embora o próprio Clapton seja categórico: “A música me salvou”. O foco principal fica mesmo na vida do artista, desde a infância, quando foi abandonado pela mãe, criado pelos avós – ele passou boa parte da infância achando que a irmã era a sua mãe e só foi conhecer a mãe já grandinho -, até o family man dos dias de hoje, passando pelas loucuras dos anos 60 e 70 e pela morte do filho Connor, em 1991.

Vícios

Se os anos 60 foram a época da maconha e do LSD, os anos 70 foram a época – para Clapton – da heroína e do álcool. Embora amplamente divulgado, é diferente ler sobre os efeitos da droga em Clapton e ver e ouvir esses efeitos. Em uma entrevista, com a voz totalmente chapada, ele diz odiar a vida e que não vai ficar por aqui (na Terra) por muito tempo. Mais angustiante ainda é ver cenas de Clapton cheirando cocaína e bêbado no palco e fora dele, em um estado muito mais deplorável do que quando usava heroína. Os absurdos comentários racistas – que não são mostrados no documentário, que apenas apresenta recortes de jornais sobre o assunto – e o comportamento errático do músico, mostram a razão dessa década ser praticamente ignorada na maioria das biografias. Ele simplesmente não lembra de muita coisa.

Porém, em termos de vício, podemos dizer que tudo começou com uma mulher: Pattie Boyd/Layla/Harrison. A então mulher do beatle George Harrison, melhor amigo de Clapton, e dona de algum borogodó poderoso – vale lembrar que ela foi a inspiração para canções como Something, Layla, Wonderful Tonight e Breathe On Merevirou a cabeça do guitarrista, que mergulhou na heroína e acabou produzindo o seu melhor trabalho: Layla and Other Assorted Love Songs, um grito desesperado de amor, que acabou não surtindo efeito e só piorou a vida do Deus da Guitarra.

Música

Como citei anteriormente, Life in 12 Bars serve como complemento as biografias de Clapton, principalmente no que se refere a sua carreira. Há alguns momentos e outtakes interessantes da sua carreira com o Cream e, principalmente, sobre o processo de criação do primeiro e único álbum do Derek and the Dominos. Todo o resto – inclusive o encontro com Hendrix – é pincelado de maneira reverencial, mas que não dá a devida profundidade que sua música merece. Vários discos são apenas citados e outros totalmente ignorados, o que torna o documentário capenga nesse sentido.

A trilha sonora do documentário, que também será lançada em junho, traz algumas boas novidades, entre elas a versão completa do sucesso I Shot the Sheriff e duas mixagens feitas pelo próprio Clapton para canções do seu primeiro disco solo, embora também fique mais restrita aos primeiros anos da carreira do guitarrista. Mesmo assim, fica claro que ainda há muita coisa inédita nos arquivos do guitarrista. Outro ponto para a trilha sonora é trazer algumas participações de Clapton em discos de gente como os Beatles e Aretha Franklin.

Drama e emoção

Se a carreira musical é usada como uma estada secundária, fica impossível não se emocionar com momentos como o do nascimento do primeiro filho, Connor, de como Clapton nutriu e germinou o espírito paterno e de como a trágica morte do menino afetou para sempre a sua vida e, muito provavelmente, o manteve vivo. O momento no qual Clapton fica em casa lendo cartas de condolências e acaba descobrindo um tesouro do filho, é daqueles que fazem com que qualquer ser humano minimamente normal fique com os olhos cheios d’água. E se a primeira cena do documentário – uma mensagem de vídeo gravada no dia da morte do amigo e ídolo B. B. King – parece fora de contexto, a última cena do documentário faz tudo se encaixar.

Life in 12 Bars tem muitas qualidades e defeitos. Pode não ser o documentário definitivo sobre a carreira de um dos maiores nomes do rock e do blues de todos os tempos, mas é definitiva para alguém que precisava exorcizar tudo, exorcizar todos os fantasmas e demônios que tornaram possível se tornar um bom pai, marido e pessoa.

O CD, DVD e Blu-ray tem lançamento programado para o dia 8 de junho – sem previsão de lançamento no Brasil – e (tomara) deve trazer alguns extras que podem enriquecer ainda mais a obra.

Clapton ganha show-tributo pelos 73 anos no Rio de Janeiro (13/04/18)

Big Gilson, provavelmente o maior expoente do blues nacional, e a Clapton Tribute BandCharles Zanol (vocal), Pedro Leão (baixo), Rubens Achilles, (guitarra) e Gil Eduardo (bateria) – celebraram a carreira do Deus da Guitarra em show no Teatro Rival. Com um repertório que percorreu toda a carreira de Clapton, a banda mostrou momentos afiados (Badge e I Shot the Sheriff) e alguns menos inspirados (Old Love). A (excelente) banda Oldstock, que abriu a noite, fez uma ótima mistura de rock clássico e blues e aqueceu a plateia para que Big Gilson & Cia transformassem o Rival em um autêntico bar de blues de Chicago.
Os 73 anos de Clapton, completados no dia 30 de março, foram muito bem comemorados. Que muitas outras comemorações ainda aconteçam.

 

As músicas do show

Key to the Highway (acústico)
Nobody Knows You When You’re Down and Out
Before You Accuse Me
Blues Before Sunrise
Tell the Truth
Riding With the King
Bad Love
Have You Ever Loved a Woman?
Badge
Old Love
I Shot the Sheriff
Tearing Us Apart
Cocaine

Bis
Layla

PS: Uma versão desse texto também foi publicado na Revista Ambrosia

 

 

Bebedouro – Zé Renato – Um disco cheio de elegância e suingue

Zé Renato, um dos artistas mais produtivos da nossa música e dono de uma das mais belas vozes do país, lançou, no início do ano, o seu 14º disco solo, Bebedouro. O disco autoral, que ganhou um show de lançamento no Rio de Janeiro apenas agora em abril, é uma pérola de elegância nos arranjos, belas melodias e uma pitada caprichada de suingue.

O disco

Seguindo por alguns caminhos conhecidos, com melodias intrincadas e riffs de violão que remetem a composições de seus discos anteriores, mas também trilhando por sonoridades não tão comuns em suas composições, Zé Renato mostra que é possível produzir muito e manter um altíssimo padrão de qualidade. Com parcerias que vão desde nomes habituais no universo do compositor (Joyce) e ótimas aquisições (Moacyr Luz e João Cavalcanti), Bebedouro leva o ouvinte para uma viagem onde o samba, a MBP, o jazz, o sambalanço e até o rock progressivo se incorporam de maneira harmoniosa.

Fonte de Rei (Zé Renato e Paulo César Pinheiro), que abre o álbum, dá um toque rural a uma composição que, em conjunto com os vocais do grupo Subversos, deixa claro que Zé Renato não afrouxou na escolha do repertório, escolha dos (ótimos) músicos que o acompanham, na produção e nos arranjos. Sacopenapan (parceria com Joyce) vem uma homenagem ao tão maltratado Rio de Janeiro, cidade que os dois compositores escolheram para viver. Destaque para o belíssimo trabalho de Cristóvão Bastos, ao piano.

Sacopenapan
Lagoa, montanha e mar, brilhando pela manhã
Feito coração, areias e manguezais, miragem na escuridão

Sacopenapan
A água que me banhou, banhou meu amor também
Luz que iluminou o todo me criou, a gente que eu quero bem

Quando eu era criança eu só queria te viver
A vida foi me levando pelo mundo
E o mundo eu fui percorrer

Voltei pra Sacopenapan
Aldeia de onde eu vim, caminho do meu lugar
Meu quintal sem fim, que nasce em Copacabana e acaba no Humaitá

Mas não é só de Rio de Janeiro que Zé Renato bebe nas suas composições. A samba/bossa nova Vamos Curtir o Amor, uma belíssima parceria com Moraes Moreira, que dá uma canja recitando parte da letra, é um dos pontos altos do repertório. Detalhe que, segundo o cantor, essa foi uma das parcerias mais rápidas da sua vida, resultante do encontro em um aeroporto. Dentro do avião, antes da decolagem, o músico baiano avisou: “Acabei de te mandar uma letra” e a canção ficou pronta naquele mesmo dia.

O amor é sim, explosivo
Diferente da amizade
Inunda se for preciso, é feito um rio que invade
Afoga tudo que é queixa, quando se esvai ele deixa
A sombra de uma saudade

O amor é irresponsável
É o veneno da serpente
Tira onda de saudável e deixa a gente doente
O amor eu sempre aposto
O amor é assim exigente e é assim que eu gosto

O amor é irresistível e não tem dia nem hora
O amor é quase impossível e gosta do aqui e agora
No amor eu me amarro
O amor é o combustível que eu preciso pro meu carro
De que matéria foi feito a ciência ainda não sabe
Vamos curtir o amor antes que ele se acabe

Seguindo as parcerias e participações, Samba e Nada Mais (Zé Renato e João Cavalcanti), canção com o clima característico da família Caymmi com as cantigas de outras épocas, ganha o timbre grave de Dori Caymmi dividindo o registro com a clareza aguda do cantor do Boca Livre.

Agora e Sempre (Zé Renato e José Carlos Capinam) traz um clima mais calmo, num samba a moda antiga, que faz muita falta nas rádios e paradas de hoje. É daquelas que ligam a chave do túnel do tempo, para épocas bem mais criativas que a atual.

Com, segundo o autor, influências de Joni Mitchell e o Edu Lobo, Noite – outra parceria com Joyce – se estrutura baseada em outro marcante riff de violão e no poderoso som dos sopros. Um dos pontos mais altos do disco.

Náufrago (Zé Renato e Nei Lopes) transporta o ouvinte os mares calmos e cheios de melancolia de Cabo Verde, numa bela homenagem à cantora Cesária Évora (1941-2011), que Zé ouviu em um bar de jazz em Nova York e se tornou um fã de imediato.

Se Bebedouro mantém um alto padrão de qualidade nas composições que podem ser consideradas dentro do universo comum de Zé Renato, as duas últimas canções do disco – aliás, se há um defeito gritante no álbum é a sua curta duração: parcos 37 minutos e apenas 9 canções – levam o álbum para um outro nível e deixam um gosto (meio amargo) de quero mais. Agogô (parceria com Moacyr Luz) e Pedra do Mar (outra parceira com Paulo César Pinheiro). São nessas composições que Zé Renato injeta um suingue que nem sempre encontrados em sua obra.

O destaque é mesmo Agogô – totalmente inspirada no sungue da Banda Black Rio -, um dos sambas mais inspirados dessa década, comprovando o ótimo momento tanto de Zé quanto do sambista-trabalhador Moacyr Luz, é daquelas canções que têm tudo para entrar no rol dos clássicos do cancioneiro do autor de Toada.

Dá licença, faz favor que eu vou ficar em Madureira
Agogô
Eu sou cria de Silas de Oliveira

Jacaré, Jardim de Alá
Um Deus dará, num dá bobeira
Agogô
Carnaval num termina na quarta-feira

Berimbau me confirmou, o bicho pegou
É maré cheia
Agogô
Arrastão vem descendo na ladeira

Zazueira de Benjor
A moçada sambando a noite inteira
Agogô
Eu sou dessa aquarela brasileira

Esse samba vai pra você e pra quem quiser curtir
Esse samba quer alegria, ver você sorrir
Esse samba tem liberdade, é o que me importa
Banda Black Rio, o suingue carioca

Se havia alguma dúvida de que ser produtivo não impede que um artista mantenha um alto padrão de qualidade, Zé Renato desmonta a teoria com o ótimo Bebedouro. “De vez em quando, preciso mostrar que também sei fazer umas musiquinhas”, diz em tom de brincadeira.

Zé, musiquinhas?

Cotação – Excelente (4 estrelas)

 

Bebedouro – o show

O palco do Teatro Riachuelo, onde tempos atrás funcionava o cinema Palácio, no Passeio Público, foi o local escolhido para o lançamento carioca do disco Bebedouro (em 3/4). O local, com toda a imponência dos antigos cinemas de rua, é lindo, embora não tenha na acústica a sua melhor qualidade. O que poderia ser um problema passou praticamente despercebido pela qualidade do repertório e da banda que acompanhou Zé Renato nesse lançamento – Cristóvão Bastos (piano), Zé Nogueira (sax soprano), Jamil Joanes (baixo), Kiko Freitas (bateria) e os irmãos Everson Moraes (trombone) e Aquiles Moraes (trompete).

O repertório, que além das canções de Bebedouro, incluiu Zé Kétti, Egberto Gismonti e Edu Lobo, entre outros, se mostrou bem amarrado e deu mais força ainda as composições do novo trabalho. Desde os primeiros acordes de Agogô – que também fechou o show antes do bis – ficou a certeza de que Zé Renato fez escolhas baseadas na qualidade e com o intuito de deixar a plateia embevecida. Os arranjos que já soavam ótimos nas versões de estúdio, ganharam um tom de big band ainda mais nítido, mesmo nos momentos mais intimistas.

Fora do repertório do disco, Dentro de Mim Mora um Anjo (Sueli Costa) e Toada (Na direção do dia), se destacaram. O sucesso do Boca Livre, aqui em versão violão e trompete, soou nova e fresca, e ainda se transformou em uma singela homenagem a vereadora Marielle Franco, que por um dia foi a morena da canção.

A luxuosa participação de João Cavalcanti – filho de Lenine e ex-Casuarina – foi cirúrgica, dando um balanço extra a Samba e Nada Mais e a A Voz do Morro (outra de Zé Kétti). Até mesmo o momento instrumental reservado para a banda (Amphibious, de Moacir Santos), que poderia soar deslocado, se inseriu perfeitamente no universo de referências musicais criado por Zé Renato.

Infelizmente não há nada planejado para esse show – provavelmente os 40 anos do Boca Livre devem ser o foco dos próximos meses, com (tomara) a reedição dos primeiros discos do grupo e o lançamento de um novo álbum – que merecia ter uma vida longa pelos palcos do Brasil e não apenas poucas apresentações. Os amantes da boa música que tiverem a oportunidade de comparecer a uma das próximas (será?) apresentações, não devem perder a chance de, por pouco mais de 90 minutos, assistirem a uma partida onde todas as jogadas são de craque.

Repertório

Agogô (Zé Renato e Moacyr Luz)

Sacopenapan (Zé Renato e Joyce Moreno)

Noite (Zé Renato e Joyce Moreno)

Ano Zero (Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro)

Repente (Edu Lobo e José Carlos Capinam)

Uma Vez, Um Caso (Edu Lobo e Cacaso)

Carinhosa (Zé Renato e Otto)

Vamos Curtir o Amor (Zé Renato e Moraes Moreira)

Agora e Sempre (Zé Renato e José Carlos Capinam)

Diz Que Fui Por Aí (Zé Kétti e Hortênsio Rocha)

Samba e Nada Mais (Zé Renato e João Cavalcanti) – com João Cavalcanti

Mulato (João Cavalcanti) – com João Cavalcanti

Dentro de Mim Mora um Anjo (Sueli Costa e Cacaso)

Toada (Na direção do dia) (Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho)

O Amor em Paz (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes)

Tua Cantiga (Cristovão Bastos e Chico Buarque)

Amphibious (Moacir Santos) – instrumental

Navegantes (Zé Renato e Nei Lopes)

Ânima (Zé Renato e Milton Nascimento)

Pedra de Mar (Zé Renato e Paulo César Pinheiro)

Fonte de Rei (Zé Renato e Paulo César Pinheiro)

Agogô (Zé Renato e Moacyr Luz)

A Voz do Morro (Zé Kétti) – com João Cavalcanti

Bis:

Noite (Zé Renato e Joyce Moreno) – com João Cavalcanti

Fotos: Jo Nunes e Marcelo Castello Branco
Vídeos do show Bebedouro em São Paulo (22 de janeiro de 2018) por Fatuca Ferreira

Steve Hackett – Vivo Rio – 23-03-2018 – O lado progressivo do Genesis

A música do Genesis parece mesmo estar em conjunção com o Brasil. Depois da visita e do lançamento da biografia de Phil Collins, que apresentou alguns dos sucessos da fase pop do grupo, outro ex-integrante da banda se apresentou no Rio: o guitarrista Steve Hackett (que esteve no Genesis até 1977) é um dos pilares que fez do grupo um dos ícones do rock progressivo dos anos 70. O show de Hackett, que faz parte do Top Cat Concert Series, projeto iniciado ano passado, que trouxe Renaissance e 10.000 Maniacs ao Brasil e que ainda vai proporcionar aos cariocas shows de Carl Palmer (25 de maio) e do grupo Pemiata Forneria Marconi (21 de abril), sempre no Vivo Rio – também haverá apresentações dos artistas em Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre.

Começando pontualmente – com meros dez minutos de atraso – Hackett, simpático e até arriscando algumas palavras e frases em português, deu a maioria do público que praticamente lotou o Vivo Rio o que ele queria: música de qualidade, um show de técnica e uma chance de voltar para um tempo onde a música era bem mais complexa, em uma apresentação de mais de 2h30.

Seguindo à risca o roteiro do show anterior (em São Paulo), Hackett e banda – competentíssima – Roger King (teclados), Gary O’Toole (Bateria e percussão), Rob Townsend (saxofones e flautas), Jonas Reingold (baixo e violão de 12 cordas) e Nad Sylvan (vocais – emulando muito bem os timbres de Peter Gabriel) passaram por todas as fases da carreira do guitarrista, deixando, como não poderia de ser, suas canções da fase do Genesis para o final de tirar o fôlego de todos os que gostam de rock progressivo.

Depois de assistir, em menos de seis meses, dois ícones do progressivo – Yes (com Rick Wakeman) e, agora, Hackett) – fica claro que sempre vai haver espaço para música de boa qualidade. Pode ser que não se vendam mais milhares de discos, está claro que canções de 12 minutos não tocavam e continuarão a não tocar nas rádios, mas ouvir arranjos intrincados e cuidadosamente pensados, dá outro sentido ao prazer de ouvir música.

Com um domínio absurdo da guitarra e de seus recursos, Steve Hackett pode até não passar a emoção alcançada por alguns guitarristas de blues, por exemplo, mas retira do instrumento sons limpos e que fazem a viagem musical chegar longe.

Hoje (24 de março) Hackett se apresenta no Teatro Municipal de Niterói, um dos lugares mais bonitos do Rio (e do Brasil) para espetáculos. Imagino que o clima mais aconchegante do teatro pode criar uma atmosfera muito mais propícia para a sua música que o Vivo Rio que, apesar de ser uma ótima casa, sofre com a má educação do público.

No show de ontem, foi inacreditável a quantidade de gente que levantou no meio do show. Dava a impressão de que estavam bebendo cerveja demais ou estavam de saco cheio achando que veriam canções da fase pop do Genesis ou então que a comida servida estava estragada e as idas ao banheiro eram inevitáveis.

De qualquer forma, é muito bom ver que o rock (não importa a vertente) ainda é capaz de levar, apesar dos preços, um ótimo público aos palcos do Rio, ajudando a livrar a cidade da ditadura do samba e da bossa nova.

PS: Agora resta esperar o fim da turnê de Collins e a decisão dos membros do Genesis sobre uma turnê em comemoração aos 50 anos da banda.

Setlist

Please Don’t Touch
Every Day
Behind the Smoke
El Niño
In the Skeleton Gallery
When the Heart Rules the Mind
Icarus Ascending
Shadow of the Hierophant
Dancing With the Moonlit Knight (Genesis song)
One for the Vine (Genesis song)
Inside and Out (Genesis song)
The Fountain of Salmacis (Genesis song)
Firth of Fifth (Genesis song)
The Musical Box (Genesis song)
Supper’s Ready (Genesis song)

Bis:
Los Endos (Genesis song)

PS”: Há um código para a compra de ingressos com desconto (ROCKPROGRESSIVO). Aproveitem.

Fotos: Fernando de Oliveira
Vídeo: Jo Nunes

Agenda de Shows internacionais no Rio de Janeiro em 2018

Phil Collins – Maracanã – 22/2/2018

Monty Python ganha biografia

Talvez os mais jovens estejam se perguntando: “o que diabos é Monty Python?”. O Monty Python é/foi um grupo humorístico inglês que revolucionou o jeito de fazer graça na TV (entre 1969 e 1974) e no cinema (entre 1975 e 1983), influenciando gente como o ex-beatle George Harrison, o comediante e ator Tom Hanks, os comediantes do Saturday Night Live e as mentes que criaram o TV Pirata e Casseta & Planeta – afinal, o humor começou muito antes do Porta dos Fundos. Lançado originalmente em 2003, Monty Python – Uma Autobiografia Escrita Por Monty Python, ganhou versão brasileira no início do ano, com prefácio do cronista Antonio Prata e de Gregório Duvivier, do já citado Porta dos Fundos.

As informações acima podem gerar uma outra dúvida: por que fazer uma crítica de um livro lançado em 2003 e que chegou ao Brasil em janeiro, quando já estamos em março? A resposta merece um parêntesis.

Abre parêntesis

Sempre que possível faço criticas de discos, filmes, shows, peças de teatro e livros. Porém, diferentemente de muitos veículos de comunicação que até gozam de certo prestígio, não escrevo sobre nada que não tenha lido, ouvido ou assistido. Não acho justo com o artista, escritor e, principalmente, com o leitor. Reproduzir as informações contidas em um release é fácil, mas está longe de poder ser considerado jornalismo. Portanto, você jamais irá ler uma crítica no F(r)ases sobre algo que não tenha sido verdadeiramente analisado. Se você vai concordar ou não é outra história.

Fecha parêntesis

 

Formado pelos britânicos Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e pelo americano e Terry Gilliam (responsável pelas ilustrações que tornavam o humor do grupo ainda mais único), o sexteto mudou o mundo e tinha uma química tão poderosa que George Harrison dizia acreditar que o espírito dos Beatles havia reencarnado no Monty Python, já que eles se reuniram no mesmo ano no qual os Fab Four se separaram. Harrison era tão fã do grupo que chegou a criar uma produtora de cinema e a hipotecar a sua casa para produzir o filme A Vida de Brian, o que, segundo os Pythons, deve ter sido o ingresso de cinema mais caro da história.

Spam e outros quadros

Mas, provavelmente, a maior contribuição dos Pythons (como eles se chamavam) foi a inclusão da expressão spam na vida de praticamente todos os moradores da Terra que usem a internet. A expressão spam/caixa de spam foi adotado por cause de um esquete do grupo onde um casal vai até uma taberna viking onde todos os pratos são servidos com spam (uma marca de carne suína enlatada, popular e de má qualidade). Depois do esquete, o spam (Sending and Posting Advertisement in Mass, ou enviar e postar publicidade em massa, ou ainda Stupid Pointless Annoying Messages) foi incorporado aos leitores de e-mail de todo o mundo.

O livro – publicado pela editora Realejo – sofre com algums problemas de tradução, especialmente nos nomes dos quadros que fizeram a fama dos Pythons, mas nada que atrapalhe o entendimento do espírito da coisa, como A Inquisição Espanhola, O Papagaio Morto, O Ministério das Caminhadas Tolas ou a Canção do Lenhador (The Lumberjack Song), a minha preferida.

Outro detalhe do livro é que a narrativa, apesar de cronológica, não é linear. Todo o texto é baseado em entrevistas dos membros vivos e nos relatos do diário e de familiares de Graham, morto em 1989, o que faz com que cada tópico seja comentado por cada um dos membros do grupo, muitas vezes mais de uma vez, e exige uma atenção extra para lembrar quem falou o que. Uma bagunça organizada, bem ao estilo Python.

 

Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, John Cleese,, Terry Jones e Terry Gilliam

Flying Circus e a conquista do cinema

 

O legado do Monty Python vai desde as esquetes criadas para o Monty Python’s Flying Circus (transmitido pela BBC entre 1969 e 1974), como as citadas anteriormente, mas também pelos filmes produzidos para o cinema e que foram, em alguns aspectos ainda mais brilhantes que os exibidos no programa de TV. Em Busca do Cálice Sagrado (1975), A Vida de Brian (1979) e, em menor escala, O Sentido da Vida (1983), são obras que não envelhecem e que estão entre o melhor que o humor já levou para as telas. Há também o Monty Python Ao Vivo no Hollywood Bowl (1982), mas esse é uma coletânea de esquetes e não um filme propriamente dito.

Provavelmente você vai lembrar de algumas das cenas que espalhei pelo post ou, pelo menos, notar semelhanças em muitos outros quadros e piadas de humoristas mais jovens.

A vida após o Monty Python

Com a morte de Chapman uma reunião verdadeira dos Pythons se tornou impossível, embora os sobreviventes tenham, vez ou outra, se encontrado para algum projeto. Porém, a atividade dos comediantes após a sua separação oficial foi sempre intensa e muitas vezes contando com a participação de algum dos antigos companheiros. Filmes de sucesso como Um Peixe Chamado Wanda, Brazil, As Aventuras do Barão de Munchausen, são alguns dos projetos nos quais pelo menos um dos Pythons esteve envolvido. Além desses filmes, há de se destacar as participações de John Cleese como M em alguns filmes da série James Bond, o especial de TV Rutles: All You Need is Cash (no qual Idle e amigos fazer uma paródia dos Beatles, com a participação de gente como Paul Simon, Mick Jagger e, claro, George Harrison). Cleese, talvez o mais ativo dos Pythons, também protagonizou a série de TV Fawlty Towers e fez aparições em outros programas como Cheers e 3rd Rock from the Sun.

Reconhecimento da classe

Os membros do Monty Python ganharam o reconhecimento definitivo dos colegas de profissão quando, em 2005, uma pesquisa feita com 300 outros comediantes, produtores, escritoires e diretores, colocou três dos seis Pythons entre os 30 melhores comediantes em lingua inglesa de todos os tempos: Cleese na posição 2, Idle na 21, e Palin na número 30.

Monty Python – Uma Autobiografia Escrita Por Monty Python conta muitos detalhes e curiosidades sobre a vida e carreira do grupo (quase totalmente) inglês e é uma leitura muito interessante, embora exija, como já foi dito, uma certa atenção. Creio que os vídeos e áudios que complementam esse post sirvam para ajudar a entender porque eles alcançaram o status de um dos melhores (senão o melhor) grupo humorístico de todos os tempos.

Monty Python – Uma Autobiografia Escrita Por Monty Python
Editora: Realejo
Páginas: 432 páginas
Preço sugerido: R$ 69,90

Mais dos Pythons

 

A última balada de Wilde (by André Machado)

Edição de 1921 do poema, editado por Robert Ross (foto minha, eu tenho o livro)

Num país como o nosso, com prisões superlotadas e volta e meia palcos de rebeliões e chacinas, é válido lembrar um dos mais famosos textos que denunciaram a dura realidade das prisões inglesas no século XIX — o longo poema “A balada do cárcere de Reading“, de Oscar Wilde, cuja publicação completou 120 anos no último dia 13 de fevereiro.

Condenado por sua homossexualidade a dois anos de prisão com trabalhos forçados a partir de 1895, Wilde viu sua vida ruir: foi à falência (seus bens foram leiloados às pressas antes mesmo do julgamento final), nunca mais pôde ver os filhos e tornou-se um pária. Um dos diretores do presídio de Reading, onde cumpriu a maior parte da pena, previu que o regime de trabalhos forçados a que o escritor foi submetido o deixaria alquebrado e o levaria à morte em poucos anos. De fato: Wilde morreu pobre e esquecido em Paris três anos e meio após sair da cadeia.

Edição de 1904 do poema (domínio público)

Enquanto estava em Reading, Wilde soube que um soldado de um regimento de cavalaria real, Charles Thomas Woolridge, seria enforcado por matar a esposa (cortou-lhe a garganta), o que lhe causou profunda impressão. Teria sido um crime passional. A execução ocorreu em julho de 1896, e o escritor foi libertado no ano seguinte, mudando-se para um chalé em Berneval-sur-mer, na França. Ali começou a rascunhar a balada, que se tornaria sua mais célebre obra em versos.

Dedicado ao soldado enforcado, o poema descreve as sofríveis condições na prisão, o clima de medo e solidão, a rotina de labuta e privações, e chega ao auge com a estrofe:

“Todos os homens matam o que amam

Seja por todos isto ouvido,

Alguns o fazem com acerbo olhar,

Outros com frases de lisonja,

O covarde assassina com um beijo,

O bravo mata com um punhal!”

(Tradução de Oscar Mendes)

Dedicatória de Wilde ao Major Nelson, diretor que o tratou melhor em Reading. Lê-se:"[ao] Major Nelson, do autor, em reconhecimento de muitos atos de delicadeza e gentileza". Note o C.3.3, número da cela de Wilde, com que foram assinadas as primeiras edições (reprodução)

Com tais versos, Wilde se compara ao cavalariano enforcado, mas em seu caso foi de sua própria vida social e liberdade que ele deu cabo, ao tentar processar o marquês de Queensberry, pai de seu amante, Alfred Douglas, e ver o governo britânico se voltar contra si.

O poema, última obra literária do escritor irlandês, teve seu esboço inicial escrito em apenas 12 dias, segundo o biógrafo Richard Ellmann. Depois foi revisado e aumentado. No total são 109 estrofes com seis versos cada uma, alternados entre oito e seis sílabas. Mas uma versão com 63 estrofes também apareceu em edições póstumas, editadas por Robert Ross, melhor amigo, amante e testamenteiro literário de Wilde. Numa reedição de 1921 de “Selected poems – Oscar Wilde“, originalmente publicada em 17 de agosto de 1911, Ross apresenta as versões completa e a condensada, indicando que a última deriva “do esboço original. Ela foi incluída para beneficiar récitas cujas plateias acharam o poema muito longo para declamação”. (Uma leitura magistral do texto em inglês está no YouTube. O poema original em inglês pode ser encontrado aqui.

Wilde em 1897 em Nápoles, após sair da prisão (reprodução) Ross também nota que a balada representou a volta de Wilde à poesia após 16 anos mergulhado em prosa e teatro, com a notável exceção de “A esfinge”, de 1894. O poema foi inicialmente publicado pelo editor Leonard Smithers sem o nome do autor e com o pseudônimo C.3.3, que indicava a cela onde Wilde ficava. Só após sete edições seu nome foi revelado, e mesmo assim ao lado do C.3.3, entre parênteses, na folha de rosto. Segundo Ellmann, entre 1898 e 1899 foram vendidas cerca de 4.100 cópias (até a sexta edição). Uma tradução francesa feita por Henry Davray saiu ainda no final de 1898.

“Estou tão feliz com o sucesso de meu poema na Inglaterra”, escreveu Wilde a um amigo. “Mas é o meu canto de cisne, e sinto ter de partir com um grito de dor; mas a Vida que tanto amei — amei demais — me dilacerou como um tigre (…). Não creio que escreverei novamente; la joie de vivre se foi.”

Dito e (não) feito. A chama wildeana se apagou em novembro de 1900 em Paris. Mas “A Balada…” permanece. Dela saiu o próprio epitáfio de Wilde: “Por ele se encherá de alheia lágrima/ A urna partida da compaixão,/ porque por ele chorarão os proscritos/ E os proscritos sempre choram“.

 

Sobre o autor

André Machado é jornalista, rockeiro, bluseiro, amante da boa literatura e uma das pessoas mais especiais que já conheci. Difícil encontrar algo que ele não faça bem.

Concert for George é relançado

No dia 25 de fevereiro se comemora o aniversário de George Harrison, que completaria 75 anos em 2018. Foram muitas as lembranças e homenagens ao músico em publicações e nas redes sociais e, para marcar a data, foi relançado o que pode ser considerado um dos melhores concertos-tributo de todos os tempos: Concert for George.

Poderia perder um tempo explicando quem foi George Harrison, mas se alguém nunca ouviu falar dos Beatles ou escutou canções como Here Comes the Sun, My Sweet Lord, Something, Love Comes to Everyone ou Taxman, melhor se atualizar ou parar de ler por aqui.

O show – organizado pela viúva e pelo filho do ex-beatle (Olivia e Dhani) e tendo como diretor musical o amigo Eric Clapton– teve por objetivo celebrar a obra de Harrison, um ano após a sua morte. Realizado no Royal Albert Hall, em Londres, em novembro de 2002, Concert for George reuniu um elenco estrelar de amigos de George que incluía gente do calibre de Ray Cooper, Tom Petty, Billy Preston, Jools Holland, Albert Lee, Sam Brown, Gary Brooker, Joe Brown, Jeff Lynne, Klaus Voormann, os ex-beatles Ringo Starr e Paul McCartney, além de Eric Clapton e da banda que acompanhou Harrison em sua turnê pelo Japão em 1991, entre muitos outros, como os membros do Monty Phyton.

Lançado originalmente em 2002, Concert for George ganhou novas edições – inclusive em vinil – remasterizadas e ampliadas. Por que ver e ouvir Concert for George? Porque a celebração musical ultrapassa o conceito de homenagem e dos shows-reunião onde cada artista chega, canta sua canção e se vai, sem ensaio ou coerência. Eric Clapton fez três semanas de ensaio (o que causou até alguns atritos com outros astros) e produziu um setlist muito bem amarrado e tocado por gente que realmente conviveu e amou Harrison, o que proporcionou momentos verdadeiramente emocionantes, como Something (que foi a estréia da versão que Paul McCartney toca até hoje em seus shows) e Joe Brown fechando o show com I’ll See You in My Dreams (uma canção que não foi escrita por Harrison, mas que deixa lagrima nos olhos).

HGorge era considerado por todos os amigos uma pessoa cheia de humor, apesar de ter um lado ranzinza, principalmente em relação ao grupo que o catapultou para a fama e suas canções refletiam isso, indo da melancolia extrema ao escracho. Foi o beatle que fez mais sucesso nos primeiros anos após a separação do grupo e, apesar de uma certa preguiça na produção de álbuns, deixou um legado que vai durar por muitos anos.
Concert for George já está sendo vendido lá fora e pode ser encontrado nas Amazons da vida.

Arrependimento

Dizem que não devemos nos arrepender de nossas ações. MENTIRA! No início de 2002 – ainda sob o impacto do 11 de setembro – fiz uma viagem para a Inglaterra e os Estados Unidos. Com a impressão de que o mundo poderia acabar ou entrar em uma guerra, gastei e conheci razoavelmente bem cidades emblemáticas como Londres, Liverpool e Nova York.

De volta ao Brasil, ao trabalho e à realidade, fiquei sabendo do concerto, que poderia me fazer concretizar alguns sonhos (assistir um show no Royal Albert Hall, ver Paul McCartney novamente, ver Ringo Starr pela primeira vez e ouvir canções que dificilmente seriam tocadas novamente). Bem, no dia da venda de ingressos eu consegui chegar até a última tela de compra e, no último segundo, decidi não finalizar o processo (BURRO!). Pesou o fato de ainda estar pagando a viagem do início do ano e de ser difícil explicar para o então-imbecil-chefe que iria viajar de novo.

É, me arrependo muito dessa decisão.

As canções da edição em CD:

Disco 1

1. “Sarve Shaam” (traditional)
2. “Your Eyes (Sitar Solo)” (Ravi Shankar) Anoushka Shankar
3. “The Inner Light” Jeff Lynne, Dhani Harrison and Anoushka Shankar4. “Arpan” (Ravi Shankar) Anoushka Shankar

Disco 2

1. “I Want to Tell You” Jeff Lynne
2. “If I Needed Someone” Eric Clapton
3. “Old Brown Shoe” Gary Brooker
4. “Give Me Love (Give Me Peace on Earth)” Jeff Lynne
5. “Beware of Darkness” Eric Clapton
6. “Here Comes the Sun” Joe Brown
7. “That’s the Way It Goes” Joe Brown
8. “Taxman” Tom Petty and the Heartbreakers
9. “I Need You” Tom Petty and the Heartbreakers
10. “Handle With Care” Tom Petty and the Heartbreakers with Jeff Lynne and Dhani Harrison
11. “Isn’t It a Pity” Billy Preston & Eric Clapton
12. “Photograph” Ringo Starr
13. “Honey Don’t” Ringo Starr
14. “For You Blue” Paul McCartney

As versões originais

 

As versões do show

Phil Collins – Maracanã – 22/2/2018 (by Débora Thomé)

“I can feel it coming in the air tonight, oh Lord
And I’ve been waiting for this moment for all my life, oh Lord
Can you feel it coming in the air tonight, oh Lord, oh Lord”

Dia 22 de fevereiro de 2018, guardem essa data: foi o dia em que o hitmaker Phil Collins atingiu 40 mil pessoas em cheio, de uma só vez, sem nem levantar da cadeira. Mas poderia ter sido mais, digamos assim, destruidor, caso o popstar britânico tivesse consultado minha página no Facebook — como “fizeram”, bem recentemente, os compatriotas do The Who.

(Explico. Sofro de alta-ansiedade-pré-mega-shows. O gatilho é a compra do ingresso; pesquiso setlists, assisto a shows, documentários e entrevistas antigos no YouTube, pesquiso a vida do artista/banda no Google, compro biografias. Mergulho de cabeça quando me interessa. Os mais recentes “music divings” desse tipo foram Rod Stewart, The Who e Phil Collins. Consulta às minhas sugestões de setlist não passa de uma brincadeira, que virou uma enorme coincidência no caso do The Who.

E apesar de ter sido tudo lindo, maravilhoso, tio Phil meteu um pequeno engodo em geral. Não mentiu quando disse que a voz está em dia, apesar das limitações físicas. Nem um pouco; está tinindo mesmo o gogó. Mas não cumpriu o prometido, que era trazer um show maior para o público brasileiro, que aguarda esse encontro desde 1980.

O safadjenho cortou a “parada técnica” — a turnê realizada em 2017 teve shows divididos em dois sets, com um video engraçadíneo de autozoação no intervalo — e limou uma música de cada set. Ou seja. Em vez de marcar um gol de placa em pleno Maracanã, resolveu fazer “o técnico maluco do Framengo*” e mexeu errado.

Só que ele acusou o golpe, que eu vi. Tomou um susto quando, mesmo sem querer, já garrou a gente pelos cabelos nos primeiros acordes da balada arrasa-quarteirão Against all odds. Dali do meio-campo, quer dizer, da pista, eu olhava aqueles celularzinhos todos acesos, balançando no anel do Maraca naquele efeito maravilhosamente brega e pensava “nossa, esse cara fez essa música por absoluta encomenda, como pode?”.

Moro em frente ao estádio. Fui brindada com dois shows, porque rolou ensaio (aquilo não foi passagem de som, não) na quarta à noite, e anotei o setlist para preparar meu coraçãozinho. Segunda música, outro sucesso balada; estava batendo com o ensaio, eu feliz e esperançosa. Na terceira veio o drible pro lado errado. CADÊ One more night, cacete? Quase ouvi o Galvão gritar PRA FOOOOOOOOOOOOORAAAAAAAAAAAAA no sistema de som da Suderj que mora dentro da minha cabeça.

Mas ok, emendou I missed again e tinha muito jogo pela frente. Mas aí ele me mete as desnecessárias Hang in long enough e Wake up call em sequência, e o time perdeu um pouco o ritmo.

Sério. Consegui até avançar mais no meio do público, que abriu um clarão nessa hora. Só que talento é talento, né. Para não deixar escapar o controle sobre a turba, que pulou no colo do cara nas primeiras músicas, ele me manda um clássico do Genesis.

Juro pra vocês: houve um momento, durante a execução de Throwing it all away, em que vi Phil Collins abrir um sorrisão enquanto a torcida (ops!) a plateia cantava o refrão a plenos pulmões, aquele monte de mãozinha batendo palmas pra cima. Show de bola. E foi só alegria dali até o fim, apesar de eu ter considerado desnecessário Dance into the light na sequência final dançante.

Se ele presta atenção em mim tinha incluído dois petardos ali naquela meiuca, para lavar a alma e correr pro abraço! Enfim, como ele mesmo canta, “it’s just another day for you and me in paradise“. Para quem vai assistir aos shows em São Paulo (dias 24 e 25) ou Porto Alegre (dia 27), desejo apenas que ele leia este post e faça os devidos (e pequenos, vamos combinar) ajustes!

COMO ENSAIOU

– Against all odds
– Another day in paradise
One more night
– Wake up call
– Follow you, follow me
Can’t turn back the years
– I missed again
– Hang in long enough
– Separate lives
I don’t care anymore
– Something happened on the way to heaven
You know what I mean
– In the air tonight
– You can’t hurry love
– Dance into the light
Don’t lose my number
– Invisible touch
– Easy lover
– Sussudio
– Take me home

COMO FOI

– Against all odds
– Another day in paradise
– I missed again
Hang in long enough
Wake up call
– Throwing it all away
– Follow you, follow me
– Only you know and I know
– Separate lives
– Something happened on the way to heaven
– In the air tonight
– You can’t hurry love
Dance into the light
– Invisible touch
– Easy lover
– Sussudio
– Take me home

O QUE EU SONHAVA PRESENCIAR

– Against all odds
– Another day in paradise
– One more night
– Tonight, tonight, tonight
– Follow you, follow me
– Land of confusion
– I missed again
– I wish it would rain down
– A groovy kind of love
– I don’t care anymore
– Something happened on the way to heaven
– You know what I mean
– In the air tonight
– You can’t hurry love
– I cannot believe it’s true
– Don’t lose my number
– Invisible touch
– Easy lover
– Sussudio
– Take me home

* Mudança feita pelo editor do site, que é limpinho.

Sobre a autora: Débora Thomé é jornalista talentosa, escocesa por opção e amiga por toda  vida. Como não pude ir ao show, escalei essa  enviada mais que especial.

Fotos: Marcos Serra Lima

Fotos da galeria: Marcos Hermes

Queen + Adam Lambert – Rock in Rio 18/8/2015

Uma crítica nada correta

img-1033734-rock-rio-2015-queenProvavelmente a apresentação do Queen com o vocalista(?) Adam Lambert, no encerramento da primeira noite da edição 2015 do festival, será comentada por muito tempo. Alguns (poucos) gostaram e (muitos) outros detestaram. A biba saída do The Voice/American Idol foi vendida como o cantor escolhido para substituir Freddie Mercury. MENTIRA! Brian May e Roger Taylor já haviam recrutado cantores muito melhores para interpretar as músicas gravadas com o Queen. Fico impressionado como ninguém citou a passagem da banda pelo Brasil em 2008 com o excelente Paul Rodgers mandando ver nos vocais.

queen3A diferença da apresentação de 2015 para a de 2008 é que enquanto Rodgers é um dos melhores vocalistas do rock, com uma carreira consolidada e sem a necessidade de aparecer, o tal Lambert parecia querer aparecer demais, com uma série de clichês vocais e trejeitos que misturavam Prince, George Michael, Michael Jackson e alguns sertanejos universitários, sem conseguir chegar perto de nenhum deles. A afetaçãoque fez o Freddie parecer um Jece Valadão – teve o seu ápice em Killer Queen.

Extremamente constrangedor.

1543700_queenadam_lambert_94_gOs melhores momentos do show ficaram por conta dos ex-integrantes e das aparições no telão do falecido vocalista. A decisão de colocar May para cantar Love of My Life foi felicíssima, já que impediu i assassinato de uma das canções símbolo do festival. Ok, na parte final, com canções mais grandiosas, Biba Lambert se saiu melhor, mas isso teria que acontecer em algum momento mesmo.

Nem vou escrever muito mais porque prefiro esquecer o que aconteceu no palco da Cidade do Rock. Quem puder procure ver os vídeos dos shows de 2008 antes de comentar que estou sendo imbecil.

Fotos: Ag.News

Homem-Formiga – Uma boa Sessão da Tarde

Se você ficou entusiasmado com as aventuras do Homem de Ferro, se impressionou com os feitos do Capitão América, se emocionou com Thor e riu com a interação entre Os Vingadores, vai achar os feitos do Homem-Formiga (que entra em cartaz nesta sexta) engraçadinhos.

Estrelado por Paul Rudd e com a (ótima) participação de Michael Douglas, o projeto – que demorou muito para ser finalizado (havia rumores de que o personagem estaria no último filme dos Vingadores) -, mostra o Dr. Hank Pym (Douglas) já bem mais velho e tendo que recrutar o jovem ladrão Scott Lang (Rudd) para usar o seu velho traje de Homem-Formiga e salvar o mundo de uma terrível ameaça (nada de spoiler).

O problema é que o herói é um dos menos famosos e mostrou-se difícil de encaixar no atual universo da Marvel e as citações tiradas das histórias em quadrinhos são muitas, o que deve fazer com que o espectador normal tenha dificuldades em entender o passado do personagem. A saída encontrada pelo diretor Peyton Reed foi o humor em grandes doses, tornando o longa um grande candidato a sucesso na Sessão da Tarde. Claro que deve render bons milhões para a dupla Disney/Marvel e que a continuação já está garantida, mas fica longe da qualidade dos outros filmes baseados nas criações de Stan Lee & Cia, apesar das ótimas atuações de Michael Douglas, Evangeline Lilly, Paul Rudd, que mantém bem seu jeitão de galã de comédias românticas e do elenco de apoio, que mantêm o humor sempre em alta.

Homem-Formiga XI
Ficou a impressão de que com a interação com os demais Vingadores o Homem-Formiga pode ganhar corpo e crescer, mas isso só no próximo longa. Vá ao cinema sem grandes expectativas e divirta-se.divirta-se.

Fotos: Divulgação Marvel

Texto escrito para a Revista Ambrosia

Não olhe para trás e a importância de John Lennon

Não Olhe Para Trás IO filme Não Olhe Para Trás, estrelado pelo grande Al Pacino e que ainda está em cartaz em alguns cinemas do Rio de Janeiro, me faz pensar em como uma carta de um ídolo pode mudar a nossa vida. O longa está longe de ser uma obra-prima, mas tem elementos que tocam muita gente, em especial este que vos escreve.

A história gira em torno de Danny Collins, um cantor de pop/rock/folk que vive de sucessos do passado e que sempre viveu num estilo um pouco caricato do rock star dos anos 70, com muitas mulheres e drogas, e que descobre que, em 1971, John Lennon leu uma entrevista sua e escreveu uma carta para ele com elogios e até mesmo com o número de telefone para um possível bate-papo. O problema é que esta carta nunca foi entregue e Danny só soube da sua existência agora, 40 anos depois do ocorrido. Esse evento serve como pano de fundo para que ele tente melhorar a sua vida, um tema mais que batido, mas que é bem conduzido pelo diretor Dan Fogelman.

Não Olhe Para Trás IIOutro ponto alto do filme é a ótima atuação do elenco de apoio –  Christopher Plummer, Annette Bening, Bobby Cannavale e Jennifer Garner – que mesmo com algumas falas e cenas não muito bem construídas consegue manter a bola quicando em bom nível.

O que me tocou mais no filme foi, é claro, a coincidência de também ter recebido correspondências escritas pelo ex-Beatle e pensar na possibilidade de que alguma dessas correspondências pudesse ter se extraviado por conta de um carteiro desleixado ou de algum outro evento.

carinha LennonVer aquele desenho característico que Lennon usava quase como assinatura emocionou, principalmente pelo fato de poder olhar para alguns deles todos os dias. Imaginar o quão a minha vida seria diferente sem esses cartões postais é algo desafiador, mas ainda bem que não é preciso.

Agora, é só resolverem fazer um roteiro sobre essa minha história!

Ah, voltando ao filme: é razoável, mas inesquecível para mim.

Crítica: Os Vingadores: Era de Ultron ou Nasce mais um Blockbuster

Ultron X
Os Vingadores: Era de Ultron
, que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, tem todos os elementos para superar os números milionários do seu antecessor. O Universo Marvel – que realmente se tornou um universo, com vários longas contando histórias individuais dos heróis, além de séries de TV mostrando o funcionamento e as lutas da S.H.I.E.L.D. – chegou a um ponto onde para se ter uma experiência completa é preciso acompanhar cada novo lançamento.

AFTER_PARTY_PAYOFF_BRAZIL_-_Copy.jpg_rgbA cabine de imprensa, talvez por estar espremida entre feriados, foi bem menos concorrida do que eu havia imaginado. E, mesmo já estando nos cinemas, vou procurar não dar muitos spoilers, mas informo que os super-heróis mais amados dos quadrinhos estão de volta – Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, Viúva Negra e Gavião Arqueiro, além de mais alguns novos personagens. O humor e a ação, característicos dos longas da Marvel, também estão lá em doses mais que generosas, e a preparação do terreno para o próximo filme – com alguns dramas pessoais e a possível aposentadoria de personagens, dando espaço a novos heróis – também está lá.

A história gira em torno da luta contra Ultron (que conta com a voz de um excelente James Spader), uma inteligência artificial que decide salvar o mundo exterminando a raça humana. A trama pode não parecer muito original (e não é), mas funciona muito bem. E para os que pensam que a fórmula possa estar se esgotando, um aviso: ainda vamos ver muitos blockbusters pelo caminho.

Os Vingadores Ultron (22)O filme tem cenas de ação que praticamente não deixam respirar e que dão vontade de ver várias vezes para que possamos notar todos os detalhes (bom para a bilheteria) e desenvolve alguns dramas pessoais, com revelações sobre as vidas e desejos dos Vingadores. Claro que isso deixa o filme menos frenético, o que acaba sendo um ponto positivo. Difícil mesmo é crer que a Marvel pense mesmo em aposentar personagens como o Homem de Ferro ou que possa encontrar alguém que fique tão bem no papel quanto Robert Downey Jr.

O diretor Joss Whedon – o mesmo do primeiro Vingadores – cria um filmão-pipoca que vai agradar a todos, do netinho ao vovô.

Veredito: altamente recomendado.

Obs: Uma versão deste texto foi publicado na revista Ambrosia.