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A última balada de Wilde (by André Machado)

Edição de 1921 do poema, editado por Robert Ross (foto minha, eu tenho o livro)

Num país como o nosso, com prisões superlotadas e volta e meia palcos de rebeliões e chacinas, é válido lembrar um dos mais famosos textos que denunciaram a dura realidade das prisões inglesas no século XIX — o longo poema “A balada do cárcere de Reading“, de Oscar Wilde, cuja publicação completou 120 anos no último dia 13 de fevereiro.

Condenado por sua homossexualidade a dois anos de prisão com trabalhos forçados a partir de 1895, Wilde viu sua vida ruir: foi à falência (seus bens foram leiloados às pressas antes mesmo do julgamento final), nunca mais pôde ver os filhos e tornou-se um pária. Um dos diretores do presídio de Reading, onde cumpriu a maior parte da pena, previu que o regime de trabalhos forçados a que o escritor foi submetido o deixaria alquebrado e o levaria à morte em poucos anos. De fato: Wilde morreu pobre e esquecido em Paris três anos e meio após sair da cadeia.

Edição de 1904 do poema (domínio público)

Enquanto estava em Reading, Wilde soube que um soldado de um regimento de cavalaria real, Charles Thomas Woolridge, seria enforcado por matar a esposa (cortou-lhe a garganta), o que lhe causou profunda impressão. Teria sido um crime passional. A execução ocorreu em julho de 1896, e o escritor foi libertado no ano seguinte, mudando-se para um chalé em Berneval-sur-mer, na França. Ali começou a rascunhar a balada, que se tornaria sua mais célebre obra em versos.

Dedicado ao soldado enforcado, o poema descreve as sofríveis condições na prisão, o clima de medo e solidão, a rotina de labuta e privações, e chega ao auge com a estrofe:

“Todos os homens matam o que amam

Seja por todos isto ouvido,

Alguns o fazem com acerbo olhar,

Outros com frases de lisonja,

O covarde assassina com um beijo,

O bravo mata com um punhal!”

(Tradução de Oscar Mendes)

Dedicatória de Wilde ao Major Nelson, diretor que o tratou melhor em Reading. Lê-se:"[ao] Major Nelson, do autor, em reconhecimento de muitos atos de delicadeza e gentileza". Note o C.3.3, número da cela de Wilde, com que foram assinadas as primeiras edições (reprodução)

Com tais versos, Wilde se compara ao cavalariano enforcado, mas em seu caso foi de sua própria vida social e liberdade que ele deu cabo, ao tentar processar o marquês de Queensberry, pai de seu amante, Alfred Douglas, e ver o governo britânico se voltar contra si.

O poema, última obra literária do escritor irlandês, teve seu esboço inicial escrito em apenas 12 dias, segundo o biógrafo Richard Ellmann. Depois foi revisado e aumentado. No total são 109 estrofes com seis versos cada uma, alternados entre oito e seis sílabas. Mas uma versão com 63 estrofes também apareceu em edições póstumas, editadas por Robert Ross, melhor amigo, amante e testamenteiro literário de Wilde. Numa reedição de 1921 de “Selected poems – Oscar Wilde“, originalmente publicada em 17 de agosto de 1911, Ross apresenta as versões completa e a condensada, indicando que a última deriva “do esboço original. Ela foi incluída para beneficiar récitas cujas plateias acharam o poema muito longo para declamação”. (Uma leitura magistral do texto em inglês está no YouTube. O poema original em inglês pode ser encontrado aqui.

Wilde em 1897 em Nápoles, após sair da prisão (reprodução) Ross também nota que a balada representou a volta de Wilde à poesia após 16 anos mergulhado em prosa e teatro, com a notável exceção de “A esfinge”, de 1894. O poema foi inicialmente publicado pelo editor Leonard Smithers sem o nome do autor e com o pseudônimo C.3.3, que indicava a cela onde Wilde ficava. Só após sete edições seu nome foi revelado, e mesmo assim ao lado do C.3.3, entre parênteses, na folha de rosto. Segundo Ellmann, entre 1898 e 1899 foram vendidas cerca de 4.100 cópias (até a sexta edição). Uma tradução francesa feita por Henry Davray saiu ainda no final de 1898.

“Estou tão feliz com o sucesso de meu poema na Inglaterra”, escreveu Wilde a um amigo. “Mas é o meu canto de cisne, e sinto ter de partir com um grito de dor; mas a Vida que tanto amei — amei demais — me dilacerou como um tigre (…). Não creio que escreverei novamente; la joie de vivre se foi.”

Dito e (não) feito. A chama wildeana se apagou em novembro de 1900 em Paris. Mas “A Balada…” permanece. Dela saiu o próprio epitáfio de Wilde: “Por ele se encherá de alheia lágrima/ A urna partida da compaixão,/ porque por ele chorarão os proscritos/ E os proscritos sempre choram“.

 

Sobre o autor

André Machado é jornalista, rockeiro, bluseiro, amante da boa literatura e uma das pessoas mais especiais que já conheci. Difícil encontrar algo que ele não faça bem.

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O desafio de proteger o e-mail

É sempre uma honra reproduzir um texto do mestre André Machado. Este é sobre cuidados com a segurança do seu e-mail.

Segurança e-mailUm ponto importante para se ter uma internet mais segura é gerenciar bem o e-mail, por onde chegam muitos ataques comercializados no mercado negro on-line. Existem empresas especializadas em monitorar sistemas de modo a otimizar seu uso e evitar o phishing (e-mails falsos que levam a roubo de dados de usuários) e outros esquemas do mal. Uma delas é a Return Path, existente desde 2000 e que ajuda a filtrar mais de 2,4 bilhões de caixas de entradas de e-mail mundo afora.

— Apesar dos novos formatos de mensagens existentes hoje (WhatsApp, Facebook, etc), o e-mail ainda é o grande hub das comunicações profissionais, no entanto. Isso não mudou tanto. Pedidos de tarefas, alterações de senhas, anexação de extratos, comprovantes, documentos etc tornam o e-mail um lugar de negócios, por isso sua proteção é fundamental — diz Louis Bucciarelli, diretor geral da Return Path no Brasil e também responsável pela operação na América do Sul.

A empresa fechou recentemente uma parceria com a empresa de segurança Kaspersky Lab para reforçar a segurança no setor.

— Em nossa lida diária temos acesso a bancos de dados de reputação dos IPs (endereços de internet) emissores de mensagens. Sabemos quais são os bons e os potencialmente perigosos — diz Louis. — O e-mail, em si, nunca foi criado para ser um ambiente seguro. Por isso os provedores vêm trabalhando para fortalecer a autenticação dos usuários. E também estamos de olho na travessia do uso do e-mail para smartphones e tablets, de modo que as empresas se adaptem para enviar e-mails que sejam mais adaptados ao ambiente móvel.

Segundo ele, até alguns anos atrás, os ataques de phishing no Brasil poderiam ser classificados como básicos. Mas agora os phishing scams reproduzem páginas web à perfeição, de modo que só usuários mais avançados conseguem distingui-las dos sites verdadeiros. Daí a necessidade de vigilância constante no mundo corporativo.

O spam continua a ser um problema, mas para o executivo um problema recorrente que entope as caixas de entrada é o chamado gray mail (correio cinza).

— São aquelas mensagens de serviços onde o usuário se inscreveu há tempos, mas não lê mais, e ficam se empilhando. Por isso os webmails, como o Gmail, procuram categorizar as mensagens mais importantes, e há serviços web com o mesmo fim.

Fonte: O Globo

Minicontos do desconforto – 100

O amor pode estar num SMS de bom dia, ou num email no cerne do fechamento desgovernado; o amor sobrevive ao trânsito e às distâncias chuvosas e à dificuldade de achar as torres; porque no fundo ele nunca está muito longe (somos nós que não sabemos procurar, com as gavetas de nossa memória sempre desorganizadas e nosssos cofres de emoções cheios de estranhas senhas com símbolos ininteligíveis, cuja chave criptográfica vamos perdendo pelo caminho.)

Minha amiga adorada, não se pode pertencer a alguém nessa vida, ainda que tentemos – amar é bem mais forte do que isso. Ainda assim, esta noite, meu colo é seu. Venha e ocupe-o, deite a cabeça no meu peito e deixe-me sussurrar os velhos feitiços das sacerdotisas de Afrodite; tire suas tristezas do catre, libere-as do cativeiro e graciosamente permita que morram de insolação diante da luz de nós dois.

Retirado do blog Cadafalso II, do guru e irmão André Machado.

Indexação para não preparados e a vida antes do Google (parte II)

De tempos em tempos esse post será colocado em destaque, para que sembre lembremos da última frase dele. Também sugiro a leitura de Saber se vender – Jactância (20/2/10)

“O Google é uma ótima ferramenta para buscas rápidas, mas como jornalista considero a Wikipedia uma grande vitória do conhecimento na internet. Cansei de ir ao arquivo da Manchete pesquisar pastas físicas de muitos assuntos, ou verificar compêndios da Enciclopédia Britânica nos meus tempos de Geográfica Universal. A Wikipedia oferece referências e permite aprofundar a busca de maneira mais útil a quem pesquisa.”

Essa colocação do André Machado é algo que passa ao largo da maioria dos coleguinhas. A Wikipedia é muito importante, principalmente para os que sabem ler em inglês. Mesmo que estejamos procurando por bundas, sempre há algo para acrescentar, caso tenhamos um mínimo de boa vontade e competência, claro.

“O aparecimento das mídias sociais é um cenário perigoso para muitas empresas com profissionais despreparados. Aqueles que pretensamente se destacaram – mesmo que só atrapalhando – acabam sendo empurrados para esse setor. Provavelmente vão causar mais transtornos e criar mais trabalho para os outros”, diz o estudo do MIT.

Não tenho como discordar de uma afirmação tão conectada com a realidade brasileira. Mas indexação é sempre uma questão que pode separar os bons dos ruins.

Lembrem-se: se o seu chefe não sabe que você pode recuperar um site velho na Internet, ele é um merda.

Leia a primeira parte do texto aqui.

Indexação para não preparados e a vida antes do Google (parte I)

Este é um dos textos que estavam na gaveta. Foram alguns meses de
pesquisa, até compilar todas as opiniões. Mas a demora valeu. Afinal,
não poderia haver momento melhor para uma matéria que fala sobre
tecnologia e experiência do que essa, na qual os currículos enganosos
e a jactância estão em alta.

Indexação e a vida antes do Google

Muita gente pode não acreditar, mas existia vida antes do Google. Era
uma vida mais colorida, com mais opções e, talvez, menos eficiente
(pelo menos do ponto de vista da informação).

Nessa época existiam vários mecanismos de busca que usavam tecnologias diferentes para vasculhar a rede. Altavista (o melhor), Hotbot, Yahoo!, WebCrawler e outros buscadores brigavam pela preferência do internauta.

“O Altavista era tido com uma grande ferramenta, mas vinha um bocado de lixo nos resultados; o Yahoo!, no mais das vezes, dava uma resposta mais objetiva. O Google chegou de mansinho, mas foi tomando o lugar dos outros, porque com aquele design limpinho, voltado só para a busca (sem aquela barafunda visual da página do Yahoo, por exemplo), e os algoritmos poderosos, era irresistível.”, diz o mestre André Machado.

Era um tempo onde indexar e conseguir recuperar uma página tirada do
ar não era uma tarefa fácil. Hoje, embora muitos responsáveis pelo
conteúdo de sites não têm idéia de que é possível resgatar sites
apagados. Aliás, muitos deles não têm ideia sobre muita coisa.

“Um dos grandes problemas do jornalismo online continua sendo a falta de conhecimento dos gestores. Muitos deles continuam vindo de mídias tradicionais, sem nenhum conhecimento prévio sobre a internet.”, diz um estudo que está sendo feito pelo MIT (Massachusetts Institute of
Technology
).

Quando li o trecho acima (o estudo deve ser publicado até o fim deste
ano) fiquei feliz. Como já citei em posts anteriores, cansa uma certa
presunção de pessoas que leem um livro e acham que descobriram todas as respostas do mundo e que já sabem até o que é Web 2.0 ou mídias sociais.

Mas a pergunta que sempre faço é: “É mais fácil encontrar algo hoje na
Internet do que 6 anos atrás”? Algumas respostas.

“De nada adianta buscar, simplesmente, sem ter um mínimo conhecimento prévio do assunto que se está buscando (especialmente no caso do jornalista). Do contrário, a pesquisa pode levar a resultados
incompletos ou subjetivos. É preciso correr atrás de várias fontes, e
fazer o trabalho jornalístico também na hora da pesquisa. Nessa hora,
nada substitui uma boa formação, o gosto pela leitura e pelo estudo, e
o desejo de aprofundar a contento uma informação”, sentencia André
Barba Machado
.

“É mais fácil para quem tem um mínimo de experiência na rede. Saber
técnicas de pesquisa boleana – que nem são mais ensinado – pode fazer uma grande diferença”, afirma o estudo do MIT.

Assim como os meios de mídia tradicionais (impressos) passam por uma
crise, causada em grande parte por falta de visão do que o público e
os anunciantes querem ou falta de capacidade de encontrar uma solução para unir circulação e verbas publicitárias, a Internet sofre com a falta de conhecimento de muitos de seus executivos.

“Não é incomum encontrar gente que foi colocada em cargos de chefia apenas por terem estudado com alguém que faça parte na diretoria da empresa ou porque é amigo de outro alguém. Isso acontece não só em países menos desenvolvidos ou empresas familiares. Acontece até mesmo nos Estados Unidos e Europa, onde é grande o número de sucessos, APESAR de chefias despreparadas”, afirma outra parte do texto do MIT, acompanhado de uma série de gráficos com percentuais de incompetência.

To be continued…

André Machado e os Minicontos do desconforto – 36

O Barba é uma figura querida e talentosa. Viaja sem avisar e some nas férias, mesmo estando ali do lado.

Abaixo mais uma prova do seu talento.

Minicontos do desconforto – 36

Não conseguiam se livrar das dívidas. Tudo parcelado em 36 vezes, para aumentar a angústia. A cada mês tinham de sortear mais contas que ficariam para o mês seguinte.

Num dia chuvoso, especialmente cinza-chumbo, eles se olharam e resolveram ir à delegacia. Queremos denunciar uma tentativa de assassinato, disseram ao delegado. E quem é a vítima?, perguntou ele.

— Somos nós — suspirou o marido. — O dinheiro está matando nosso amor.

Texto originalmente publicado no Cadafalso II.

Mais uma do ‘Barba’

 

CChega o dia
em que se vão as musas
e os versos
se recolhem para o inverno;
o poeta
observa mudo
mais um ano passar
e queima suas mil
declarações de amor
feitas para o éter.
Néscio é o coração
que espera flores de volta;
quem liga para a devoção
nessa aldeia eletrônica de egos?
O poeta dorme e se deixa congelar. Chega o dia
em que se vão as musas
e os versos
se recolhem para o inverno;
o poeta
observa mudo
mais um ano passar
e queima suas mil
declarações de amor
feitas para o éter.
Néscio é o coração
que espera flores de volta;
quem liga para a devoção
nessa aldeia eletrônica de egos?
O poeta dorme e se deixa congelar. 

Continua o roubo de textos do querido André Machado.

Chega o dia
em que se vão as musas
e os versos
se recolhem para o inverno;
o poeta
observa mudo
mais um ano passar
e queima suas mil
declarações de amor
feitas para o éter.

Néscio é o coração
que espera flores de volta;
quem liga para a devoção
nessa aldeia eletrônica de egos?

O poeta dorme e se deixa congelar.

Um conto sobre a rejeição

c:\fiction\historiadeamor.exe

Ele estava em seu segundo casamento quando a conheceu (o primeiro fora com uma velha amiga que o abandonara ao decidir estudar em Londres). A segunda mulher salvara-lhe a vida e, durante algum tempo, viveram uma paixão tórrida de infindáveis bebedeiras no Lamas e bestialidades num aprazível hotel próximo dali.

Mas o tempo foi passando e o tesão diminuindo. Até que ambos puseram placas em seus respectivos púbis: “R.I.P.”, diziam. E ele retirou-se para o trabalho, para não pensar. Um dia ela apareceu, num evento motivacional desses bem imbecis, piores que qualquer culto. Carinhosa, afável, sorriso fácil, um jeito de menina impossível de passar despercebido. O tesômetro acusou a mudança de paradigma.

Ficou sem vê-la por um ano e nove meses, quando deu com ela numa conferência do Lucchesi. Saíram dali para um chope, esticado até as primeiras horas da manhã. Falaram de tudo: literatura, música, família, objetivos, desejos, desilusões, viagens. Apaixonaram-se, ele mais do que ela.

Como disse mesmo o Wilde? Ah, sim: há duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se quer; a outra, consegui-lo. Ele passara anos rezando fervorosamente por uma paixão, por algo que o tirasse do marasmo. E ela veio — mas não o quis. Ele declarou-se desajeitadamente a princípio, ela pediu tempo. Meses depois, ela teve uma grande desilusão e recorreu a sua companhia para sentir-se querida. A visão de suas lágrimas o comoveu e ele sentiu uma onda de ternura e desejo invadi-lo, tomando-lhe até o último capilar. Escreveu-lhe então como uma torrente; depois arrastou-a consigo para um bar e não hesitou, dizendo-lhe que desejava ser seu homem para o bem ou para o mal, que largaria tudo a um comando seu.

Ela chorou um pouco, mas ainda assim resistiu. Confessou que amava outro, disse-lhe que não sabia o que responder. Ele não desistiu, dizendo a si mesmo que a dúvida significava uma chance. Mas, novamente, o tempo foi passando e, de cada vez que a encontrava, ela estava com uma companhia diferente (sem deixar de fazer charme para os outros, ele incluído). Ele foi percebendo que seu jeito afável era fruto da insegurança; que ela sutilmente agradava a todos para se sentir desejada, “cozinhando” em fogo brando os que não haviam sido eleitos; que o jeito de menina revelava grande imaturidade. Apesar (ou por causa) de todas essas constatações, uma raiva sinuosa foi crescendo em suas vísceras, tomando pouco a pouco o estômago, a laringe e por fim seus dentes, que passaram a conferir um gosto plúmbeo à torta de limão que ele tanto amava.

Uma noite, numa festa, viu-a beijar outro. E perdeu o sono nas duas madrugadas subseqüentes. Então, decidiu que ela não existia mais para ele: repetiu isso insistentemente nas semanas seguintes diante do espelho até que, quando a viu de novo, logrou ignorá-la com absoluto êxito. Ela estranhou, mas nada disse. Entretanto, no que isso passou a ser o padrão em todos os encontros, percebeu como o desprezo dele descia lépido pela escala Kelvin. E mudou. De uma hora para outra, queria-o perto dela, buscava seu conselho, tentava fazê-lo rir — tudo em vão. Ele gradualmente reduzira suas reações perto dela ao mínimo necessário para a sobrevivência. Mal respirava. Aos poucos tornou-se um gadget tamanho família, sem fio, com cada gesto devidamente controlado pelas instruções via software que circulavam por sua cabeça.

A insegurança dela não conseguiu suportar tamanha afronta. Humilhou-se: pediu-lhe perdão, suplicou que dissesse alguma coisa.

Impassível, ele voltou-se e, olhar distante, ouviu-se respondendo:

— Há um erro de disco irrecuperável no arquivo: coração.doc.

Ato contínuo, deu Alt+F4 com o polegar na ponta do nariz e o indicador na testa, arrotou e caiu fulminado no chão.

André Machado – Minicontos do desconforto – 1

Não encontrei com o Barba no show do Kiss – o que foi uma pena – mas deixo aqui mais uma homenagem ao imenso talento desse amigo e colega de profissão.

Minicontos do desconforto – 1

O quê?, perguntou ele quando ela anunciou que estava indo embora de vez. Ela não respondeu. Ele finalmente desviou o olhar da TV e perguntou por quê. Ela riu e disse apenas, “Você é um relógio tão perfeito que não se pode nem acertá-lo para um horário de verão.” E se foi.

Minicontos do desconforto – 97

Texto propício para um dia de posse.

“Excelentíssimo sr. Coração:

Nós, o povo, somos reconhecidos por sua importante função no país, mas decidimos que não queremos mais o seu governo. O sr. não é um bom administrador e tende a reagir exageradamente a todas as instâncias, impondo um ritmo febril que volta e meia deixa a população em pânico e por diversas vezes mantendo-nos em estado de sítio por uma trivialidade qualquer. Solicitamos por meio desta carta aberta que tenha a fineza de entregar os assuntos do governo ao sr. Cérebro, que já demonstrou, na organização do arquivo nacional e na estrutura das telecomunicações, ser muito mais comedido e eficiente, embora sua atuação seja relativamente desconhecida em outras áreas.

Ilustríssimo sr. Coração, não é nosso direito pedir-lhe que deixe a equipe governamental, já que é um importante fundador da nação. Mas sugerimos que aceite o cargo de ministro da cultura, pois seu talento nas artes não encontra paralelo entre os pais da pátria. Esta é uma área em que o sr. Cérebro também atua, mas ela só tem a ganhar com a sua liderança.

Saudações,
O povo”

(by Andre Machado)

Minicontos do desconforto (92)

Mais uma pequena obra-prima de André “Barba” Machado, retirado do seu Cadafalso II.

Acordou cedo e achou o mundo muito silencioso. “Deve ser assim quando se decide parar de buscar o amor”, pensou.

Então pegou o jornal, abriu na página dos obituários e descobriu o seu próprio, num canto.

Poesia tecnológica

Há pessoas que se sobressaem pelo talento.  André ‘Barba’ Machado é desses, que mesmo escrevendo sobre tecnologia (assunto que não dominava anos atrás) e se dividindo na gravação de seu segundo CD (de rock, claro), pode sair com um texto desses (roubado do Cadafalso II).

Quero ser assim quando crescer.

Clico em
“Desligar o amor”.
Aparece a famigerada
caixa de diálogo:
o que você deseja fazer?
“Em espera”
“Desativar”
“Reiniciar”

Faltou o botão
“Destruir para todo o sempre”.