Um conto sobre a rejeição

22/04/2009 0 Por Fernando de Oliveira

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Ele estava em seu segundo casamento quando a conheceu (o primeiro fora com uma velha amiga que o abandonara ao decidir estudar em Londres). A segunda mulher salvara-lhe a vida e, durante algum tempo, viveram uma paixão tórrida de infindáveis bebedeiras no Lamas e bestialidades num aprazível hotel próximo dali.

Mas o tempo foi passando e o tesão diminuindo. Até que ambos puseram placas em seus respectivos púbis: “R.I.P.”, diziam. E ele retirou-se para o trabalho, para não pensar. Um dia ela apareceu, num evento motivacional desses bem imbecis, piores que qualquer culto. Carinhosa, afável, sorriso fácil, um jeito de menina impossível de passar despercebido. O tesômetro acusou a mudança de paradigma.

Ficou sem vê-la por um ano e nove meses, quando deu com ela numa conferência do Lucchesi. Saíram dali para um chope, esticado até as primeiras horas da manhã. Falaram de tudo: literatura, música, família, objetivos, desejos, desilusões, viagens. Apaixonaram-se, ele mais do que ela.

Como disse mesmo o Wilde? Ah, sim: há duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se quer; a outra, consegui-lo. Ele passara anos rezando fervorosamente por uma paixão, por algo que o tirasse do marasmo. E ela veio — mas não o quis. Ele declarou-se desajeitadamente a princípio, ela pediu tempo. Meses depois, ela teve uma grande desilusão e recorreu a sua companhia para sentir-se querida. A visão de suas lágrimas o comoveu e ele sentiu uma onda de ternura e desejo invadi-lo, tomando-lhe até o último capilar. Escreveu-lhe então como uma torrente; depois arrastou-a consigo para um bar e não hesitou, dizendo-lhe que desejava ser seu homem para o bem ou para o mal, que largaria tudo a um comando seu.

Ela chorou um pouco, mas ainda assim resistiu. Confessou que amava outro, disse-lhe que não sabia o que responder. Ele não desistiu, dizendo a si mesmo que a dúvida significava uma chance. Mas, novamente, o tempo foi passando e, de cada vez que a encontrava, ela estava com uma companhia diferente (sem deixar de fazer charme para os outros, ele incluído). Ele foi percebendo que seu jeito afável era fruto da insegurança; que ela sutilmente agradava a todos para se sentir desejada, “cozinhando” em fogo brando os que não haviam sido eleitos; que o jeito de menina revelava grande imaturidade. Apesar (ou por causa) de todas essas constatações, uma raiva sinuosa foi crescendo em suas vísceras, tomando pouco a pouco o estômago, a laringe e por fim seus dentes, que passaram a conferir um gosto plúmbeo à torta de limão que ele tanto amava.

Uma noite, numa festa, viu-a beijar outro. E perdeu o sono nas duas madrugadas subseqüentes. Então, decidiu que ela não existia mais para ele: repetiu isso insistentemente nas semanas seguintes diante do espelho até que, quando a viu de novo, logrou ignorá-la com absoluto êxito. Ela estranhou, mas nada disse. Entretanto, no que isso passou a ser o padrão em todos os encontros, percebeu como o desprezo dele descia lépido pela escala Kelvin. E mudou. De uma hora para outra, queria-o perto dela, buscava seu conselho, tentava fazê-lo rir — tudo em vão. Ele gradualmente reduzira suas reações perto dela ao mínimo necessário para a sobrevivência. Mal respirava. Aos poucos tornou-se um gadget tamanho família, sem fio, com cada gesto devidamente controlado pelas instruções via software que circulavam por sua cabeça.

A insegurança dela não conseguiu suportar tamanha afronta. Humilhou-se: pediu-lhe perdão, suplicou que dissesse alguma coisa.

Impassível, ele voltou-se e, olhar distante, ouviu-se respondendo:

— Há um erro de disco irrecuperável no arquivo: coração.doc.

Ato contínuo, deu Alt+F4 com o polegar na ponta do nariz e o indicador na testa, arrotou e caiu fulminado no chão.