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O Sol Negro

O Sol NegroO texto abaixo – que deve ter sido escrito após algum porre da última década – é mais uma prova de que não existe talento para poesia neste que vos escreve. Mesmo assim, é mais um dos textos perdidos da minha velha caixa de disquetes.
Como é bom ter um espaço para publicar o que se quer.

Se o sol chegava para George Harrison, só escurecia mesmo para mim.

O Sol Negro

 

O Sol Negro IIO sol negro brilha na subida da ladeira
Com um olhar que não tem fim
Um calor que se propaga e queima onde quer

O sol negro engana e nubla o pensamento
Finge iluminar o caminho
Procura mais corpos para dominar

O sol negro dissipa planos
Prefere escurecer o desconhecido
Está destinado a perder o brilho na solidão

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Rio, frio, rua

Rio é rua
Chão molhado, casacos e cachecóis
Música quente e vento frio
Rostos sérios e passos rápidos

Rio é casa
Cobertor, aquecedor e meias
TV alta e gato encolhido
Sopas fumegantes e silêncio tremido

Rio é restaurante
Vinho bom e comida quente
Música ambiente e serviço lento
Vista londrina e conta sem fundos

Para a minha namorada

O Amor (Fernando Pessoa)

“Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.”

A Alma Cinza

A alma voava longe, bem mais alto que as nuvens
Olhava para os telhados e ria de quem trabalhava
Assumia formas diferentes, fazia piruetas improváveis
Sempre com um sorriso nos lábios

A alma, sempre impossível de ser tocada, viajava
A alma, sempre improvável, se desviava, se desapegava
A alma, continuava seu voo só, olhando tudo de longe

Nuvens cinzas, gaviões famintos
Ventos frios, mentes magras

As mutações aceleravam, as intransigências também
A arrogância se fortalecia e a alma escondia tudo sob um ar maroto

A alma procurava um parceiro, mas sem querer dar espaço
Buscava outra alma para poder se consolar
Perdia o controle controlando tudo

A alma voava longe, com seus tons de cinza

Chove ? Nenhuma chuva cai… (Fernando Pessoa)

Chove ? Nenhuma chuva cai…

Chove ? Nenhuma chuva cai…
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?

Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu…

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento…

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro… E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim…

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…
No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia

Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância…

Solidão pode ser sinal de sanidade

Solidão nem sempre é triste, nem sempre é silenciosa
Solidão pode significar sanidade, pode manter nossa identidade

Fugir da solidão pode virar doença, se transformar em uma má necessidade
Fugir da solidão pode ser sinal de fraqueza, de que não se sabe valorizar nada

O silêncio pode estar em uma sala cheia de gente, em uma reunião com uma besta
O silêncio pode ensurdecer, pode incomodar pelo excesso de barulho

Viver não é fácil, viver não é simples
Para que complicar ainda mais o que já não é simples?

Batuques são sempre dispensáveis

Compilação de fragmentos escritos entre 1997 e 2003

André Machado e os Minicontos do desconforto – 36

O Barba é uma figura querida e talentosa. Viaja sem avisar e some nas férias, mesmo estando ali do lado.

Abaixo mais uma prova do seu talento.

Minicontos do desconforto – 36

Não conseguiam se livrar das dívidas. Tudo parcelado em 36 vezes, para aumentar a angústia. A cada mês tinham de sortear mais contas que ficariam para o mês seguinte.

Num dia chuvoso, especialmente cinza-chumbo, eles se olharam e resolveram ir à delegacia. Queremos denunciar uma tentativa de assassinato, disseram ao delegado. E quem é a vítima?, perguntou ele.

— Somos nós — suspirou o marido. — O dinheiro está matando nosso amor.

Texto originalmente publicado no Cadafalso II.

Isso já não aconteceu com você?

Quer saber?
Tiana Maciel Ellwanger

Na primeira noite,
Andamos pela rua escura
Amenidades
Identificação
Tentei beijar, você saiu
Falando de outro homem
de paciência, compromissos
Emendou na lua cheia
E me disse outro não
Na segunda noite,
Rimos de doer
a barriga
No bar da ladeira
que cansou
Eu disse que era linda
Menti sobre o salário
E também sobre o passado
Seu sorriso disse sim
Pra me enganar
de novo
Na terceira noite,
Seus olhos perturbavam
Segurança na gargalhada
que dizia “me […]

Texto publicado originalmente no blog Segunda a Sexta.

Saudades – Florbela Espanca

Saudades
de Florbela Espanca

Saudades! Sim… talvez… e porque não?…
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Sonhos

Mais uma de Fernando Pessoa.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

As palavras de Fernando

Fernandos não servem para muitas coisas. Não servem para presidente, não servem para madeireiros, mas até que se saem bem com as palavras.


Apontamento

Fernando Pessoa ou Álvaro de Campos

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Minicontos do desconforto (92)

Mais uma pequena obra-prima de André “Barba” Machado, retirado do seu Cadafalso II.

Acordou cedo e achou o mundo muito silencioso. “Deve ser assim quando se decide parar de buscar o amor”, pensou.

Então pegou o jornal, abriu na página dos obituários e descobriu o seu próprio, num canto.

Amigos: esses bichos estranhos

Dizem que melhor que fazer novos amigos é manter os antigos. Pode ser verdade, mas o que sei é que amigos são bichos estranhos. Tentam proteger você, mesmo quando não há proteção possível; evitam tomar posição, mesmo quando sabem que isso vai ser preciso e cobrado (em algum momento); e tentam mostrar coisas que nem sempre quem deveria fazê-lo tem coragem.

Amigos são sempre os primeiros a falar as verdades óbvias (que nem sempre vemos) e sempre dão um jeitinho de esconder as verdades cruéis. São aqueles que te procuram nos momentos ruins e podem deixar você quieto nos momentos felizes.

Pode ser que amigos novos possibilitem novos aprendizados, novos horizontes, mas são os amigos antigos quem procuramos nos momentos de dor. Nessas horas, antigüidade é posto, sim! Antigüidade que pode levar a escolhas difíceis, rupturas, constrangimentos.

Amigos são aqueles que não somem na mesma velocidade que aparecem na sua vida, mesmo quando precisam acreditar em alguma verdade distorcida contada por um outro amigo mais antigo.

Há sempre aquele amigo mau-caráter ou nada confiável, que é seu amigo apenas porque é. Sem uma explicação lógica. Há aqueles que você precisa compreender e há os que são seus amigos sem que eles saibam.

Ainda bem que há pessoas que não são nem nunca serão suas amigas, para você gostar. Sem elas, ninguém saberia a importância desses bichos estranhos.

Amigos são poucos e são conhecidos no olhar. Alguns são encontrados ao acaso, outros perdidos pelo caminho, mas a amizade verdadeira é contagiosa e muito difícil de curar. Amizade não vê defeitos, virtudes, raça ou cor. É a perfeição do amor platônico.

Um abraço para vocês, meus amigos.
Saudades, sempre.

“Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade…
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração”.


William Shakespeare

Poesia tecnológica

Há pessoas que se sobressaem pelo talento.  André ‘Barba’ Machado é desses, que mesmo escrevendo sobre tecnologia (assunto que não dominava anos atrás) e se dividindo na gravação de seu segundo CD (de rock, claro), pode sair com um texto desses (roubado do Cadafalso II).

Quero ser assim quando crescer.

Clico em
“Desligar o amor”.
Aparece a famigerada
caixa de diálogo:
o que você deseja fazer?
“Em espera”
“Desativar”
“Reiniciar”

Faltou o botão
“Destruir para todo o sempre”.