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Palavra do Dia – Superficialidade

Muitos seres humanos têm por característica a superficialidade, seja por falta de conteúdo, como um mecanismo de proteção ou por opção de vida. A superficialidade pode ser expressada de várias maneiras e, normalmente, é encoberta por uma atitude proativa e cheia de segurança.

O superficial pode ser detectado nas amizades – afinal, ter milhões de amigos que são levados para festas em casa não significa que sejam confiáveis -, nos relacionamentos – aqueles que acontecem após um cruzar de olhos em um ônibus ou avião e não nos que são baseados em entrega e troca -, em caixas – sejam elas cheias de bolas de gude ou camisinhas – ou na incontrolável necessidade de demonstrar que a alma é livre e sem destino.

Não vamos confundir superficialidade com dissimulação (são coisas bem diferentes). Fico triste toda vez que vejo uma pessoa fugir de algo apenas por conta da falta de comprometimento e medo de algo que fuja do que pode ser considerado raso. Para muitos, se abrir é um verdadeiro tormento e se expor é algo que pode dar aos outros a chance de conhecer o que se esconde lá no fundo do seu ser.

Para manter a capa de superficialidade muitos riem (muito e alto), outros precisam manter a popularidade. Mas a superficialidade pode estar também na música, na política ou no estilo de vida. Nem sempre ser superficial é ruim. Há casos nos quais pode até ser uma boa tática de sobrevivência, mas sejamos honestos, é muito desagradável ver pessoas sendo enganadas por uma linda e superficial camada de personalidade.

Definição

superficialidade:

s.f. Superficialismo; condição ou qualidade do que é superficial, básico, elementar, pouco profundo: a superficialidade dos comentários na internet.

Observação ou análise feita sem reflexão, sem profundidade: os políticos se mantiveram em superficialidades.

Caráter do que não é profundo, daquilo que se situa na superfície.

(Etm. superficial + i + dade)


Sinônimos
:

superficialismo

Classe gramatical:

substantivo feminino

Citações:

“Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo.” – Fernando Pessoa

“Nada é mais insondável do que a superficialidade da mulher.” – Karl Kraus

*Esse texto foi escrito entre 2007 e 2008

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Para a minha namorada

O Amor (Fernando Pessoa)

“Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.”

Chove ? Nenhuma chuva cai… (Fernando Pessoa)

Chove ? Nenhuma chuva cai…

Chove ? Nenhuma chuva cai…
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?

Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu…

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento…

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro… E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim…

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas…
No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia

Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância…

Sonhos

Mais uma de Fernando Pessoa.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca da nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.

As palavras de Fernando

Fernandos não servem para muitas coisas. Não servem para presidente, não servem para madeireiros, mas até que se saem bem com as palavras.


Apontamento

Fernando Pessoa ou Álvaro de Campos

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.