Arquivo da categoria: Textos Antigos

Frase: “Se você quer um final feliz, ele depende, é claro, de onde você termina a sua história” – Orson Welles

Final felizFinais felizes

A nossa vida é formada por várias histórias e não apenas uma. São histórias paralelas, desencontradas, longas, inexplicáveis, sinuosas, perpendiculares e unicamente similares. Não há como fugir das armadilhas que aparecem atrás de cada curva do caminho. Assim como num videogame, saltamos, socamos, quebramos e corremos para tentar alcançar aquilo que vimos como nosso pote de ouro.

“Não permita que suas ações voltem como um bumerangue na forma de desapontamento.”

Final feliz IIO arco-iris está sempre protegido por vilões e armas poderosas. Muitas vezes o inimigo é o próprio pote de ouro e o final da história depende apenas da nossa capacidade de terminá-la. Falam muito de “inteligência emocional“, mas prefiro mesmo pensar em “honestidade emocional“. Nada muda de repente!

Rosebub pode não ser mais um mistério, mas sempre será um símbolo de tudo o que é, e sempre será, importante.

“Claro que você vai arrumar outros amores, mas alguns são mais fortes do que os outros”.

Texto escrito no início da década de 2000.

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Nunca tenha vergonha de dizer não

Aprenda a dizer nãoDizer “não“, acredite, faz bem na maioria dois casos. Melhor um “não verdadeiro” e sincero do que um “sim” relutante ou, pior, um silêncio que não diz nada e ainda pode ser considerado desprezo, falta de consideração. Nunca imagine que o silêncio vai agradar. Lembrem-se: um favor só pode ser concedido ou negado, e em ambos dos casos, o pedinte não tem o direito de ficar magoado. Se a proposta foi ilegal, imoral ou engordar (e você não queira topar) diga NÃO!

A lógica é simples, aprenda a dizer não, sem ter culpa, mas tenha sempre em mente que o sim pode lhe trazer prazeres que jamais imaginou.

*Pequeno texto escrito na década dos anos 2000.

Frase: Lembranças de coisas do passado não são necessariamente lembranças de como elas eram – Marcel Proust

Remembrance of things past is not necessarily the remembrance of things as they wereMarcel Proust

Lembranças de coisas do passado não são necessariamente lembranças de como elas eram

Semi féSe nós nos definimos pelas nossas experiências, é também verdade que nossas memórias vão mudando com o tempo. A frase de Proust sempre me remeteu as pessoas que tem por natureza deturpar o que aconteceu, seja para poder criar uma nova realidade onde sempre apareça como protagonista, seja para apagar as atitudes que poderiam revelar cenas onde qualidades nada boas pudessem estar em primeiro plano.

Para outros, a tática Alzheimer – de lembrar apenas do que lhe deixa bem – serve para apagar pessoas e fatos. Alguns aproveitam ainda a coleção de lembranças falsas para compilar um livro de memórias que acaba nunca fazendo sentido, já que rola aquele Alzheimer do início do parágrafo.

Mulher rezandoUma chave jogada ao chão, um diálogo falado com meias palavras, uma fuga de compromissos ou um afastamento para preservar o seu espaço, podem acabar virando um purê de batatas daqueles bem insosso, sem cor, definição de paladar e pior, sem nada para acompanhar.

Não há papa que tenha poder em concretar uma fé que só se manifesta nas manhãs de domingo, da mesma forma que não há ecletismo que possa superar a ditadura da batucada. Martelar semi mentiras realmente tornam tudo em meias verdades na mente de quem precisa afirmar independência.

A faculdade de saber que as lembranças de coisas do passado não são necessariamente lembranças de como elas eram, pode até significar que a felicidade não tenha sido tão feliz, mas também pode significar que o sofrimento foi bem menos (ou mais?) sofrido.

*Esse texto foi escrito alguns anos atrás e resgatado agora, por conta da vinda do papa (assim em caixa baixa).

O Sol Negro

O Sol NegroO texto abaixo – que deve ter sido escrito após algum porre da última década – é mais uma prova de que não existe talento para poesia neste que vos escreve. Mesmo assim, é mais um dos textos perdidos da minha velha caixa de disquetes.
Como é bom ter um espaço para publicar o que se quer.

Se o sol chegava para George Harrison, só escurecia mesmo para mim.

O Sol Negro

 

O Sol Negro IIO sol negro brilha na subida da ladeira
Com um olhar que não tem fim
Um calor que se propaga e queima onde quer

O sol negro engana e nubla o pensamento
Finge iluminar o caminho
Procura mais corpos para dominar

O sol negro dissipa planos
Prefere escurecer o desconhecido
Está destinado a perder o brilho na solidão

Frase: Uma alma triste pode matar você rapidamente. Muito mais rápido que um germe – John Steinbeck

Alma tristeInteligência emocional é um conceito muitas vezes confundido com proteger-se do sofrimento. Há, hoje, um sem número de terapeutas que profetizam que ser individualista (também conhecido como egoísta) é melhor do que se jogar de cabeça em uma relação e correr o risco de espatifar a cara no chão.

Considero a alma um ser quase independente da mente. É uma parte do seu eu que precisa crescer, se aventurar, iluminar ou escurecer, dependendo das suas experiências. Continuo achando esses profissionais verdadeiros charlatães. Por mais que doa, por mais que se evite, só um sentimento levado ao extremo pode ser responsável por uma alegria extrema ou por um sofrimento atordoante.

Viver no meio termo faz sentido?

Alma Triste IICuide-se, mantenha seu espírito leve, aventureiro e conservador. Não deixe que ela entre em depressão, mas não ache que viver porralocamente é a saída. É bom lembrar o nome dos amigos, da pessoa com quem passou a noite na cama e, principalmente, daqueles que gostam de você.

Não sei como é essa tal inteligência emocional, mas sei como é a burrice emocional (por experiência própria).

A sad soul can kill you quicker, far quicker, than a germ – John Steinbeck

Frase: Nós podemos perdoar facilmente uma criança que tem medo do escuro. A tragédia real é quando os homens têm medo da luz – Platão

Medos são, assim como a loucura, sem padrão, sem razão, sem lógica. Todos temos nossas manias e idiossincrasias. Pode ser medo do escuro, de compromisso, de mostrar nossas fraquezas, vulnerabilidades ou de apenas se mostrar humano.

A luz muitas vezes cega e muitos usam óculos escuros para ajudar a manter a escuridão. Sempre há os que acendem lanternas na esperança de ofuscar a visão de suas vítimas. Promessas, auto-propagandas enganosas, belezas fabricadas e batuques que mantêm algo inanimado e sem a necessidade de cuidados em suas mãos.

Perdoar pode ser um fardo, mas é um mal necessário que pode demorar anos, décadas ou uma vida inteira. Talvez algumas feridas dificultem a arte deixar o coração aberto, porém é preciso tentar.

Algumas almas não são tão negras quanto à cor da pele, mas escorregam feio no cinza. Uma verdadeira tragédia.

Esse texto foi escrito em 2007

“We can easily forgive a child who is afraid of the dark. The real tragedy of life is when men are afraid of the light.” 

O homem é menos honesto quando ele fala em seu próprio nome. Dê a ele uma máscara e ele vai lhe dizer a verdade

O homem é menos honesto quando ele fala em seu próprio nome. Dê a ele uma máscara e ele vai lhe dizer a verdade. Oscar Wilde

Encarar suas fraquezas, seus temores e, muitas vezes, suas próprias ideias, pode se tornar um fardo tão pesado que as pessoas passam a tentar fugir e se esconder das suas próprias convicções.

Não é a toa que os grupos anônimos ganham tanta força, inspiram reações e atitudes extremadas, que jamais seriam tomadas de modo consciente e de cara limpa. Nem é preciso sentir orgulho de gostos ou pensamentos que não sigam a linha do correto. Gostar de algo bizarro, extremo, piegas, conservador ou sem sentido, é apenas uma das facetas de qualquer personalidade, apenas um dos lados do quadrado ou da figura geométrica que desejar.

O ser humano é complexo, cheio de contradições, medos e manias. Isso é fato. Somos cruéis, solidários e egoístas, sem nunca perder a razão, mas sempre com alguma máscara (mesmo que pequena) nos protegendo de nós mesmo.

Parte desse texto foi escrito em 2006

Man is least himself when he talks in his own person. Give him a mask, and he will tell you the truth. Oscar Wilde

Para aqueles que acreditam, nenhuma prova é necessária. Para aqueles que não acreditam, nenhuma prova é possível – Stuart Chase

Acreditar, ter fé em algo, faz parte da natureza humana. Milagres e verdades históricas não existiriam sem essa tendência de se crer em algo. A vida não seria a mesma se não tivéssemos nossas esperanças, nossos sonhos.

Você não precisa ser tão fervoroso quanto um Mulder, nem tão lógica quanto Scully ou Spock. O que é preciso é ter a noção do que é verdade e o que é a nossa vontade.

Paul McCartney escreveu certa vez: “Você acredita em amor a primeira vista?” A resposta foi: “Sim, tenho certeza de que isso acontece o tempo todo“. É esse tipo de crença que move nossas vidas, que incentiva nossa criatividade e nos deixa o tempo todo na corda bamba entre o medo e o prazer.

Would you believe in a love at first sight?
Yes I’m certain that it happens all the time

Provar a sua lealdade, competência ou o seu amor nunca é tarefa simples. Em todos os casos depende da pessoa que vai receber a prova, razão da frase de Chase que dá título a esse texto. Na verdade, provar não é necessário. Necessário é manter a coerência, a sinceridade, a verdade viva. Afinal: Para aqueles que acreditam, nenhuma prova é necessária. Para aqueles que não acreditam, nenhuma prova é possível.

“For those who believe, no proof is necessary. For those who don’t believe, no proof is possible.
Stuart Chase

Partes desse texto foram escritas no fim da década de 90.

Frases: A pergunta que me deixa louco: Sou eu ou os outros que são loucos? – Albert Einstein

The question that sometimes drives me hazy: Am I, or the others crazy?

Sempre soube que não sou normal. Gosto de sonhar acordado, imaginar finais felizes para situações impossíveis, fantasiar um mundo sem música ruim, sem pessoas com mau-caráter ou incompetentes. Claro que isso (talvez) não seja o suficiente para me internar em um hospício, mas, algumas vezes, me sinto como se já estivesse em um.

As pessoas parecem se esforçar no estranho hábito de serem estranhas. Atitudes extremadas, frases desconexas, promoções sem mérito ou lógica, leads invertidos, sentimentos desprezados, humores biolares.

Cada vez mais chego a conclusão de que aquele bordão: “Eu sou NORMAL!“, usado pelo Francisco Milani no antiquíssimo Viva o Gordo, é válido para mim, mesmo com todo o meu esforço.

A loucura pode estar escondida atrás de uma vassoura, da ida até uma igreja ou no stress causado pelo pânico em ter que tomar alguma decisão, aceitar algum erro ou simplesmente fazer algo. Ela também pode estar escondida em um sorriso bonito ou um olhar aterrador. Isso pouco importa. O que importa é ficarmos longe dela, pelo menos o suficiente para que ela não tome conta das nossas almas.

Frases: “Tente novamente, falhe novamente, mas falhe de uma maneira melhor” – Samuel Beckett

Muito antes de surgir a máxima “Sou brasileiro e não desisto nunca“, um tal de Samuel Beckett já nos ensinava que desistir não era solução para nada. Dizia ele: “Tente novamente, falhe novamente, mas falhe de uma maneira melhor“, em uma clara lição de perseverança e total falta de vergonha (no bom sentido).

Ai, não importa se estamos falando de um projeto pessoal, de vida, um objetivo concreto ou apenas uma fantasia disforme, o que interessa é tentar, ter força para superar os seus próprios obstáculos internos e limitações.

Quem tenta (assim como quem trabalha), erra. Simples, lógico e básico, assim. O importante é tentar sempre de maneira diferente (não importa se mais ousada ou mais conservadora) e torcer para que todo o Cosmo esteja ao seu lado ou então que o fracasso seja daqueles monumentalmente inesquecíveis.

Claro que não se arriscar é sempre mais confortável, mas sempre menos divertido.

Os críticos musicais e suas viagens

Apesar de nunca ter trabalhado exclusivamente com críticas musicais, o fato de ser colecionador e amante de boas melodias, harmonias e letras, sempre me deixou um espaço para escrever sobre o tema em todos os veículos nos quais trabalhei.

Sem querer entender de tudo ou posar de erudito, acho que o básico de uma crítica eu consigo transmitir – a qualidade do trabalho e um pouco da história do álbum ou show em questão. Infelizmente, tanto a velha quanto a nova geração de jornalistas especializados têm a tendência/vício de criar imagens que, muitas vezes, demandam mais tempo para serem entendidas do que o tempo que se leva para saber se o disco é bom ou não.

Hoje, fico feliz quando leio opiniões opostas as minhas sobre algum disco ou quando leio textos que são praticamente idênticos aos meus sobre algum show. Isso mostra que assistimos ao mesmo espetáculo e que há gostos diversos em relação aos lançamentos que chegam até as redações.

Outro dia, um estagiário disse que o que menos gostava nos jornais eram as críticas musicais, porque diziam pouco sobre o que interessava: a música. Ok, a prova do estagiário não foi nem um pouco brilhante, mas até acho que ele tem razão. Há uma recorrente prática de fazer narizes de cera ou ligações históricas/psicológicas que, na maioria das vezes, só mesmo os autores conseguem enxergar.

Claro que há textos brilhantes, boas sacadas e uma linguagem única para cada veículo de imprensa, mas é frustrante quando terminamos de ler uma resenha sem saber se estão falando bem ou mal do conteúdo do CD/DVD.

Aqui no F(r)ases da Vida, tenho a oportunidade de escrever sobre o que quero sem a obrigação de dar algo em primeira mão. Isso permite que ainda esteja com textos sobre caixas do U2 e do The Who no forno, assim como uma biografia musical de Elton John e outras coisitas mais.

Enfim, não entendeu o sentido deste post? Acho que nem eu! :p

Partes desse texto foram escritas em algum momento de 2002

Rio, frio, rua

Rio é rua
Chão molhado, casacos e cachecóis
Música quente e vento frio
Rostos sérios e passos rápidos

Rio é casa
Cobertor, aquecedor e meias
TV alta e gato encolhido
Sopas fumegantes e silêncio tremido

Rio é restaurante
Vinho bom e comida quente
Música ambiente e serviço lento
Vista londrina e conta sem fundos

Quando se ama, qualquer contato é melhor que nenhum contato

Nem só de frases ácidas de House vive o seriado de TV.

Uma vez um amigo disse: “Essa aparição foi muito britânica”. É daquelas frases que só pode ser dita por quem não amou. Quem ama, acha que qualquer contato é melhor que nenhum contato. Isso vale para o Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Indonésia, seja na vida real ou na ficção.

Cortar o cordão, desapegar, só é fácil para quem não tem nenhum sentimento real pelo companheiro. Aparecer com um sorriso no rosto após anos, é praticamente um atestado de falta de caráter.

Manter contato não é ligar de tempos em tempos para pedir favor. É lembrar-se do aniversário, de alguma data importante, de uma alegria ou evento que possa fazer diferença na vida do outro.

No fim, é só ter um pouco de carinho.

 

A lágrima mais amarga derramada sobre túmulos é para palavras que não foram ditas e planos não realizados

Falar não é fácil. Falar coisas importantes e que envolvam sentimentos é ainda menos simples. Arrependimentos e decepções são mais freqüentes que alegrias e realizações. Por isso, devemos valorizar e prolongar tudo o que trouxer felicidade.Infelizmente, sorrisos são bem mais raros do que deveriam ser.

Já as lágrimas são muito mais freqüentes do que gostaríamos de admitir e, segundo Harriet Beecher Stowe, a lágrima mais amarga derramada sobre túmulos é para palavras que não foram ditas e planos não realizados. Não tenho tanta intimidade assim com túmulos (ainda bem), mas sei que planos frustrados de maneira inesperada e sem um bom motivo aparente deixam marcas que são difíceis de traduzir verbalmente.

A convivência humana em sociedade é uma teoria muito interessante, que fica anos luz do que acontece na realidade. Nem todos têm a habilidade da oratória (nem mesmo muitos que dizem falar tudo na cara).

Não sei se as lágrimas derramadas sobre túmulos são mais amargas, mas, com certeza, são mais melancólicas. Não pela perda de alguém querido, mas pela perda da oportunidade de pedir explicações. Sim, pedir, porque nossa natureza é cobrar, não dar explicações.

Algumas pessoas seguem a vida ao sabor dos ventos, das marés, das amizades, fazendo crer que o importante é seguir sem rumo (coisa boa para jovens e um tanto triste para a meia idade). Planos, scripts e reservas são sempre bem vindos (algumas vezes até mesmo no sexo, podem acreditar).

Frase: Fale ao motorista somente o indispensável

Presente em 10 entre 10 ônibus nas décadas de 70 e 80, a frase é um ícone da cultura da classe média carioca. Ela é do tempo no qual o motorista apenas dirigia, os trocadores cobravam as tarifas e distribuíam fichas coloridas aos passageiros, que viajavam, calmos, tranqüilos, conversando apenas com pessoas conhecidas, praticamente obedecendo ao espírito da frase citada.

Não conheço ninguém que já não tenha tido vontade de pregar uma placa com os mesmos dizeres perto do seu local de trabalho, carro ou assento em transporte público. Isso evitaria – em tese – a aproximação de pessoas carentes, inconvenientes e mal-educadas. Claro que há o recurso dos fones de ouvido, que seria totalmente dispensável caso as pessoas tivessem um mínimo de educação e respeitassem o direito de se querer ficar em paz.

Falar somente o indispensável evita atritos, intimidade não desejada e até mesmo previne grosserias que possam acontecer com os mais animadinhos. Todos sabemos que tem gente que mesmo tentando se controlar, não consegue.

Infelizmente não existe uma feição, uma expressão, um gesto que possa claramente indicar que estamos com o Fale ao motorista somente o indispensável em Mode On. É preciso um tiquinho de observação, de apuração, o que é exceção em um mundo repleto de medíocres.

Você pode amar várias pessoas, mas há sempre aquela que você ama mais

lendas e verdades sobre o amor à primeira vista, o primeiro amor e o amor eterno. Mesmo o mais promíscuo dos seres humanos tem uma história para contar sobre algum desses amores. São causos ácidos, amargos, serenos, doces, delirantes, sinceros, alegres, tristes, doloridos e, algumas vezes, cicatrizados.

O amor definitivo existe na alma dos apaixonados, românticos e piegas. A ilusão de que uma alma gêmea está andando por ai é sedutora. Faz com que você procure sempre pela pessoa certa. A esperança de que alguém possa salvar e completar uma vida é, muitas vezes, contraposta pela sensação de medo, que induz a uma necessidade de independência que arrunia qualquer chance de um relacionamento profundo.

Pode ser que o amor eterno desses descrentes já tenha aparecido e partido, morrido ou sido ignorado. Não sei, mas sei que perder as esperanças ou esquecê-las não pode ser saudável.

A modernidade não ajuda os românticos ou a consolidaçao de parcerias. Muitas vezes um pote de preservativos e uma longa lista de amigos podem mascarar o medo de envelhecer sozinho. Aifnal, é sempre mais seguro focar na individualidade e seguir, mesmo que nem lembremos onde foi que estivemos.

Ame muito, ame sempre, mas não se esqueça daquele amor.

O passado nos define

O que aconteceu no passado foi doloroso e tem muito a ver com o que somos hoje William Glasser

O passado nos define. Essa é outra frase repetida frequentemente por pessoas em todo o mundo. Pode remeter a uma morte, uma infância infeliz (ou feliz), uma necessidade de ser autossuficiente ou mesmo uma vida comum, sem grandes responsabilidades ou obrigações para com as vontades alheias.

Sempre que ouço uma frase assim fico pensando em quanto de álcool foi preciso para cunhá-la. Quanto de arrependimento estava por trás dela.

Com o tempo nos tornamos mais duros, inflexíveis e pouco receptivos a atalhos que não sejam os nossos. Não importa o quanto nos escondamos debaixo de um sorriso ou de um logo de cores vivas. Admitir erros é sempre um transtorno e, para não repetir os do passado, muitas vezes nos privamos de cometer erros novos.

Se você olha para trás e fica feliz com o que fez, parabéns. Espero que não esteja enganando a si mesmo.

Leia também: Ninguém muda o suficiente

It’s hard to be nice if you are still harboring any resentment

É isso ai – This is it!

Não dá para bancar o bonzinho quando ainda há ressentimento(s). E não há nenhum estudo científico que prove que ressentimentos passam. Não há nenhuma prova concreta de que isso faça mal. Serve, sim, para que se evite repetir os mesmos erros com as mesmas pessoas, que se evite ter as mesmas atitudes e decepções.

Ser legal é muito bom para parecer descolado, desapegado. Liberdade é bom para deixar a vida uma batucada monotônica, com aquela falta de variação típica de quem procura o novo, o diferente, mesmo estando sempre de olho nas mesmas velhas coisas e hábitos.

Ter um mal-humor controlado é tão bom quanto uma dose de preconceito. Faz bem quando você sabe que ele existe e não o deixa turvar sua visão das coisas.

Agora entendo porque tanta gente deixa de se falar com gente que já foi íntimo. É mesmo melhor deixar tudo para trás.

Cicatrizes são eternas

Cicatrizes nem sempre curam. A vida não ajuda e o tempo é sempre relativo e inimigo. Terapias e papos-cabeça servem apenas como cortina de fumaça, daquelas bem densas, que impedem de ver e, muitas vezes, de respirar.

Há mesmo momentos em que não respirar alivia, deixa a alma seguir seu caminho, sem ter que se virar para trás. Se o tilintar de um copo ou de uma taça de vinho servem como aviso de que a sobriedade é fulgaz e ineficiente, o silêncio serve para que ouçamos melhor as vozes que rondam nossas casas, estejam elas onde estiverem.

Só ou acompanhados, é fácil sentir as feridas que jamais fecharão, jamais criarão casca, daquelas que doem só de vez em quando.

Mais fácil fingir que se olha para frente, que se avista um futuro, do que admitir que os danos são grandes, profundos.

O tempo não cura tudo. Aliás, o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atençõesMartha Medeiros

Uma inspiração de Anatole France

All changes, even the most longed for, have their melancholy; for what we leave behind us is a part of ourselves; we must die to one life before we can enter another. (Todas as mudanças, mesmo as mais esperadas, tem um quê de melancolia, sempre deixam uma parte de nós para trás; Nós devemos morrer em uma vida antes de poder entrar em outra). Anatole France

Todos temos nossos lutos, nossos arrependimentos, nossos projetos fracassados. Todos deveríamos ter o direito de curtir o luto, sem saber que a outra parte já está em outra. A frase de Anatole France é perfeita: Todas as mudanças, mesmo as mais esperadas, tem um quê de melancolia, sempre deixam uma parte de nós para trás. Invejo os que esquecem mesmo sem o mal de Alzheimer. Invejo os que pulam de galho sem lembrar de datas, momentos e risadas. Invejo até os que não lembram por não terem o que lembrar (ignorância sempre pode ser uma benção).

Não sei se todos os pensadores e filósofos eram todos eternos apaixonados e se criavam suas teses embebidos em Absinto ou alguma outra substância alcoólica, mas fico pasmo com a quantidade de frases que gostaria de ter escrito e que gostaria que as pessoas lessem. Será que eles lêem esse tipo de coisa ou ficam só ligados em textos técnicos, de decoração, etc?

Melancolia pode fazer mal, mas pode fazer bem. Nós devemos morrer em uma vida antes de poder entrar em outra, mas nem sempre entrar em outra vida é evoluir.

Anatole FranceAnatole France

Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazer

Os homens apressam-se mais a retribuir um dano do que um benefício, porque a gratidão é um peso e a vingança, um prazerTácito

Essa é daquelas verdades incontestáveis. Das que confirmam os maus instintos do ser humano. Nada pior que dever algo para alguém, um favor. Melhor manter a raiva, o ódio. Quem disse que quero ser seu amigo?

Mais fácil nunca mais perguntar, citar, pensar, do que lembrar de que pode dever algo, de que alguma parte sua pode não ser só sua. Revidar uma agressão é tarefa rápida, muito planejada e bastante prazerosa.

Olhar para a parede e ver que não existe aquele buraco, assar uma massa longe do fogão, relaxar com uma taça de espumante nas borbulhas quentes. Tudo pode ser um fardo.

Dever um favor é algo que deveríamos ter a permissão de esquecer. Não importa o quanto chovia naquela tarde ou quantos não responderam os nossos chamados.

Ter que retribuir um favor é algo doloroso. Mais doloroso ainda se a retribuição tenha que ser algo que agrade o outro. Melhor sempre pensar que ‘isso que estou fazendo é um favor‘.

Melhor cuidar da aparência, armar um sorriso aberto, subir o tom da voz e rir bem alto, pelo menos enquanto ninguém aparece com uma torta para jogar na cara. Afinal, por que retornar uma ligação, desejar feliz aniversário ou dar os parabéns por alguma conquista, se é mais fácil só pedir favores?

Será que sabemos quando casamos danos?

A Alma Cinza

A alma voava longe, bem mais alto que as nuvens
Olhava para os telhados e ria de quem trabalhava
Assumia formas diferentes, fazia piruetas improváveis
Sempre com um sorriso nos lábios

A alma, sempre impossível de ser tocada, viajava
A alma, sempre improvável, se desviava, se desapegava
A alma, continuava seu voo só, olhando tudo de longe

Nuvens cinzas, gaviões famintos
Ventos frios, mentes magras

As mutações aceleravam, as intransigências também
A arrogância se fortalecia e a alma escondia tudo sob um ar maroto

A alma procurava um parceiro, mas sem querer dar espaço
Buscava outra alma para poder se consolar
Perdia o controle controlando tudo

A alma voava longe, com seus tons de cinza

A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos – John Lennon

Definitivamente fazer planos é uma tremenda perda de tempo. Melhor que planejar, que sonhar, é procurar perceber os pequenos sinais, os gestos que podem mudar tudo de um minuto para o outro. De nada adianta querer, desenhar ou se esforçar. A vida, essa coisa inexplicavelmente linear e cruel, passa, muitas vezes como um caminhão sobre um pobre tomate que atravessava uma rua.

A poeira do lado errado da cama, as moedas retiradas da mesa da sala ou até mesmo uma resposta vaga podem ser um alerta. A vontade em não dar importância a compromissos assumidos – sempre com você, claro – devem sempre desfazer sonhos, planos, ideias.

E as palavras, eu que vivo delas, onde estão?Armando Nogueira

A vida não perdoa, como diria o mestre citado acima, é uma menina sapeca. Infelizmente, pode ser sapeca e egoísta, como muitos que conhecemos, deixando um rastro de voz alta e sorrisos perdidos, sem palavras inteligíveis.

Olhando daqui de cima, vendo o mar, os campos de pelada e a falação dos colegas, fico com a certeza de que a vida não vai me dar a chance de domá-la do jeito que queria.

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O texto acima é do fim dos anos 90. Achei interessante publicá-lo, pela citação da frase de Armando Nogueira.