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R.I.P. Otis Rush, um dos maiores nomes do blues

Numa sequência de perdas na música, poucos falaram (no Brasil) sobre a morte de Otis Rush, autor de vários clássicos do blues

Um dos grandes nomes do blues, ídolo de músicos como John Mayall, Eric Clapton e Jimmy Page, e autor de clássicos como All Your Love e Double Trouble — gravadas, em vários momentos de sua carreira, por Clapton — Otis Rush morreu no último dia 29.

Com perdas no cenário musical como as de Ângela Maria, Tito Madi e Charles Aznavour, foi pouco o espaço dado pela grande mídia brasileira ao bluseiro, morto aos 84 anos (por complicações de um AVC sofrido em 2003).

Rush iniciou a carreira nos anos 50, inspirado por gente como Muddy Waters e Howlin ‘Wolf, levando uma verta modernidade ao som do blues de Chicago, principalmente com sua ótima técnica na guitarra.

Reconhecimento do outro lado do Atlântico

Otis Rush ganhou reconhecimento mundial nos anos 60, quando John Mayall & the Bluesbreakers (com Eric Clapton na guitarra) gravaram a sua versão de All Your Love (I Miss Loving), em 1966.

Outro momento de reconhecimento da importância e da qualidade da obra de Rush foi a inclusão da canção I Can’t Quit You, Baby no álbum de estreia do Led Zeppelin (1969). Vale lembrar que a mesma canção foi resgatada pelos Rolling Stones em seu álbum Blue and Lonesome (2016).

Prestígio em casa

Rush também influenciou muitos músicos americanos. Stevie Ray Vaughan, por exemplo, deu o nome de Double Trouble para a sua banda. Além disso, a revista Rolling Stone colocou o bluseiro na posição 53 na sua lista dos 100 Melhores Guitarristas de todos os tempos.

R.I.P. Otis Rush

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia

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Eric Clapton vai lançar disco de Natal com toques de blues

Álbum se chamará Happy Xmas, terá clássicos de Natal e uma canção inédita. Data de lançamento está prevista para 12 de outubro

Eric Clapton é reconhecidamente um dos maiores nomes do blues, tem (merecidamente) o apelido de Deus da Guitarra, é um sobrevivente do rock e dono de uma carreira com muitos altos e alguns baixos.

Na última semana, Clapton anunciou o lançamento do seu 24° álbum de estúdio e o primeiro desde o apenas razoável I Still Do (2016). Happy Xmas vai trazer clássicos natalinos e uma canção original, For Love On Christmas Day.

— Eu tinha em mente que essas músicas de Natal poderiam ser feitas com um leve toque de blues, e comecei a descobrir como tocar as linhas de blues entre os vocais. Eu peguei uma das músicas mais identificáveis do álbum Have Yourself a Merry Little Christmas que terminou sendo o ponto principal do álbum — diz Clapton.

Clássicos e novidades

Nas 14 faixas do álbum, Clapton faz um mix de clássicos como White Christmas, Silent Night e Jingle Bells, com canções menos conhecidas e uma original, For Love On Christmas Day.

O disco, que tem como capa uma ilustração do próprio Slowhand, já está em pre-order no site da gravadora Surfdog Records e na Amazon. A data de lançamento é 12 de outubro.

Versão não muito deluxe

Assim como os últimos lançamentos de Clapton, Happy Xmas terá uma versão deluxe. Infelizmente a parte musical parece ter sido deixada de lado nessa produção. Nada de demos, canções extras ou versões originais dos clássicos.

Ao invés de focar na música, a gravadora preferiu incluir penduricalhos natalinos como uma árvore de Natal de metal e rascunhos do desenho da capa. Na parte musical, temos o tradicional pendrive com as versões em alta resolução das canções do álbum e um flexi disc. Há também uma entrevista em vídeo com Clapton, mas nada de tirar o fôlego.

Fique com a versão standard.

Pre-order

Amazon – LP: http://a.co/adE2Y37
Amazon – CD: http://a.co/7id8PgS
Deluxe Box Set: https://bit.ly/2MSXt89

Track List

1. White Christmas
2. Away In A Manger (Once In Royal David’s City)
3. For Love On Christmas Day
4. Everyday Will Be Like A Holiday
5. Christmas Tears
6. Home For The Holidays
7. Jingle Bells (In Memory Of Avicii)
8. Christmas In My Hometown
9. It’s Christmas
10. Sentimental Moments
11. Lonesome Christmas
12. Silent Night
13. Merry Christmas Baby
14. Have Yourself A Merry Little Christmas

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia

Mais textos sobre Clapton

Niterói recebe a 4ª edição do festival Tudo Blues

Evento acontece entre os dias 17 e 27 de maio, sempre de quinta a domingo, no Teatro da UFF

Hoje, quando se pensa em Rio de Janeiro o que vem à mente é crise, violência e desgoverno. Quando vamos para o campo da música logo ouvimos samba ou bossa nova, mas não é só disso que vive o estado e sua capital. Alguns eventos insistem em sobreviver e oxigenar a cena fluminense. O festival Tudo Blues, é um desses.

Idealizado por Luiz Claudio Vasconcellos, o Tudo Blues chega a sua 4ª edição – entre os dias 17 e 27 de maio – no Teatro da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói.

– Nos anos 90, eu já havia realizado um festival no mesmo teatro, chamado Em Janeiro Tudo é Blues. Foram três edições e, em 2014, numa reunião com a direção do Teatro da UFF, surgiu a ideia do retorno do festival. Criamos o Tudo Blues e já estamos aí na quarta edição – conta Vasconcellos.

Mistura de Gêneros

Rosa Marya Colin – Foto de Cláudio Medeiros

Para a edição 2018 o line up promete muito blues com pitadas de gospel, country e soul. Nomes conhecidos, como Rosa Marya Colin e Blues Etílicos, se juntam com os não menos talentosos Laranjeletric, Daniel Cheese, Colorado Country, EL84 Rock’n’Blues Band, Ticão Freitas e The Al Pratt Blues Session.

– A curadoria é minha e procuro evitar repetir atrações que já passaram pelo Tudo Blues em um curto intervalo de tempo – explica Luiz.

Serviço:

Tudo Blues Festival

Data: De 17 a 27 de maio de 2018 (quinta a domingo)
Horário: 20h
Local: Teatro da UFF – Rua Miguel de Frias 9, Icaraí, Niteró
Preço: R$50,00 (inteira) e R$25,00 (meia-entrada para estudantes, pessoas acima de 60 anos e servidores da UFF)

Daniel Cheese – Foto de Elaine Werneck

Programação:

17/5 – Laranjeletric
18/5- Daniel Cheese
19/5- Rosa Marya Colin
20/5- Colorado Country
24/5- El84 Rock’n’ Blues Band
25/5- Ticão Freitas
26/5- Blues Etílicos
27/5- The Al Pratt Blues Session

Uma versão deste texto foi publicado na Revista Ambrosia

Big Gilson, ícone do blues brasileiro, comemora 30 anos de carreira

O blues brasileiro nunca teve o mesmo espaço na mídia que outros ritmos como a bossa nova, o pagode ou o sertanejo. Pode até ser que o som criado nas plantações de algodão do Sul dos Estados Unidos no século XIX não seja visto como algo natural para o brasileiro. Mas um país que já teve (e tem) artistas do calibre de Celso Blues Boy, Baseado em Blues, Blues Etílicos e Big Gilson não pode relegar a qualidade da música produzida por essas bandas.

Gilson Szrajbman, o Big Gilson, guitarrista, cantor, compositor e um dos maiores nomes do gênero do Brasil, já tendo tocado e recebido elogios do mestre B.B. King, que disse: “Quando vejo um jovem tocando blues tão bem assim e tão longe da América, sinto que minha missão nesta vida está cumprida”, completa 30 anos de estrada com uma série de shows e um disco autoral.

Fundador do grupo Big Alambik, responsável por ótimos trabalhos como Blues special reserve (1993) e Black Coffee (1995) — que infelizmente estão perdidos, já que não estão disponíveis no formato físico ou nos serviços de streaming —, Big Gilson se apresenta no Blue Note RJ, no dia 18. O show mescla canções do seu 13º disco, o ótimo XXX, e sucessos da carreira solo.

Movido a desafios

Big Gilson, que além do Blue Note, também sobe no palco do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, no dia 31, segue o conselho de Muddy Waters e está sempre em movimento para não deixar o limo crescer.

– Não gosto de seguir a maré. Sou movido a desafios. Estou preparando um DVD desse show, que gravei no Mississippi Delta Blues Festival (em Caxias do Sul, RS), no fim do ano passado. As apresentações do Blue Note e do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (no fim de maio) serão praticamente prévias desse DVD, com algumas músicas extras. O bom dessas apresentações é que eu já sei quais músicas funcionam ao vivo, deixando o setlist bastante poderoso. Há algumas canções clássicas que faço versões que as deixam com a minha cara, soando praticamente novas – explica o guitarrista.

Sempre repaginado, sempre renovando

Gilson é daqueles músicos que muitas vezes é mais reconhecido lá fora que no Brasil, já tendo tocado com alguns dos maiores nomes do blues.

– Faço muitos shows lá fora e até já tive convites para morar no exterior. Tive a sorte de viver grandes momentos, mas, pra mim, o highlight da minha carreira foi quando fui convidado para abrir o show do Johnny Winter, que é o meu mentor guitarrístico, que foi quem me inspirou a empunhar uma guitarra, e tocar com ele. Também foi inesquecível tocar com o Mick Taylor, subir no palco do clube do Buddy Guy – com ele na plateia – e abrir shows do Chuck Berry, no B.B. King Club, em Nova York (infelizmente recém-fechado) – conta.

Com as mudanças na indústria da fonográfica, viver de música no Brasil não é fácil. Viver tocando blues é mais difícil ainda, já que o estilo fica fora da grande mídia.

– O mercado, tanto lá fora quanto aqui está difícil. Blues nunca foi fácil, mas tem uma característica muito interessante: o público é fiel. Aqui no Brasil estão acontecendo muitos festivais e até mesmo os eventos de Food Truck travestidos de festivais ajudam a mostrar a música para um público diferente. O problema maior é mesmo a renovação do público. Por isso os festivais são importantes – diz Gilson, que acredita na renovação do estilo.

– O Joe Bonamassa é o top do momento, mas vira e mexe aparece alguém de quem eu nunca tinha ouvido falar e que arrebenta. Infelizmente, nem tudo chega ao nosso alcance. O próprio John Meyer, que é o Eric Clapton da atualidade, misturando o blues, o pop e o rock, tudo muito bem, ajuda a manter acesa a chama do blues. Quem gosta de música boa, gosta de música boa. Não adianta – sentencia.

O disco

XXX é o 13º disco de Big Gilson e mostra que o bluseiro caprichou na comemoração de seus 30 anos de carreira. Cantado totalmente em português (embora com alguns números instrumentais), XXX é explosivo, misturando rock e blues, como na faixa de abertura (Hey Você) e na também roqueira Xamã do Raul.

– Parti do zero nas composições para este disco. Tudo nele é material inteiramente novo. Seria muito mais fácil fazer um Best of ou regravar clássicos do blues, mas queria algo novo para mim e para o meu público– conta Gilson.

Mas o CD é eclético. Há até baladas (Canto), mas sempre baseadas em ótimos riffs de guitarra. A produção de Bacalhau Baca (ex-baterista dos Autoramas e Planet Hemp), as letras do parceiro Leão Leibovich e os convidados especiais – Jefferson Gonçalves (gaita), Sergio Rocha (guitarra) e do produtor Bacalhau Baca (bateria), entre outros – dá mais peso ainda a celebração musical de Big Gilson.

Disponível nas plataformas musicais e em algumas das ainda existentes lojas que vendem CD, XXX é daquelas obras que merecem ser ouvidas, seja pela excelência na execução, seja pelo momento histórico da carreira de um músico que pode ser considerado um orgulho nacional.

Fotos: Jo Nunes e Divulgação

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia.

Lembranças do Rei – R.I.P. B.B. King

B. B. King 039Desde cedo o blues se tornou uma paixão. Ainda na faculdade me atrevia a fazer críticas de discos do gênero, ainda sem uma compreensão completa do que esse estilo significava.

A primeira vez que assisti a um show de B.B. King foi em 1992, no falecido Free Jazz Festival, no Hotel Nacional, também falecido. Antes disso já tinha visto outro Rei (Albert King) e o nosso grande Celso Blues Boy. Depois disso, teve B.B. no Canecão, no Metropolitam e no Vivo Rio. Não vou perder tempo explicando questões técnicas do músico, que sempre colocou algo importantíssimo em cada nota tocada: emoção. Nada de velocidade e malabarismos em seus solos, apenas emoção!

B. B. King 030Emoção era o que sentia toda vez que ele subia ao palco. Sozinho ou acompanhado de bons amigos bluseiros, não havia como uma noite de show de B. B. King não ser uma noite especial. Sua música era feita pala alegrar, assim como suas apresentações, historias e caretas. O velhinho era gente boa e sentia um prazer genuíno em entreter uma plateia.

Com a sua morte tenho certeza de que o ídolo e a música se eternizarão, assim como espero que os clubes que levam o seu nome (principalmente o de NY) se mantenham vivos e em atividade como verdadeiros templos do blues.

Segue a crítica do show do músico no Vivo Rio em 2010, um ano nem tão distante, mas que já deixa muitas boas lembranças.

Lucille pode ter ficado viúva, mas sua imagem jamais será esquecida.

Viva o Rei!

Fotos: Ag. News

Jesse Robinson – Stray Star – Crítica

Jesse Robinson - Stray StarBlues é algo apaixonante, mas difícil de imaginar em conjunto com poesia brasileira. Pois as vezes somos surpreendidos por misturas e encontros de elementos que não deveriam combinar, mas que acabam se transformando em algo apaixonante. Não que blues e o Brasil sejam opostos que se atraem, mas o CD Stray Star, do bluesman Jesse Robinson e que ganha no Brasil edição do selo Discobertas, une o Mississípi aos versos criados pelo baiano Assunção de Maria. O resultado, produzido por Robertinho do Recife, é mais do que satisfatório.

Com um timbre de guitarra que as vezes lembra a Lucille, de B.B.King, ou a Strat de Robert Cray, Robinson passeia por dez números que agradam pela sonoridade e deixam curiosos pelos versos, traduzidos para o inglês por Carl Kolb.

Aos 69 anos, Robinson, canta com aquele toque que só mesmo quem nasceu no Mississípi pode ter. A mescla de músicos americanos e brasileiros (comandados por Robertinho) dá um molho realmente diferente nesse bom disco de blues.

Highlights? A faixa-título, My Addiction is You, You Fled From Me e My Girlfriend, embora seja difícil encontrar uma canção que se sobreponha sobre as outras.

Para os amantes do blues (e da poesia brasileira).

Ouça algumas canções no playlist do blog (no menu lateral).

Beale Street lança primeiro DVD

CAPA DVD BEALE STREET (2)Blues é uma paixão e fazer blues no Brasil não é para qualquer um. Por isso, fico feliz sempre que vejo um artista do gênero produzindo e lutando para manter viva a chama de um dos mais tradicionais e interessantes ritmos do mundo.

O power trio carioca Beale Street, uma das bandas de blues mais ocupadas do País, lança o seu primeiro DVD, com um repertório composto apenas por canções autorais e em português, sempre um perigo para qualquer artista. Formada por Ivan Mariz (Guitarra e vocal), Cesar Lago (baixo e vocal) e Beto Werther (bateria e vocal), a banda mostra força nesse Ao Vivo no Espaço Cultural Escola Sesc.

Para tornar o projeto ainda mais especial, o grupo conta com a participação de alunos da Escola SESC de Ensino Médio, todos na faixa dos 16 anos, em cinco das 11 canções do DVD, encorpando ainda mais o som da banda. Como não poderia deixar de ser, as músicas do Beale Street falam de coisas bem cariocas, como Primavera em Ipanema, e ícones do blues, como os Campos de Algodão.

Uma versão deste texto também foi publicada no jornal O Fluminense

B.B. King reúne convidados em Londres e mostra que continua vivo

Mestre do Blues lança CD e DVD gravados na Inglaterra, enquanto no Brasil Noel Gallagher se apresenta no Vivo Rio e Mariene de Castro apresenta o seu terceiro CD

B.B. King é o maior nome vivo do blues. A afirmação não deixa margem para contestação, apesar dos seus 87 anos, que já pesam nas suas apresentações. Depois de (graças à Deus) ludibriar os fãs com uma turnê de despedida em 2006 – chegou a passar pelo Brasil com ela – B.B. resolveu mudar de ideia e continuar tocando pelos quatro cantos do mundo.

Neste B.B. King Live at Royal Albert Hall (Universal), o guitarrista escalou um grupo de convidados díspares para acompanhá-lo na aristocrática casa de espetáculos de Londres. Devidamente sentados ao lado do anfitrião (que não consegue mais tocar de pé), o guitarrista Derek Trucks, o ex-vocalista do Simply Red (Mick Hucnall), o Rolling Stone Ronnie Wood, o excêntrico Slash e a cantora de blues Susan Tedechi dividem com o Rei alguns momentos inspirados e que valem o show.

O repertório não traz surpresas em relação ao que King vem apresentando nos últimos anos. Lá estão clássicos como Key to the Highway, When the Saints Go Marching in, You Are My Sunshine, Rock Me Baby e a sempre indispensável The Thrill Is Gone. A banda, afiadíssima,  garante o balance e emoção das canções, mesmo nos (poucos) momentos onde Lucille – a fiel guitarra de King – dá alguma escorregada.

Mais uma esperança para o blues

Joe Bonamassa mostra, aos 34 anos, que o gênero ainda vive

O novaiorquino Joe Bonamassa é mais um apaixonado pelo blues. Blues inglês. Isso, mesmo já tendo participado de um grupo (o Bloodline) onde estava o filho de Miles Davis. Bonamassa, que aos 14 anos já tocava como atração de abertura dos shows do mestre B.B. King e, desde então, já dividiu o palco com nomes como os de Buddy Guy, Foreigner, Robert Cray, Stephen Stills, Joe Cocker, Gregg Allman, Steve Winwood, Paul Jones, Ted Nugent, Warren Haynes, Eric Clapton, Derek Trucks e Jack Bruce, tem três trabalhos recentes lançados no Brasil pela Som Livre: o CD Dust Bowl e o CD e DVD/Blu ray Live From Royal Albert Hall.

Bonamassa, que ainda é relativamente jovem, com seus 34 anos, é, depois da morte de Stevie Ray Vaughan, uma das grandes esperanças do blues. Em Live From Royal Albert Hall o guitarrista, usando o seu melhor estilo Blues Brothers, mostra toda a sua técnica em canções como Lonesome Road Blues, The Ballad of Joe Henry e So Many Roads. Mas o melhor mesmo é a participação e a influência de Eric Clapton, que é citado com parte do tema de Edge of the Darkness (um obscuro tema para um filme de TV do mesmo nome). O duelo entre Bonamassa e Deus em Further On Up the Road é de arrepiar e possivelmente a versão mais incendiária desta canção, que Clapton já dividiu com gente como Jeff Beck, Robbie Robertson e Albert Lee. Outro ponto alto do DVD é a versão de Your Funeral My Trial, clássico de Sonny Boy Williamson, que conta com o cantor e gaitista Paul Jones.

Dust Bowl – 12º trabalho solo de Joe Bonamassa – mistura o blues de Buddy Guy, com influências country, principalmente nas faixas onde veterano cantor e compositor John Hiatt empresta ao bluseiro a sua bagagem country. Mas há também toques de hard rock no trabalho, assim como momentos que parecem voltados para o som pop FM que toma conta das rádios atuais.

Da faixa de abertura (Slow Train) até a de encerramento (Prisoner), Dust Bowl é Joe Bonamassa dando o melhor de si, passeando pelas várias vertentes do rock/blues com um vigor que há algum tempo parecia ter se perdido, principalmente nos últimos trabalhos dos grandes nomes do gênero.

Recomendo a audição dos dois trabalhos!


Texto publicado originalmente no jornal O Fluminense

Blues na veia no Rio de Janeiro

Quem pensa que o Rio vive apenas de samba, chorinho e (argh) funk, se engana. Nesta quinta (9/06/11) tivemos a abertura do Rami – II Festival de Guitarras do Rio de Janeiro, na Sala Baden Powell, em Copacabana. O evento – que vai até o dia 19 desse mês – ainda conta com várias atrações de diferentes vertentes musicais. Para a abertura, tivemos o encontro de dois mestres do blues nacional: Big Joe Manfra e Big Gilson.

O show do Rami (nome tirado daquele som irritante que sai da guitarra quando está mal aterrada) foi um aperitivo para o que vai acontecer neste sábado no Rio Rock & Blues Club, na Lapa, neste sábado (11/06). Lá estarão reunidos Big Gilson (com Big Joe Manfra), Blues Etílicos e Blues Groovers. Toda a renda (R$ 35 o ingresso) será revertida para Ricardo Werther (ex-vocalista do Big Alambik).

Mas, voltando ao Rami, foi bom ver que a Sala Baden Powell – que antes foi um cinema- se transformou em um espaço aberto para música de todos os estilos e não mais uma farmácia ou igreja. O show, extremamente profissional, também teve toda a descontração de um encontro entre amigos. Até mesmo a (pouca) platéia era formada por rostos conhecidos do cenário do blues.

Jimmy Hendrix, T-Bone Walker e outros mestres foram reverenciados, além de músicas originais de Manfra – que oficialmente comandava a festa.

Para os que não tiveram coragem de enfrentar a chuva, o frio da noite carioca e pagar os (baratos) R$ 30 do ingresso, fica a certeza de que perdeu um grande show, mas também fica a chance de se redimir no sábado.

Rio ganha calendário de shows de blues no Centro

Fugindo da ditadura dos sambas de raiz, pagodes & afins, chega a informação de que o Centro do Rio ganhou uma casa onde poderemos ouvir a boa e velha música criada pelos negros catadores de algodão do Mississipi.

O local – Lapa Café – já entrou nos meus locais favoritos, mesmo sem nunca ter ido lá.  Propaganda totalmente gratuita. Valendo mesmo pelo prazer pessoal.

Até uma terça dessas.

Buddy Guy & Junior Wells – Play the Blues

Warner relança álbum clássico de Buddy Guy e Junior Wells
Disco, originalmente lançado em 1972, tem participações de vários astros e chega em edição de luxo

Originalmente lançado em 1972, depois de uma espera de quase dois anos, quando apenas oito faixas foram gravadas, Buddy Guy & Junior Wells – Play the Blues chega ao mercado brasileiro em edição dupla, trazendo 23 faixas, 13 a mais que o LP que desembarcou nas lojas dos Estados Unidos no início dos anos 70. O disco uniu novamente a guitarra quente de Buddy Guy e a gaita de Junior Wells – dois gênios do blues – repetindo uma parceria que havia começado nos anos 60 e que iria seguir até o fim da década de 80, quando Wells morreu.

O projeto começou depois que a dupla fez a abertura dos shows da turnê dos Rolling Stones e Eric Clapton sugeriu que a dupla fosse contratada para gravar um disco, que ele produziria. Mas 1970 era uma época conturbada no cenário musical e, principalmente, para Clapton, afogado em heroína e num amor mal resolvido (Pattie Harrison). O que deixou tudo muito confuso e lento.

Com participações de Ahmet Ertegun, Tom Dowd, Dr. John e do núcleo do Derek and the DominosEric Clapton, Carl Radle e Jim Gordon – o disco levanta discussões calorosas. Para muitos é uma perda de tempo (e talento). Para outros, simplesmente o melhor disco já gravado por astros do blues elétrico de Chicago. Definitivamente não é um desperdício de talento. Canções como A Man of Many Words, T-Bone Shuffle e Messin’ With the Kid são ótimos exemplos do que Wells e Guy eram capazes quando inspirados. Guitarras ferozes, vocais sensuais (ou vice-versa) e uma gaita que guia, sem cansar.

A versão lançada agora no Brasil pela Warner foi compilada pela Rhyno (selo norte-aericano especializado em reedições de luxo) e tem algumas faixas que não foram lançadas sabe-se lá o porquê. Dirty Money for You, Sweet Home Chicago e Stone Crazy já valem o preço do CD. Além das músicas extras, que praticamente dobram o tempo de audição do disco original, o CD vem com um encarte especial (em inglês), com notas sobre as faixas especiais e as novidades. Leitura muito interessante.

As novas canções tem a presença do slide de Clapton e um feeling de que todos estavam se divertindo, deixando ainda mais enigmático o atraso de quase dois anos para o seu lançamento. Buddy Guy é hoje uma lenda, Junior Wells não está mais entre nós mas também galga um lugar alto no pódio do blues, mas em 1970, ambos estavam on fire.

Buddy Guy & Junior Wells – Play the Blues é um disco para todos (iniciados ou não no gênero). Boas canções, algumas regravações de clássicos e dois mestres do gênero. Mesmo que você considere o CD muito comercial e produzido – adjetivos que com os quais não concordo -, não há como não admirar a guitarra de Buddy Guy e a gaita poderosa e elegante de Junior Wells. Uma aula de blues.

Serviço:

Buddy Guy & Junior Wells – Play the Blues
Gravadora: Warner
Preço: R$ 49

Uma versão editada deste texto foi publicada no Portal R7

Mais uma homenagem ao ‘Velho Blues’

Celso Blues Boy merece todas as homenagens possíveis. Sendo assim, coloco dois vídeos que comprovam minha afirmativa. B.B.King deixando nosso guitarrista tocar na sua Lucille e uma ótima versão de Onze Horas da Manhã.

Onze horas da manhã

Onze horas da manhã
Eu abro a porta
Do seu apartamento
Eu vou te deixar
A solidão dói demais
Mas não volto atrás

Onze horas da manhã
Está chovendo na rua
E o meu coração
Está querendo te ver
Não queria que fosse assim
Você me fez sofrer

Está chovendo
Está chovendo
Está chovendo

Na rua

E o meu coração
Está querendo te ver
Não queria que fosse assim
Você me fez sofrer

Quem foi que falou que acabou o rock’n’roll?

* Celso Blues Boy ao vivo no Teatro Rival – 24/04/09

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PQPQ..é o maior guitarrista do Brasil’! O grito entoado pelo público que esteve no primeiro dos dois shows de Celso Blues Boy no Teatro Rival, no Centro do Rio, deixa clara a forma do músico. O guitarrista, que já tocou e gravou com artistas do primeiro time do blues mundial, como B.B.King, fez mais um par de shows para lançar o CD/DVD Quem foi que falou que acabou o rock’n’roll?, gravado ao vivo no Circo Voador, em 2007, em uma noite chuvosa e sem que o público fosse avisado previamente.

Lembre como foi a gravação

celsobb1Além de uma apresentação que teve uma energia tão grande quanto o registro do CD/DVD – que estavam sendo vendidos por um precinho camarada e são sempre presentes de bom gosto – Celso aproveitou para mostrar que o Rival (casa acostumada com samba e MPB) também é um ótimo palco para as lamentações e amores perdidos do blues, como a alegria do bom e velho rock’n’roll.

A guitarra afiada, as baforadas no cigarro e as várias latinhas de cerveja consumidas durante a apresentação são a mistura perfeita para a apresentação de um dos mais brilhantes músicos nacionais e que, estranhamente, é pouco utilizado como músico de estúdio por outros cantores (a) e grupos. Faltam solos na música brasileira.

Vale citar a excelente participação do gaitista Jefferson Gonçalves.

O deuses do blues ficaram felizes.

Nota: 9,5

* Texto originalmente publicado no Mistura Interativa

I feel good doing right, but I feel much better doing wrong

bluesmen1Blues não é só tristeza, coração partido e bebedeira. Blues é sensualidade, maldade, pornografia. Tudo de bom!

Que a natureza humana não é boa, acho que já disse em alguns posts, mas admitir que gosta de fazer aquilo que não é correto é uma qualidade que apenas poucos corajosos têm.

Bluseiros não se preocupam (ainda bem) com nada que a sociedade considere ser correto. Eram (são) negões que faziam colheita de algodão, com mãos enormes, almas sofridas, corações de pedra, pouca educação, uma habilidade com a guitarra difícil de imitar e muitas história envolvendo o diabo. howlin-wolfVendo mais um documentário sobre o estilo, acabei descobrindo uma canção na qual a frase do título do post se destaca. No caso, a letra fala sobre bebedeiras, sexo sujo, fumo e brigas. Algo que comprova que o rock veio mesmo do blues.

Não acredito que canções, jogos ou multidões incitem a violência ou hábitos ruins. Na verdade, qualquer coisa pode se transformar em um gatilho para disparar bestialidades. A anonimidade de um grupo apenas potencializa a covardia. Música, ajuda a desarmar espíritos, arrumar amores, companhias e quartos.

Gostam de repetir que vingança faz mal, inveja atrasa a vida ou que fazer o bem faz bem. Feliz os que reconhecem que também se sentem bem quando vão na contra-mão da multidão.

Ouça as canções do blog

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Big Gilson is back

big-gilsonUm dos melhores guitarristas de blues brasileiros (senão o melhor), Big Gilson está de volta com um novo CD (Sentenced to Living) que promete (ainda estou na quinta faixa, mas de boca aberta).

A primeira faixa – I Wonder Who, de Rory Gallagher – já pode ser ouvida na playlist do blog (abaixo) e já se transformou em toque de celular.

Aguardem mais informações em breve.

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