Rocket Man in Rio ou como Elton me derrubou de novo

21/01/2009 4 Por Fernando de Oliveira

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Chegada na Praça da Apoteose: 19h36, pouco menos de meia-hora antes do horário programado para o show de abertura de James Blunt. Pouca movimentação de carros, nada de grandes filas e quase nenhuma ação de cambistas. Seriam sinais de um show vazio?

Vou para a sala de imprensa (esta sim, lotada) e já passo os primeiros flashes. Entro na pista vip, que teve os cinco mil ingressos vendidos e garantiu o conforto de quem estava lá, e aguardo o início do show do prodígio inglês, que subiu ao palco com parcos 18 minutos de atraso, mostrando disposição, boas composições, uma banda afiada e ótima empatia com o público.

Músicas como Breath, Carry You Home e You’re Beautiful foram cantadas a plenos pulmões por uma Apoteose já com bom público, deixando o cantor visivelmente satisfeito. Uma boa escolha de Elton.

Quem nunca teve a chance de assistir aos concertos dos anos 70 e início dos 80 (só em vídeo), não pode querer comparar suas apresentações em 2009 com as daquela época. O Brasil só teve a chance de ver Elton em 1995, quando lançava o apenas razoável Made in England. No Rio a coisa foi um desastre. O local escolhido (campo do Flamengo) era (é) péssimo, com entradas apertadas, infra-estrutura ridícula e som lamentável.

Se a voz já não era a mesma do auge da carreira, ainda era muito melhor que a de 2009,  a set list assim como a disposição de Elton melhoraram muito nesses 14 anos. Em 95, o show, apesar da animação sempre presente do percussionista Ray Cooper (que já tinha visitado o país em 90 (com Eric Clapton e depois voltou com o mesmo Clapton em 2001), foi burocrático. A platéia vibrava por qualquer coisa, mas musicalmente a coisa não andou (vide os registros em áudio e vídeo que circulam até hoje nas mãos de colecionadores).

João LaetA turnê Rocket Man, baseada em uma coletânea, é exatamente o que um país de terceiro mundo precisa: o artista cantando os seus maiores sucessos. Na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos, Elton pode se dar ao luxo de incluir canções menos conhecidas, algumas favoritas pessoais, mudar arranjos e outras ‘novidades’. Para um público que esperou 14 anos para uma chance de ver um show decente, o ideal é mesmo uma coleção de hits.

Atualmente Elton joga em três frentes: Um show em Vegas (Red Piano, disponível em DVD), o show da turnê Rocket Man e a já tradicional turnê com Billy Joel (que começa em março). Pela prévia do DVD Red Piano (crítica completa em breve), ficava a impressão de que o visual contava mais que as canções.

Quando começou a transmissão do Multishow, já na segunda música (The Bitch is Back), notava-se algo estranho. O som estava ruim, a voz de Elton mal mixada e, pior de tudo, não havia nenhum microfone aberto na platéia, deixando tudo muito frio e sem emoção.

Foi com essa má impressão que fui para a Apoteose. Confesso que acho que os que não se arriscaram a ver pela TV (a Globo errando ao insistir em colocar traduções mal-feitas das letras e o Multishow se confundindo até no crédito das canções) chegaram ao local do show com o espírito mais desarmado.

Já havia caído do cavalo quando apostei que não acreditava que alguém conseguisse convencê-lo a cantar Skyline Pigeon, seu maior sucesso no país, graças a inclusão na trilha sonora da novela Carinhoso, e me dei mal de novo ao duvidar da força de superação do hoje Sir.

O show seguiu exatamente o roteiro de São Paulo – as mesmas canções, na mesma ordem – e se o público sempre parece um pouco ‘surpreso’ com Funeral for a Friend/Love lies Bleeding (música que abre cerca de 80% dos shows do cantor desde que foi lançada, em 1973), logo o clima mudou com o balanço de The Bitch is Back e a linda seqüência de três canções do disco Madman Across the Water. A faixa título (a menos conhecida das três), ganhou novos contornos com a inclusão de trechos de Garota de Ipanema e Desafinado entre os solos de piano, prendendo a atenção de quem não estava familiarizado com a melodia.

Parenteses: Extremamente pobre o visual do palco e a qualidade dos telões e das (óbvias animações mostradas por ele. Depois de concertos como o do Queen, Rod Stewart e, disparado o melhor em termos de visual, Roger Waters, assistir ao apresentado na segunda-feira comprova que Elton está lá se garantindo na qualidade de sua música e nada mais.

As outras canções da trinca, Tiny Dancer e Levon, estão entre as mais belas de Elton e, embora tocadas em clima menos rock do que nas suas turnês dos anos 80, deixaram sorrisos e arrancaram os primeiros coros no Sambódromo.

191jl28O show seguiu com Believe e Take me to the Pilot, duas canções ‘menores’ de Elton, mas que contam entre as suas favoritas. Um capricho totalmente compreensível para quem está na estrada a mais de 40 anos e já passou dos 60 de idade. O show engrenou de verdade com Goodbye Yellow Brick Road (a primeira realmente cantada pela Apoteose), Daniel (praticamente igual ao registro em disco), Rocket Man (com menos improvisos do que o normal, mas mantendo a beleza da canção), Honky Cat (que ganhou a inserção de I Feel Fine, dos Beatles, durante o solo de banjo), Sacrifice (que apesar de considerar uma balada fraca, foi cantada a plenos pulmões pelo público) e Don’t Let the Sun go Down on Me (que a platéia tratou de cantar até mesmo os ‘ohs’ da versão original).

191jl63O resto do show até o bis (I Guess That’s why They Call it the Blues, Sorry Seems to be the Hardest Word,  Candle in the Wind, Bennie and the Jets, Philadelphia Freedom, I’m Still Standing, Crocodile Rock e Saturday Night’s Alright (for Fighting)) fizeram as arquibancadas pularem, beijarem e chorarem, mas o melhor estava mesmo guardado para o fim do show. A versão carioca de Skyline Pigeon foi largamente superior aquela cantada em São paulo. Enquanto, na terra da garoa, Elton tentou dar um tom mais autoral para a canção, no Rio ele fez o possível para cantar como o registro lançado no lado B do compacto Daniel. Emocionou muito.

Por fim, para cariocas e para Barack Obama, Your Song, que não precisa de comentários.

Claro que EJ não poderia sair de cena sem me derrubar (de novo). Antes de deixar o palco recebe uma capa de LP, escreve longa e pacientemente algo, chama o rapaz e devolve a capa em mãos! Claro, que era do LP Blue Moves, já citado aqui como um dos meus menos favoritos. Touché, Elton!

Fica a sensação de que foi a última vez em terras tupiniquins, mas, dessa vez, valeu cada centavo de cada pessoa presente ao concerto.

Abaixo dois vídeos da canção Pinball Wizard (clássico do The Who) que Elton tomou para si no filme Tommy. A primeira em 1975 e a segunda um dos poucos bons momentos do show do Rio, em 1995. Infelizmente nenhum vídeo do show da Apoteose tem qualidade para ser postado aqui.

Fotos: João Laet

Pinball Wizard – 1975

Pinball Wizard – 1995