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Milton Nascimento volta acústico e afinadíssimo

Cantor lança EP acústico com regravações de canções icônicas e divulga clipe da canção Maria, Maria

Um dos maiores talentos e uma das vozes mais privilegiadas da MPB, Milton Nascimento está de volta com o lançamento do EP A Festa, que traz versões acústicas de alguns de seus sucessos.

— Uma das minhas maiores vontades na vida era um dia poder lançar um projeto que tivesse minhas canções num formato mais acústico. E esse momento finalmente chegou! É com muita alegria que agora a gente tá lançando esse EP , com alguns de meus maiores sucessos acompanhado apenas pelo violão do meu maestro, Wilson Lopes, que já toca comigo há muitos anos. Foi tudo feito com muito carinho! — disse Milton.

Para quem acompanhou as duas últimas turnês de Milton, ficava evidente uma certa fragilidade (física e vocal) do artista. A voz, sempre poderosa e afinada, andou dando umas escorregadas, que parece ficaram para trás nestes registros. Uma ótima notícia para os fãs da boa música brasileira.


As canções

O Cio da Terra — Parceria de Milton com Chico Buarque, que fez sua estreia no LP Geraes (1976), O Cio da Terra ganhou um registro onde o arranjo de Wilson Lopes se destaca e dá mais brilho ainda a bela interpretação de Milton.

A nova versão é de uma delicadeza que rivaliza com a qualidade do registro original.

A Festa — Gravada por Maria Rita no seu disco de estreia (2003), A Festa ganha, finalmente, uma versão na voz de seu autor (outra escolha certeira).

Todos que imaginavam como a canção deve ter sido criada vão ficar mais que satisfeitos. Um dos pontos altos do EP.

Pôr do sol e aurora
Norte sul leste oeste
Lua nuvens estrelas e a banda toca
Parece magia e é pura beleza
E essa música sente e parece que a gente
Se enrola corrente e tão de repente você
Tem a mim

Maria, Maria — Uma das mais conhecidas e icônicas composições de Bituca, Maria, Maria é daquelas músicas difíceis de estragar e não seria o seu autor o responsável por fazê-lo. Talvez a necessidade de fazer algo diferente tenha atrapalhado um pouco.

É uma boa versão, mas o formato acústico e as mudanças de clima não melhoraram algo que é mesmo difícil de melhorar.

Confira os CDs de Milton Nascimento

A canção ganhou um clipe dirigido por Matheus Senra e estrelado pelas atrizes Simone Mazzer, Jéssica Ellen, Zezé Motta, Camila Pitanga, Sophie Charlotte, Georgiana Góes Arianne Botelho.

Beco do Mota — Provavelmente a menos feliz das gravações desse EP. Lançada no LP Milton Nascimento (1969), Beco do Mota não se beneficiou do formato acústico. Não chega a ser um mau registro, mas fica abaixo das demais canções do projeto.

Cuitelinho — Gravada pela primeira vez em 1983, no álbum Milton Nascimento ao Vivo, é o ponto alto do EP.

Composição tradicional, com origem no folclore do Pantanal de Mato Grosso do Sul, Cuitelinho é a prova definitiva de que uma boa música sempre pode ser melhorada. Bituca e Wilson Lopes mostram-se imbatíveis. É de ouvir sem parar.

Aí quando eu vim de minha terra
Despedi da parentaia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai

A tua saudade corta
Como aço de navaia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
Os óio se enche d`água
Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai

Canção da América — Assim como Maria, Maria, Canção da América é uma das marcas registradas de Milton Nascimento. A parceria com Fernando Brant, imortalizada no disco Sentinela (1980), ganha nova vida.

Os backings de Milton (em substituição aos originais do Boca Livre) são lindos. Uma ótima maneira de terminar A Festa.

Cotação **** ½

Uma versão deste texto foi publicada na Revista Ambrosia

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Chico Buarque completa 70 anos de vida e ganha box comemorativo

O ano de 2012 é especial para a música. São muitos os artistas que comemoram datas importantes. Beatles e Rolling Stones, por exemplo, fazem 50 anos de carreira, já no Brasil, são vários os nomes que completam 70 anos de vida, com uma carreira consolidada. Dentre eles, o compositor que ficou marcado pelas letras inteligentes e de protesto contra a ditadura. O mesmo artista que se tornou uma unanimidade entre o público brasileiro, especialmente o feminino, de quem se transformou um sonho de consumo de várias gerações: Chico Buarque (que só chega aos 70 em 2014, mas ganhou essa homenagem agora).

Das muitas homenagens que recebe pela data, o lançamento da caixa De Todas as Maneiras – que reúne os 20 primeiros discos do músico (lançados entre 1966 e 1986) e mais um CD triplo recheado de raridades, participações em discos de outros artistas e até mesmo uma canção inédita (Jorge Maravilha, sobra do disco Sinal Fechado) – se transforma na melhor e mais importante delas.

Dos sambas quase ingênuos dos primeiros trabalhos até as composições mais elaboradas e igualmente geniais das décadas de 70 e 80, pode-se traçar o retrato de um compositor (e de um País) em evolução.

“Cada disco da caixa é um disco, se basta. E foi assim que nós construímos nossa relação com eles ao longo do tempo. Mas quando você se propõe a observá-los em sequência, numa perspectiva histórica, é um exercício fantástico. Ilumina uma série de questões do artista, do Brasil, da época, da formação de nossa canção até para além do próprio Chico – é esclarecedor acompanhar os reflexos da Tropicália, do rock, da cultura de massa sobre ele, um compositor de linhagem tradicional”, explica o jornalista Leonardo Lichote, responsável pelo libreto que acompanha a coleção e coloca a obra de Chico em perspectiva com a história do Brasil.

Apesar de nunca ter sido um grande cantor, é visível a evolução do Chico Buarque cantor, desde A Banda (1966), até canções como Geni e o Zepelim (1979), passando por Mulheres de Atenas (1976) e Vai Passar (1984).

Provavelmente o artista que melhor entende a alma e os desejos femininos, Chico desfila uma série de composições que ganharam vida na voz de várias cantoras ao longo dos anos, ele também foi um dos que mais sofreu com as incoerências da censura, sempre driblada com o talento de um craque que, apesar da paixão pelo futebol, nunca conseguiu reproduzí-la nos gramados.

Raridades

Mas, para os fãs ocasionais e os completistas, o grande atrativo de De Todas as Maneiras é o CD triplo que reúne os registros – alguns deles famosos e essenciais na carreira de Chico – lançados em discos de outros artistas, em projetos especiais e compactos.

“Pesquisamos desde vinis de minha própria discoteca a sites de referência da MPB e também na nossa memória afetiva. A música João e Maria, por exemplo, fez parte da minha infância. Entretanto, o grande chamariz do CD triplo é a gravação inédita de Jorge Maravilha, que foi descoberta quando o CD já estava praticamente fechado. Não tinha como ficar de fora”, conta Cleodon Coelho, responsável pela compilação.

Nesse CD ainda podem ser encontradas músicas que entraram na trilha sonora do filme Garota de Ipanema (1967), O Cio da Terra e Primeiro de Maio – lançadas em um compacto com Milton Nascimento, em 1977 -, a versão de Bye Bye Brasil, também lançada em compacto, e canções que se tornaram sucesso como Isso aqui tá bom demais, gravada em dueto com Dominguinhos e lançada no LP do último, em 1985.

“Se fosse possível fazer um disco com todas as participações ou gravações avulsas que ele fez no período que a caixa abrange (1966-1985), daria um disco quíntuplo, pelo menos. Por isso, o mais difícil foi abrir mão de algumas faixas. O CD triplo tem uma linha conceitual: o primeiro tem uma batida forte de samba; o segundo tem um aspecto político bem evidente; e o terceiro mostra um Chico mais lírico”, explica Cleodon.

O cotidiano, o amor e a malandragem carioca, alguns dos temas recorrentes no cancionário do compositor, se unem em um universo repleto de imagens e sons. Canções como Roda Viva, Construção, Deus lhe Pague, Meu Caro Amigo, Homenagem ao Malandro, Pivete, Feijoada Completa e Cálice, traçam a trajetória de um artista que nunca se acomodou e sempre surpreendeu pela elegância, inteligência e uma simplicidade originalmente complexa, seja na música, no cinema, teatro ou literatura. E De Todas as Maneiras se transforma em um documento, um relato, um retrato da evolução política e econômica de um país e de um cantor e compositor que soube como ninguém registrar a realidade que está ao seu redor.

Os discos da caixa

Chico Buarque de Hollanda – Volume 1 (1966)

Chico Buarque de Hollanda – Volume 2 (1967)

Chico Buarque de Hollanda – Volume 3 (1968)

Chico Buarque de Hollanda – Nº 4 (1970)

Construção (1971)

Quando o carnaval chegar (1972)

Caetano e Chico – Juntos e ao vivo (1972)

Calabar – O elogio da traição (1973)

Sinal fechado (1974)

Chico Buarque & Maria Bethânia – Ao vivo (1975)

Meus caros amigos (1976)

Os saltimbancos (1977)

Chico Buarque (1978)

Ópera do malandro (1979)

Vida (1980)

Os saltimbancos Trapalhões (1981)

Almanaque (1981)

Chico Buarque en español (1982)

Chico Buarque (1984)

Malandro (1985)

Ópera do malandro (1986)

CD triplo com Raridades


Esse texto também foi publicado no jornal O Fluminense

O que gira é peão

E não é com apenas duas rodadinhas em um domingo que alguém vai ficar tonto.

E todo mundo tenta entender o que escrevo :p


Roda Viva (Chico Buarque)

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda peão
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

‘Chico’ mostra um Chico Buarque maduro e sofisticado

O novo CD de Chico Buarque é um trabalho que passa longe da simplicidade, mesmo sem ter qualquer tom de arrogância. Por isso, só agora (uma semana após seu lançamento) decidi escrever sobre ele. O trabalho, chamado simplesmente Chico, merece várias audições antes de se fazer um juízo sobre ele.

Chico é um disco maduro, onde fica a impressão que o seu autor está fazendo a música que lhe agrada, sem outras preocupações. Não é um disco para quem quer encontrar rimas fáceis – muitas vezes é difícil até mesmo encontrar uma – ou melodias que possam ser assobiadas após poucos minutos. O novo trabalho de Chico Buarque é recheado de melodias intrincadas, acordes dissonantes e arranjos elegantemente complexos. Nele, há mudanças de tempos, ritmos e uma (sempre) ótima poesia.

Na minha mão
O coração balança
Quando ela se lança
No salão
Para esse ela bamboleia
Para aquele ela roda a saia
Com o outro ela se desfaz
Da sandália

Em apenas dez faixas e pouco mais de meia hora, Chico nos leva a um universo romântico que, com o aprimoramento da vertente literária do autor, ficou mais maduro. Até mesmo as decepções parecem menos doídas e desesperadas. O CD nos leva pelo samba, baião, xote e outras paisagens musicais que vão passando com uma agradável brisa por nossas mentes.

Para os que gostam de uma música mais palatável, Querido Diário e Sou Eu – essa última uma parceria com Ivan Lins, gravada aqui em dueto com Wilson das Neves – parecem as escolhas óbvias. Seriam boas candidatas a single, caso eles ainda existissem.

Os gostos podem variar – Nina é outra das minhas preferidas enquanto Sinhá me diz pouco – mas Chico é mesmo um daqueles discos que merecem muitas audições antes de podermos dizer se gostamos dele ou não.

Para saber mais sobre o disco, siga esse link.

Retrato Em Branco e Preto

Retrato Em Branco e Preto

Tom Jobim – Chico Buarque

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração