O Que Você Quer Saber de Verdade de Marisa Monte

02/09/2012 0 Por Fernando de Oliveira

Esse texto (por algum motivo que não lembro mais) não fui publicado em lugar nenhum no início do ano. Porém, com a temporada da cantora no Vivo Rio, achei que valia o registro do que achei sobre seu último disco.

Marisa Monte faz parte de um naipe de artistas que merecem um tempo especial antes de falarmos do seu trabalho. Lançado no início de novembro e, portanto, já tendo sido dissecado por toda a crítica, seu novo disco O Que Você Quer Saber de Verdade, agora maduro no subconsciente, pode ser analisado de maneira isenta.

Para divulgar o CD, Marisa e sua assessoria decidiram apostar em textos em formato de entrevista e em uma coletiva pela internet, que parece ter agradado a artista e seu staff (e somente a eles), em detrimento ao bom e velho contato cara a cara. Nada de muito esclarecedor é produzido nestes formatos e espero que seja cumprida a promessa de dar a oportunidade de pescarmos algo particular da artista, apesar da experiência ter sido descrita como “uma reflexão sobre a maneira de se comunicar hoje no mundo”.

Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar

Fico surpreso que muita gente cite O Que Você Quer Saber de Verdade como o disco mais popular de Marisa. Na verdade,  O Que Você Quer Saber de Verdade é um mosaico de influências onde o talento da cantora/compositora mantém o alto padrão de qualidade de seus discos anteriores.

Não deve ter sido parir um novo conjunto de canções depois do vômito criativo que produziu Infinito Particular e Universo ao Meu Redor, ambos lançados simultaneamente em 2006 e que traziam uma coleção de sucessos e músicas com uma qualidade difícil de alcançar em trabalhos de características tão distintas – um disco apenas com sambas e o outro com canções pop. A turnê que se seguiu também foi tão espetacular que fica a interrogação de como repetir ou superar o exito artístico alcançado leia aqui a como foi o show de estreia no Rio.

Provavelmente o pensamento de superação não tenha passado pela cabeça de Marisa e seus companheiros de produção, mas é algo que deve ter ficado rondando a mente de todos os fãs da cantora. Os 14 títulos de  O Que Você Quer Saber de Verdade passam por canções românticas, bolerísticas, valsas, baião e pop, o que deve ter dificultado bastante a tarefa de escolher qual delas priorizar para o trabalho de divulgação. Segundo Marisa, a escolha de Ainda Bem foi basicamente por ser uma canção feliz.

O universo de Marisa Monte tem lugar para o romantismo e para desilusões, mas sempre com um toque de otimismo, de boa mocice, que deseja que o ex seja feliz, e essa característica se mantém nesse trabalho.

O disco

Desde a primeira audição que  O Que Você Quer Saber de Verdade soa novo e familiar ao mesmo tempo. A canção-título, que abre o disco, tem toques de Vilarejo com sonoridades que lembram algo que nossa memória auditiva não consegue traduzir, mas que agrada.

Depois de sonhar tantos anos,
De fazer tantos planos
De um futuro pra nós
Depois de tantos desenganos,
Nós nos abandonamos como tantos casais
Quero que você seja feliz
Hei de ser feliz também

A segunda faixa – Descalço no Parque, de Jorge Bem – é a primeira releitura do disco e nem de longe lembra o seu autor. Novamente aquele quê de familiaridade e novidade volta a atacar. Mas é a terceira canção (Depois) que me faz pensar que, se Roberto e Erasmo definiram as canções românticas nos anos 70 e 80, Marisa e seus parceiros Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown são os seus sucessores neste século. Não importa quanto ou quais restrições tenha sobre esses parceiros, a verdade é que a química entre eles funciona. Depois é um hit nato, daquelas canções que grudam na cabeça e fazem qualquer um cantarolar após poucos acordes e guardar a letra já na segunda audição. Além disso, é um exemplo típico daquele universo citado anteriormente, onde corações são partidos, mas a bondade sempre prevalece. Brilhante!

O mesmo otimismo segue em Amar Alguém – uma espécie de ode ao amor livre -, assim como em Assim Se Quer, com seu balanço nordestino cheio de acordeons e triângulos. Seguimos por Nada Tudo e o som de Marisa nos leva para lugares longe da realidade, seguindo sua voz suave e firme.

Verdade, Uma Ilusão é uma declaração de quem tem consciência de seu poder. Já parece claro que o objetivo do disco foi alcançado mesmo tendo chegado apenas a sua metade: levar felicidade e sorriso aos ouvintes.

Verdade, uma ilusão
Vinda do coração
Verdade
Seu nome é mentira

Lencinho Querido é das canções que nossos pais cantaram e cantarolam assim que os primeiros acordes são tocados. O misto de surpresa e prazer de ouvi-los cantar rivaliza com o deles relembrando o passado, ainda mais com a voz de Marisa, que se encaixa perfeitamente na melodia desse clássico da MPB.

Quando chegamos em Ainda Bem, já estamos seduzidos pelas melodias e imagens contidas no disco de tal forma que nem sentimos mais o impacto que a canção causa. Só mesmo (re)vendo o clipe é que a força da melodia e letra, que combinam perfeitamente com a identidade visual encontrada por Marisa.

Clipes

Aquela Velha Canção é mais uma daquelas composições que só poderiam existir no Mundo Maravilhoso de Marisa Monte. Só lá para querer ferir um ex-amor e ao mesmo tempo quer tê-lo por perto. O timbre algo brega do arranjo e da melodia lembram um Reginaldo Rossi turbinado, daqueles com teto solar e air bag.

Quando eu te ligar cantando aquela velha canção
Não diga que estou enganado, estou resolvido
Vou dar férias pro meu coração
Confesso que fiquei zangado, eu fiquei magoado,
Mas agora passou, esqueci
Não vou te mandar pro inferno porque eu não quero
E porque fica muito longe daqui


Marisa sabe para onde mirar o seu lirismo e Era Óbvio é daquelas músicas que estão fadadas ao sucesso, a fazerem parte de alguma trilha de novela. A elegância e delicadeza do arranjo, do tema e da interpretação a colocam entre as preferidas do disco. Difícil é descobrir a menos preferida!

E agora que eu sei o que eu sentia
E que você também queria
Resolvi te procurar
Estava só pensando de repente
Se a gente algum dia
Pode ainda se encontrar

O CD vai chegando ao fim e chega a hora do forró,da animação, da explosão de felicidade e do fim climático e bucólico. Acordeons, ukeleles, cordas e vozes se unem e, quando ainda esperamos a próxima faixa, descobrimos que chegou o fim do disco.


Os 45 minutos de duração parecem (e são) pouco. Onde estão as faixas extras, os Lados Bs, os bônus? Termina-se a audição com a certeza de que Marisa Monte é cruel. Demorar 5 anos e nos brindar com apenas 45 minutos de seu imenso talento é algo que não merecemos. Merecemos um álbum duplo a cada semestre, uma nova canção a cada mês. Isso, no mínimo!

Como diz a própria autora, esse é um trabalho que merece ser ouvido do início ao fim sem interrupções. Claro que as canções funcionam de maneira individual (são perfeitas para serem ouvidas nos shuffles dos iPods da vida), mas, tanto pelo esmero na produção quanto pela qualidade do seu conteúdo,  O Que Você Quer Saber de Verdade lembra os bons e velhos LPs produzidos por vários gênios nos anos 60, 70 e 80. Pena que a duração também seja de LP.

Tomara que o próximo lançamento de inéditas não demore tanto. É claro que o CD é um formato em extinção, mas os fãs, a crítica e todos os que gostam de boa música,  merecem um intervalo menor entre os trabalhos de uma das mais talentosas artistas já produzidas pela MPB.

Um disco solar – de bem viver