Para o mago Celso Blues Boy

07/08/2012 0 Por Fernando de Oliveira

Celso Ricardo Furtado de Carvalho ou simplesmente Celso Blues Boy, um dos maiores guitarristas do Brasil e o maior discípulo do blues no país, morreu na manhã desta segunda-feira, em sua casa, em Joinville, em Santa Catarina, vítima de um câncer na garganta.

Recordista de shows no Circo Voador (foram 104 apresentações), Celso se notabilizou pela paixão pelo blues (Blues Boy é uma homenagem ao ídolo B.B. King, com quem chegou a gravar), shows incendiários e um domínio completo do instrumento, que o fez ganhar uma legião de devotados fãs.

Blues Boy, que já havia tocado com nomes como Sá & Guarabyra e Renato e Seus Blue Caps, ganhou destaque depois que uma fita demo foi tocada na rádio Fluminense FM, no início dos anos 80. Sucessos como Aumenta que Isso ai é Rock’n’Roll, Onze Horas da Manhã, Sempre Brilhará e Blues Motel, fizeram dele um dos maiores ícones do boom do rock nacional.

Como marcas registradas do músico estavam a paixão pelo Vasco da Gama, as latas de cerveja sempre confortavelmente acomodadas na base de seu microfone e os cigarros acesos (qua acabaram sendo um das causas da sua morte), que o acompanhavam durante suas apresentações.

Um tanto injustiçado – nunca foi convidado para nenhuma edição do Rock in Rio, por exemplo – o guitarrista continuava na ativa, tendo lançado seu único DVD ao vivo – Quem Foi que Falou que Acabou o Rock’n’Roll?, gravado, claro, no Circo Voador – em 2007 e um ótimo disco de estúdio Por Um Monte de Cerveja (2011), seu último trabalho.

Celso deixa um legado que será tarefa difícil de ser complementado por outros artistas que tocam o gênero. Ele foi o primeiro a dar sotaque brasileiro ao blues e em seus 56 anos de vida mostrou que o brasileiro também sabe fazer uma guitarra chorar.

Os shows de Blues Boy

Um show de Celso Blues Boy sempre foi um programaão. Não importa se no mall de um shopping, no Canecão, Hard Rock Cafe ou na sua casa: o Circo Voador. Circo que, alías, foi o local escolhido para a gravação de seu DVD, em uma noite de quarta-feira chuvosa e sem qualquer aviso prévio ao público. Saindo da Zona Norte para a Lapa, ainda convenci um amigo, jornalista e companheiro de blues para assistir a mais uma apresentação demolidora de Celso, que foi desfilando sucessos e destruindo nos solos. Até mesmo a canção (então inédita) Quem Foi que Falou que Acabou o Rock’n’Roll? soou alto e forte, como fazia tempo não se fazia acontecer na lona do Circo.

Mesmo nos momentos onde teve menos espaço na mídia, o nosso maior bluseiro não perdia a paixão pela música ou a tremenda habilidade com as seis cordas de sua guitarra. Seria fácil citar trechos de letras ou títulos de canções que lembrassem momentos memoráveis da sua trajetória, mas isso nem é preciso.

Foram muitas as tentativas para fazer uma grande matéria sobre o músico, mas sempre colocavam uma série de obstáculos tão extensa que não tornou possível concretizar o projeto. Agora, lá do alto e, provavelmente, melhor empresariado, Celso vai se unir aos grandes e se encaixar em uma banda celestial (ou infernal), de bons rockeiros/bluseiros.

Em uma de suas últimas apresentações, no Festival de Jazz & Blues de Rio das Ostras, na Região dos Lagos, era visível o estado debilitado do músico, que se apresentou com uma enorme massa malígna na garganta e, mesmo quase sem conseguir tocar, fez uma apresentação que empolgou o público, que cantou por ele. Celso iria fazer seu 105º show no Circo Voador no próximo dia 23 de outubro, em comemoração ao aniversário do palco que era a sua segunda casa.

Para não deixar passar a oportunidade de usar um clichê, termino dizendo: “Celso, Aumenta que Isso ai é Rock’n’Roll“. Um brinde ao mago da guitarra.

Lembrança de um amigo

Abaixo o depoimento emocionado de um amigo de infância de Celso, o motociclista David Moreno Filstein, que também o acompanhou em alguns de seus últimos shows.

Somos amigos de infância e tive o prazer de conviver muitas das fazes de sua vida. Quando foi expulso de casa na sua adolescência morou na minha casa por alguns meses antes de ser o Celso Blues Boy. Quando descobriu sua veia de Bluseiro, curti suas músicas quase em primeira mão (Aumenta que isso ai é Rock Roll, Sempre Brilhará e outros clássicos por ele gravados para nosso puro deleite). Ao longo de sua jornada tocando com vários músicos e amigos em bares e mesas com muitas cervejas e papos memoráveis lembro de histórias de bastidores que dariam um grande livro !!!!!!

O Celso foi um cara muito ele, hora polêmico outras muito amigo e grande profissional. Batia de frente mesmo com quem tentava mudar sua postura ou vertente musical. Fechou um monte de portas por anos mas sempre seguindo um NORTE o qual ele acreditava ser o certo. Shows maravilhosos e memoráveis por esse mundo a fora e o melhor sendo reconhecido por celebridades como o ‘REI’ B.B. KING dentre outros.  Muita musicalidade nas suas veias se tornando o MAGO DA FENDER como era conhecido no meio dos guitarristas de sucesso.

Temos muitos amigos em comum que estão chocados com a perda tão rápida desde o começo de sua doença. Eu, junto com outros verdadeiros amigos ( não quero citar nomes para não ter o risco de esquecer de alguém, acompanhamos esse prematuro fim de um ídolo do Blues. Fui junto com Roberto LLY levá-lo a vários médicos inclusive no INCRA, sendo atendido pelo próprio diretor para darmos início ao seu tratamento com o maior empenho para sua recuperação mas foi sem sucesso. Celso tinha como pensamento que, se tinha que passar por isso ele iria escolher como morrer, tocou um dane-se, literalmente tentando fazer tratamentos alternativos mas se alimentando muito mal e fumando e bebendo sempre sem parar.

Uma vez fiquei zangado com ele e falei que estava cansado de ver ele definhando a se matando sem se tratar e ele puto comigo me explicou: “escolhi minha vida e escolho minha morte”. Agora, depois de perder o amigo, entendo sua explicação. Ele não queria morrer numa cama de hospital todo entubado e sem poder fazer nada do que gostava (beber, fumar e estar com os amigo ). É muito ruim achar que temos que mudar as pessoas mas ele tinha a sua razão e isso tenho que reconhecer, ele fez valer até o fim.

Nosso último momento juntos foi depois do grande evento Rio Jazz & Blues, em Rio das Ostras. Ao acabar fomos para Macaé, para o aniversário do MOTOCLUBE DE MACAÉ. Ele recebeu uma homenagem e fechou o show que seria realizado em novembro abrindo a apresentação do Nazareth.

A ultima musica que vi ele compor foi um hino para esse motoclube na própria pousada junto com Adriano (vice-presidente), Paulinho (diretor) e Edio (Diretor).

Estive em Cabo Frio na semana passada na casa do Marcelo Penedo que foi um grande manager e produtor do nosso amigo e estávamos falando sobre suas condições de não fazer mais shows e lamentávamos que seria o seu fim se ele não pudesse subir ao palco que sempre foi sua vida. Sua própria família pediu para o pouparmos, pois ele já estava sem condições e mesmo assim queria continuar tocando sempre.

Bom o que falar mais sobre esse cara a não ser agradecer a Deus por não deixá-lo sofrer no fim de tudo e ainda poder ter tido uma convivência com esse grande músico que com certeza está junto de Deus nos mandando a todos um BLUES ABRAÇO!!!!!!!!

Discografia

1984 – Som na Guitarra.
1986 – Marginal Blues
1987 – Celso Blues Boy 3
1988 – Blues Forever
1989 – Quando a noite cai
1991 – Ao vivo – Celso Blues Boy
1996 – Indiana Blues
1998 – Nuvens Negras Choram
1999 – Vagabundo errante
2008 – Quem foi que falou que acabou o rock n’ roll? (DVD ao vivo, Gravado no Circo Voador)
2011 – Por um monte de cerveja

Uma versão deste texto também foi publicado no jornal O Fluminense




Fotos: Divulgação