Kisses on the Bottom – A Crítica – ou Beijos, Paul McCartney

01/02/2012 1 Por Fernando de Oliveira



Kisses on the Bottom
(Universal), o novo disco de Paul McCartney, que será lançado na próxima segunda-feira (6 de fevereriro), é uma viagem ao passado musical afetivo de um dos maiores artistas da nossa época. O ex-beatle decidiu gravar músicas do cancioneiro norte-americano que costumava ouvir quando era criança e que o influenciaram a escrever algumas das melodias mais conhecidas dos últimos 50 anos.

Segundo Paul, várias dessas músicas eram tocadas por seu pai ao piano, durante encontros familiares ou festas de fim de ano, na fria Liverpool. Assim, muitas dessas composições trazem boas lembranças ao quase setentão Sir McCartney e podem servir para entender o processo de criação do mais versátil dos Fab Four.

Os últimos trabalhos de McCartney, os ótimos Chaos and Creation in the Backyard (2005), Memory Almost Full (2007) e Eletric Arguments (2008) – lançado sob o pseudônimo The Fireman – foram álbuns onde Paul esteve praticamente só, tocando todos os instrumentos na maioria das faixas, todas compostas por ele. Para este novo disco, McCartney decidiu, pela primeira vez na carreira, apenas cantar, deixando que os arranjos fossem executados por Diana Krall e sua banda. A escolha das canções foi feita em parceria com o produtor Tommy LiPuma, que já trabalhou com Miles Davis e Barbara Streisand, entre outros.

Segundo Macca, este era um projeto que ele sempre quis fazer, mas que sempre era adiado por conta do lançamento de algum trabalho similar produzido por outro artista – Rod Stewart e Robbie Willians fizeram projetos similares –, já que ele não queria parecer estar copiando alguém. Mas, fica difícil imaginar que um compositor capaz de criar canções de rock, heavy metal, punk rock, pop, country, dance, música clássica e muitas, muitas baladas, possa ter um trabalho seu chamado de cópia.

Clapton, Wonder e 2 inéditas

O disco traz 14 canções – há uma edição Deluxe, que pode ser comprada pelo site oficial do artista e que terá duas canções extras e material para download – sendo que duas delas são inéditas de McCartney (My Valentine e Only Our Hearts). Além de Krall e sua banda, o disco tem as participações ilustres de Eric Clapton (My Valentine e Get Yourself Another Fool) e Stevie Wonder (Only Our Hearts).

O violão de Clapton em My Valentine e a gaita de Wonder em Only Our Hearts – o primeiro encontro em estúdio entre Paul e Stevie desde a gravação de Ebony and Ivory, no início da década de 80 – podem ser considerados cerejas em um caprichado e delicioso bolo. As duas participações servem para comprovar que boa música tocada por bons músicos é sempre uma receita infalível.

O título do disco, tirado da letra da música que abre o álbum – I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter – se refere ao hábito de se mandar beijos no fim das cartas, aqueles textos que escrevíamos e eram enviados pelo correio. Uma inspiração simples e eficiente, como a maioria das ideias de McCartney, que geralmente utiliza elementos do cotidiano para criar as histórias de suas canções ou o conceito de seus discos. Ele faz isso com maestria desde o tempo de Penny Lane, Lovely Rita ou Maxwell’s Silver Hammer.

Neste novo disco, McCartney aproveita bem sua voz. Se a potência e extensão já não são as mesmas de décadas atrás, ele usa um estilo emprestado de artistas como Fred Astaire – mais contido – e que se adaptou muito bem aos arranjos das canções, passando calor e emoção na medida certa, nunca chegando sequer perto do meloso, do over e também distante do lado crooner usado pela quase totalidade dos cantores desse tipo de música.

Nem todas as canções do disco são grandes conhecidas do público, mas todas têm melodias que soam sofisticadas e familiares, não importa seu grau de popularidade. Os destaques ficam por conta de The Glory of Love, My Very Good Friend the Milkman, Bye Bye Blackbird e a inédita My Valentine. Em todas elas, o produtor Tommy LiPuma conseguiu criar um clima romântico com toques jazzísticos, que foge do tom ‘música de elevador’ que aflige boa parte desse tipo de trabalho.

Silly Love Songs

Deveria ser fácil entender que um artista com uma obra tão vasta quanto Paul tenha alguns momentos discutíveis em sua discografia. Felizmente, muitos dos seus discos guardam pérolas que são cantaroladas e apreciadas por gerações até os dias de hoje. Isso, sem contar com as canções dos Beatles.

Ram (1971), Band on the Run (1973), Venus and Mars (1975), Tug of War (1982), Flowers in the Dirty (1989), Chaos and Creation in the Backyard (2005) e Eletric Arguments (2008), além de um punhado de singles que chegaram ao topo das paradas, como o tema do filme de James Bond, Live and Let Die, ou a valsa Mull of Kintyre. São obras que qualquer pessoa que diga gostar de música deve conhecer. E, mesmo em suas obras menos inspiradas, é possível pinçar algo que agrade e cole nos ouvidos.

Kisses on the Bottom, o 15º disco da carreira solo de Paul (sem contar seu período com o Wings) provavelmente será lembrado como um dos trabalhos mais coesos e agradáveis já lançados pelo ex-beatle, embora seja difícil imaginar alguma das canções do disco fazendo parte da maratona musical de quase 3 horas de seus shows, o que pode atrapalhar um pouco as vendas, o que não deve ser nenhum problema para um dos homens mais ricos do Reino Unido.

Paul vai tocar na festa do Grammy (o Oscar da música) no próximo dia 12 – ele concorre na categoria Melhor Disco Histórico, pela edição especial de relançamento de Band on the Run – e grava um especial sobre o novo disco, que poderá ser baixado por aqueles que comprarem a edição Deluxe de Kisses on the Bottom.

Disco vai bem nas paradas

O grupo O Fluminense e a Universal Music vão sortear cópias do CD Kisses on the Bottom. Envie um e-mail com nome e endereço completos para leitor@ofluminense.com.br com o assunto “Promoção Paul McCartney“, respondendo a pergunta: Quais canções de Kisses on the Botton já foram gravadas por Ringo Starr e Eric Clapton em suas carreiras solo?, e aguarde o resultado do sorteio, no dia 6 de fevereiro.

Texto publicado originalmente no jornal O Fluminense