O Jubileu de Ouro dos Beach Boys

21/07/2012 0 Por Fernando de Oliveira

Não é só a rainha da Inglaterra quem comemora um jubileu importante neste 2012. Os Beach Boys, um dos mais importantes grupos da música pop mundial, completam 50 anos de carreira, lançam um novo disco – That’s Why God Made the Radio (EMI) – e fazem uma turnê para comemorar a data.

Formado originalmente pelos irmãos Brian, Carl e Dennis Wilson, o primo Mike Love e o amigo Al Jardine, os Beach Boys rivalizaram em talento e projeção com os Beatles durante meados dos anos 60, sempre liderados pelo talento de Brian, um dos mais geniais e atormentados compositores do século passado (e desse também). Primeiro, com canções que falavam de garotas, carros e ondas, embora somente um integrante do grupo soubesse nadar e surfar – Dennis, que ironicamente morreu afogado. Com isso, o grupo, sempre com harmonias vocais elaboradas, acabou se tornando sinônimo de surf music, com sucessos como Surfin’ USA, Surfin’ Safari, Hawaii, 409 e muitos outros.

Depois de todos os problemas, brigas, processos e mortes, os membros restantes do grupo – Brian, Mike, Al, Bruce Johnston (que entrou para a banda em 1965, quando Brian decidiu não mais fazer turnês) e David Marks – se reuniram para, provavelmente, um último esforço criativo, que terminasse o ciclo do grupo de maneira majestosa, como merece a sua obra.

That’s Why God Made the Radio é um disco que traz de volta os vocais angelicais, os carros, as ondas, as garotas de biquíni, as melodias intrincadas e algumas letras onde impera a agonia. Mas, acima de tudo, é um disco que recoloca o grupo no patamar de qualidade de seus melhores trabalhos. No mínimo, o novo disco é o melhor lançado desde Surf’s Up (1971).

Brigas

Como em toda família, as brigas também são uma marca registrada na história dos Beach Boys, principalmente entre Mike Love e Brian Wilson, pelo posto de líder da banda e pelo controle artístico do grupo. Mike sempre mais comercial enquanto Brian se colocava (mesmo que sem querer) na condição de gênio louco.

Por coincidência, o trabalho anterior dos Beach Boys foi lançado pouco depois da visita de Mike, Al, Bruce e Carl ao Rio, na época da Eco 92. Summer in Paradise foi um disco capitaneado por Mike Love, cheio de baterias eletrônicas e canções que tentavam ser ensolaradas, mas que pecavam pela falta de inspiração e pelo excesso de sons eletrônicos. That’s Why God Made the Radio veio para colocar as coisas em seu devido lugar.

Entretanto, rumores de que Mike Love – que detém os direitos sobre o nome Beach Boys – estaria negociando shows com sua banda cover (onde o único outro membro original é Bruce Johnston) na América do Sul, causaram mal estar entre os outros integrantes (em especial Brian) e podem até ofuscar um pouco do brilho da volta da banda, causando novas brigas.

Pet Sounds x Sgt. Pepper’s

Quem acha que Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band é o disco mais importante da história do rock deve procurar ouvir Pet Sounds (1966), disco que inspirou os Beatles a experimentar e serviu como modelo a ser superado por Lennon, McCartney & Cia. Em Pet Sounds os Beach Boys deixaram de lado a surf music para criar sons, texturas, melodias e harmonias que emocionam até hoje, apesar de, na época do seu lançamento, não ter agradado muito o público americano e os executivos da Capitol, gravadora da banda. No disco está, por exemplo, a canção God Only Knows, que, segundo Paul McCartney é a sua composição favorita.

Pet Sounds é o divisor de águas na carreira dos rapazes da praia, que apesar de alguns ótimos momentos nos anos seguintes, nunca mais conseguiram repetir o êxito e coesão criativa alcançados com ele, muito por causa da instabilidade mental de Brian.

Perdendo o foco

Brian Wilson sempre foi uma figura singular. Com um pai severo e controlador, o jovem Brian conviveu desde cedo com a pressão de tornar a banda em um sucesso. Em 1965, ele decidiu parar de fazer turnês para poder se concentrar na composição, produção e gravação das canções que fariam parte dos álbuns do grupo.

Porém, após o relativo sucesso de Pet Sounds e a audição do disco Revolver, dos Beatles, Brian decidiu que iria produzir o melhor álbum de todos os tempos. Porém, alguns problemas viriam a impedir Brian: o crescente uso de drogas, a pressão da gravadora e dos membros do grupo pelo lançamento do disco (que iria se chamar Smile) e um surto depressivo de Brian após ouvir Sgt. Pepper’s, que o fez desistir do projeto e até mesmo queimar as fitas com algumas das gravações já feitas.  Com isso, as canções de Smile foram sendo espalhadas por vários discos dos Beach Boys, até que em 2004 Brian resolveu terminar o projeto, compondo e recuperando algumas das canções perdidas. Mais recentemente os tapes originais de Smile foram lançados em vários formatos (inclusive um box com cinco CDs, um vinil duplo, dois compactos e um livro, com o título de The Smile Sessions, acabando com o mito do melhor disco não lançado de todos os tempos.

A depressão de Brian e o sua deterioração mental fizeram com que ele vivesse recluso, deitado em uma cama de areia durante anos. Brian chegou a ser demitido dos Beach Boys e para a sua volta (em meado dos anos 70) um professor foi contratado para ‘ensinar’ a ele as canções que ele havia composto.

Brian só voltou a produzir de verdade a partir de 1988, quando lançou seu primeiro disco solo. A partir dai, passou a lançar álbuns com freqüência e até voltou a fazer turnês – chegou a tocar no Brasil – no finado Tim Festival de 2004 -, sempre com um ar meio perdido e ainda assustado por vozes que vez ou outra diziam que iriam matá-lo.

That’s Why God Made the Radio

Primeiro disco de inéditas desde Summer in Paradise (1992) e o primeiro com a participação de Brian Wilson desde Still Cruisin’ (1989) e também o primeiro lançamento da banda após a morte de Carl Wilson (em 1998). O projeto, que causou grandes expectativas desde que foi anunciado, mostrou-se um sucesso tanto artístico quanto comercial (chegou ao 3º lugar na parada americana).

O disco, que foi precedido de uma nova gravação de Do it Again (faixa bônus na edição japonesa do disco) foi produzido por Brian, que também compôs a maior parte das músicas do álbum, That’s Why God Made the Radio, o disco tem todos os ingredientes de um clássico dos Beach Boys: letras falando sobre garotas, ondas e amores, vocais criativos e intrincados e até mesmo uma boa dose de humor, em momentos que o grupo brinca com o fato de estarem voltando, como na letra de Spring Vacation.

Spring Vacation
Good vibrations
Summer
We’re back together
Easy money, ain’t life funny

O disco começa com Think About The Days, que lembra um canto religioso, com inspiração em faixas como Our Prayer (do álbum Smile) e One For The Boys (do primeiro disco solo de Brian Wilson) onde as vozes de Brian, Al, Bruce voltam a se encaixar como nos velhos tempos, com a luxuosa ajuda de Jeff Foskett, hoje o responsável pelos falsetos que eram a marca registrada do jovem Brian, hoje um senhor de 70 anos.

A faixa-título, e primeira música de trabalho do disco, têm um sabor de novidade com um som totalmente característico do melhor dos Garotos da Praia. Não surpreende que ela tenha sido escrita em 1988. Na verdade, é uma música atemporal, que traz a alegria das canções ensolaradas do início da década de 60. Esse clima se repete em Beaches in Mind e Daybreak Over the Ocean, canções onde Mike Love parece assumir o comando.

Mas é mesmo Brian a principal força do disco. Com composições densas, harmonias mais elaboradas e muitos ecos do Summer of Love. O ponto alto talvez seja mesmo Summer’s Gone, que segundo Wilson, foi composta para ser a última música do último disco dos Beach Boys (será?).

Summer’s gone
It’s finally sinking in
One day begins
Another ends
I live them all and back again

That’s Why God Made the Radio traz aos fãs um disco que resgata o som que tornou a banda um ícone do rock. Se a produção a partir de meados dos anos 70 foi sempre inconsistente, pendendo para o fraco, o novo disco confirma que, bem produzidos, com os egos e mágoas deixados de lado, mesmo que apenas por algum tempo, os Beach Boys continuam relevantes e infinitamente mais afinados que a maioria dos jovens grupos em atividade.


Uma versão editada deste texto foi publicado no jornal O Fluminense

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