Paixão pela viola resgata o melhor do Boca Livre

Paixão pela viola resgata o melhor do Boca Livre

08/07/2019 0 Por Fernando de Oliveira

Álbum Viola de Bem Querer, que será lançado nesta terça-feira (9), no Rio de Janeiro, está entre os melhores trabalhos dos 40 anos de vida do Boca Livre

A viola sempre esteve ligada ao Boca Livre. Mesmo sendo um grupo vocal, o instrumento faz parte de muitas letras e tem destaque em todos os arranjos gravados pela banda. Viola de Bem Querer, o 13º álbum do grupo comemora os mais de 40 anos de carreira e mostra que ainda há esperança para a MPB.

— Eu devia ganhar mais que o Zé, o Lourenço e o Mauricio (os outros integrantes do Boca Livre). Afinal, sou eu quem toca a viola e ainda por cima ela tem mais cordas que os instrumentos dos outros. Mas eles não aceitam isso — brinca David Tygel, o homem que, literalmente, tem a viola.

Boca Livre

Volta em grande estilo

Depois de seis anos sem um álbum de estúdio (o último registro foi no bom Amizade (2013) o Boca Livre — David Tygel (voz e viola de 10), Lourenço Baeta (voz, violão e flauta), Mauricio Maestro (voz e baixo) e Zé Renato (voz e violão) — retorna com um trabalho de altíssima qualidade, que remete aos melhores discos da sua carreira.

As semelhanças entre o novo trabalho e (principalmente) os dois primeiros álbuns — Boca Livre (1979) e Bicicleta (1980) são muitas. Desde o acerto na escolha do repertório até o enxuto número de faixas, que não dá espaço para exageros desnecessários.

— Fizemos um processo semelhante ao do primeiro disco. Antes de gravar a gente cantava as músicas nos shows e ensaios. Várias canções desse disco foram executadas em shows que fizemos nos últimos dois anos — explica Zé Renato, a voz mais aguda do grupo.

Viola de Bem Querer

Na viola eu carrego o mar
No meu bem querer
Na viola eu engano a dor
Pra ninguém sofrer
Na “querênça” ou na solidão
Eu pego na viola
Só sei tocar, nem sei porquê

Na viola é que eu trago a paz
E deixo à mercê
Na viola é que eu rezo à Deus
Por quem já não ter
Na alegria ou na ilusão
eu pego na viola
E canto o amor
Que nem se vê
O amor jamais morrer

Quando o amor me vem
Da viola eu sei guardar
Quando o amor se vai
Da viola eu sei chamar
Não fico só
Tem sempre alguém n´algum lugar
Com a viola
O amor eu vou buscar

Sem ninguém, não sei mais
como é ficar
Porque a viola sempre um novo
amor me dá
Porém se um dia o amor findar
Sei que a viola vai
Me acompanhar
Não vai faltar

Na viola é que eu trago a paz
E deixo à mercê
Na viola é que eu rezo à Deus
Por quem já não ter
Na alegria ou na ilusão
eu pego na viola
E canto o amor
Que nem se vê
O amor jamais morrer

A viola toca fundo na alma

Todo brasileiro que conhece um pouco da obra do Boca Livre (re)conhece sucessos como Quem Tem a Viola e Toada, onde, além dos belos vocais, o instrumento reina nos arranjos. Apesar de, segundo seus membros, o tema não ter sido escolhido conscientemente, fica evidente o seu destaque no novo trabalho.

— Falar sobre a viola foi algo que aconteceu naturalmente. Começou com a comemoração dos 40 anos de carreira, no ano passado, e quando tocamos a Viola de Bem Querer (Paulo Cesar Pinheiro e Breno Ruiz), começamos a achar que essa palavra, a viola, tem muita importância na trajetória do Boca Livre. Ela simboliza a sonoridade acústica, além de estar presente em várias das nossas músicas — revela Zé Renato.

O instrumento e mesmo o protagonista e brilha em canções como Santa Marina e Um Violeiro Toca, para citar apenas duas.

— Toco a viola de dez cordas com uma afinação diferente, para que ela converse melhor com os outros instrumentos, mas sem perder a sua sonoridade característica. A viola não é um instrumento fácil, mas a sua personalidade é parte importante do nosso som — diz David, sobre a sua companheira de palco.

Boca Livre

Destaques

São muitos os destaques de Viola de Bem Querer. O cuidado na escolha das nove canções que fazem parte do trabalho dá poucas chances para críticas que não sejam positivas. Claro que há momentos que tocam mais uns do que outros, mas isso fica por conta do gosto pessoal de cada um.

Há samba, cantiga e até algum toque caipira, mas nunca perdendo a identidade que fez do Boca Livre um dos maiores grupos vocais da história da nossa música. E, desse novo trabalho, já são candidatos a clássicos números como a faixa-título, Noite e a releitura da belíssima Amor de Índio.

Um instrumental para abrir a boca

Outro ponto que destaca o som do Boca Livre é o gosto por temas instrumentais. Nesse novo trabalho, a canção O Paciente (David Tygel), que fez parte da trilha sonora do filme de mesmo nome — que conta o drama dos últimos dias de vida do presidente eleito Tancredo Neves.

Nem todos os grupos vocais tem a coragem de imprimir a sua identidade em canções instrumentais, sejam elas originais ou apenas releituras de alguma música conhecida.

Muitos resgates

Como disse, Viola de Bem Querer está entre os melhores trabalhos do quarteto carioca. Ele perde um pouco apenas por conta do grande número de canções resgatadas de outros projetos.

A já citada Noite, parceria de Zé Renato e Joyce, um dos destaques do álbum, foi lançada ano passado no (também) ótimo disco solo de Zé Renato, Bebedouro. Outro resgate que merece destaque é o da canção Santa Marina (Lourenço Baeta e Cacaso), que foi lançada em 1979, no disco solo do vocalista.

Claro que a canção-título, de autoria de Breno Ruiz e Paulo Cesar Pinheiro, e Amor de Índio fazem parte de um rol de clássicos que devem acompanhar o grupo pelo resto de sua carreira, mas fica a sensação de que falta um pouco de novidades nesse trabalho.

Só por isso o lançamento não recebe a nota máxima, mas chega bem perto.

Cotação ****½

Lançamento e bate-papo no Rio

Viola de Bem Querer será lançado no Rio de Janeiro nesta terça-feira (9) com um bate-papo entre os integrantes do grupo e o jornalista Hugo Sukman, seguido de uma sessão de autógrafos.

O evento acontece na Blooks Livraria, no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, na Zona Sul. Um programão para quem estiver na cidade.

— Estamos em uma fase muito boa. Fazemos workshops nas cidades onde fazemos shows e, normalmente, cantamos Ponta de Areia, que acreditem, ainda é cantada no mesmo tom que gravamos décadas atrás. É uma coisa sem explicação, já que eu, pelo menos, sou indisciplinado e cuido pouco da voz — confessa o violeiro Tygel.

Caixa que não sai

Enquanto os fãs podem deliciar o novo trabalho, fica um vazio para quem gosta da música do Boca Livre. Vários de seus discos estão fora de catálogo, até mesmo nas plataformas digitais.

Há rumores sobre uma caixa com toda (ou quase toda) a discografia do quarteto totalmente remasterizada. Mas, por enquanto, parece que a coisa anda meio empacada.

— O nosso interesse em lançar uma caixa com o trabalho do Boca Livre é enorme, mas a gente esbarra nas burocracias (de gravadoras) que dificultam o projeto. Como os fonogramas não são nossos, um projeto desses não dependem apenas da nossa vontade. Não é uma coisa fácil — conta Zé Renato.

Que a burocracia seja vencida logo.

Fotos: Léo Aversa