‘Tolkien’ prova que hobbits são melhores que humanos

‘Tolkien’ prova que hobbits são melhores que humanos

20/05/2019 0 Por Débora Thomé

O longa ‘Tolkien’, que mostra um pouco da vida do filólogo e escritor britânico homônimo, entra em cartaz no Brasil no dia 23 de maio

Você não precisa ser fã do “Senhor dos Anéis” para apreciar o longa “Tolkien”, de Dome Karukoski, mas precisa ser fã de J.R.R. Tolkien, o autor, professor e filólogo britânico, para sair feliz do cinema.

Mais ainda, precisa ter lido os livros de Tolkien e ser familiarizado com sua cadência poética de contar histórias — mais ou menos o mesmo ritmo seguido pela narrativa do cinema britânico, de uma forma geral — para compreender a
cinebiografia do “pai” dos hobbits.

A cinebiografia alterna entre dois períodos críticos da vida de Tolkien. A narrativa “contemporânea” ocorre durante o serviço do autor na Primeira Guerra Mundial. Os flashbacks contam sua infância e adolescência — altos e baixos de uma vida que informaria a ficção.

O longa revela a influência de sua mãe (Laura Donnelly), a vida no abrigo para órfãos, onde Tolkien (Nicholas Hoult) conhece Edith Bratt (Lily Collins), que seria o amor de sua vida, e a amizade duradoura com um trio de colegas de
classe no colégio.

Edith e Tolkien

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No geral, “Tolkien” é bem escrito, bem executado e, para os fãs de J.R.R. Tolkien, é um tributo
precioso e digno.

Empregar efeitos especiais também serve para lembrar ao público que está assistindo à cinebiografia de um autor de fantasia. Nesse sentido, o filme oferece dicas — às vezes apenas sombras — que melhoram a história sem distrair dela. E as cenas que acontecem na dura realidade da Primeira Guerra Mundial são sutis e, a mesmo tempo, assombrosas.

Um homem marcado pelo horror da guerra

No filme “Tolkien”, a guerra é morte — e às vezes Mordor. Nuvens de gás mostarda que se acumulam nas trincheiras na Batalha do Somme, na 1ª Guerra Mundial, tornam-se a fumaça do fogo do dragão. Soldados alemães com lança-chamas se transformam no próprio dragão.

Um jovem James Ronald Reuel Tolkien cambaleia pela ruína escura e sem árvores da terra de ninguém. Como Frodo um dia cambalearia em direção ao Monte Doom. Enquanto os homens à sua volta gritam, Tolkien vê um cavaleiro negro em um cavalo negro varrendo o campo de batalha, parando para espetar os já agonizantes.

Muitas resenhas sobre “Tolkien” criticam esses momentos — pontes para fãs do Senhor dos Anéis que se estendem entre a Terra-média e a vida e a mente do homem que a construiu. As justificativas é que essas alusões ilusórias são pegajosas e exageradas. Pode até ser — mas esperar o realismo perfeito da mente febril de um homem deitado em
um pequeno lago de sangue de outras pessoas também parece irrealista.

Tolkien

O diretor Dome Karukoski afirmou, em entrevistas, que tentou guiar seu trabalho pela sua leitura de Tolkien. O autor sentiu que devia suas paisagens — os pântanos mortos, o Portão Negro de Mordor — ao Somme. Como criticar se, na morte, Tolkien foi ainda mais explícito nessa conexão entre sua arte e vida? As lápides de sua esposa e de sua própria
estão inscritas com os nomes de dois de seus personagens fictícios.

Uma cinebiografia de fã para fã, enfim 

Dito isso, a maioria das referências de Karukoski em Tolkien se tornam incrivelmente atmosféricas. Desde cenas do campo inglês, que muito lembram a vila Hobbit, até as sequências mais explícitas,em plena guerra.

“Ele é um jovem ainda encontrando sua voz e confrontando sua própria imaginação. Ele está construindo seu mundo neste momento. Nada está terminado”, declarou Karukoski.

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“Tolkien” vira muito mais Tolkien quando sua mente se torna fantástica. A interação entre ficção e realidade, fantasia e dissociação. Essas são as partes que faziam sentido para os fãs do escritor — olhar para um mundo arruinado e, em
vez de se tornar niilista, ver esse momento refletido nas grandes rodas metafóricas da história e do mito.

Porque o legado de Tolkien não são seus livros. Mas tudo o que veio depois deles: Harry Potter, World of Warcraft, Game of Thrones, Marillion e Led Zeppelin — há algumas passagens dos livros de Tolkien nas canções “Ramble On”, “Misty Mountain Hop” e “The Battle of Evermore”.

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