A volta de Kid Morengueira

31/03/2012 0 Por Fernando de Oliveira

Tive o prazer de assistir vários shows de Moreira da Silva, já bem velhinho, nos Seis e Meia da vida. O homem era uma figura, representava um ritmo único e encarnava um personagem super simpático. Saudades.

Antônio Moreira da Silva (1902-2000), o Moreira da Silva, o Kid Morengueira, o Malandro, o ícone do samba de breque, que completaria 110 anos no próximo dia 1° de abril, está sendo relembrado com o relançamento dos seus primeiros oito discos – lançados entre 1958 e 1966 – em duas caixas de quatro CDs cada (O Último Malandro e O Tal Malandro), pelo selo carioca Discobertas.

Os relançamentos servem para entender melhor a obra desse malandro, que com seu humor afiado criou alguns dos sambas mais irreverentes já gravados. Mas, ao contrário do personagem que criou, Moreira era reconhecido pela sua incansável capacidade de trabalho. Filho de um músico da Polícia Militar, morto quando Moreira tinha apenas dois anos, o jovem Morengueira teve uma infância difícil, ajudando a mãe a sustentar a casa. Chegou a ser motorista de ambulância antes de entrar de cabeça na música.

“Ele sempre me dizia: fui tudo menos malandro, porque trabalho. Sou um malandro do bem”, relata o historiador Ricardo Cravo Albin, responsável pelo Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira e amigo do sambista. A carreira começou ainda na década de 1920, como cantor romântico e de seresta. Foi só na década seguinte que iniciou sua escalada no mundo do samba e apenas em 1937 deu início ao hábito de incluir frases faladas no meio dos sambas. O famoso breque. “O Moreira era um grande intérprete. A formação dele era a escola do Orlando Silva e Nelson Gonçalves. Quando ele queria e mostrar, cantava com a voz de tenor, voz de seresteiro. Depois, o samba de breque acabou se tornando a sua marca. Hoje, quando se canta um samba de breque, se vê logo a cara do Moreira. Ele brincava que esse negócio de hip hop ele já fazia desde os anos 1930”, conta o músico e parceiro Jards Macalé, com quem dividiu os palcos por mais de 30 anos.

Macalé, que conheceu Kid Morengueira em 1976, quando foi convidado para fazer um show com ele pelo finado Projeto Seis e Meia, que juntava dois artistas para shows na hora do rush, disse que a afinidade apareceu desde o primeiro momento.

“Foi empatia direto. No começo ele ficou desconfiado, já que a imagem que tinha de mim era daquele cara barbudo e meio hippie. Mas, nessa época eu já estava encarnando um outro personagem mais normal, eu mesmo. Então fomos apresentados, começamos a ensaiar e nossa dupla durou até 1999 (um ano antes da sua morte), que foi quando fizemos nosso último show”, explica Macalé.

“Na subida do morro me contaram
Que você bateu na minha nêga
Isso não é direito
Bater numa mulher”
Na Subida do Morro (Moreira da Silva / Ribeiro Cunha)

Genial na sua persona sambista, Moreira da Silva pregava o bem. Não aceitava calote e sempre dava um jeito de incluir uma expressão em inglês, francês ou qualquer outro idioma, assim como se tornava personagem de um bang-bang, de lutas contra espiões estrangeiros, sempre na luta entre malandros e otários.

Durante sua longa carreira, Moreira emplacou uma série de sucessos que são conhecidos por qualquer um que goste de samba ou tenha mais de 40 anos. BI, são exemplos do humor cinematográfico e cheio de esperteza de Moreira, que tanto podia defender os fracos e oprimidos como poderia eliminar quem mexesse com a sua nêga ou roubar um otário que chegasse do interior.

“Eu o descrevi para ele mesmo: Você é um personagem fantástico. Você não é malandro, mas malandramente viveu o personagem de um malandro que não era malandro. Vai se malandro assim lá na…” – Jards Macalé

Mas o sambista também sabia usar uma certa dose de malandragem.

“Quando ele não queria fazer alguma coisa, o Morengueira virava um velhinho frágil e todo mundo corria para ajudá-lo. Quando queria algo, virava um adolescente cheio de energia”, conta Macalé.

O sambista sempre sofreu com um certo descaso das gravadoras. Apesar de ter algumas poucas coletâneas sendo lançadas de tempos em tempos, nos anos 80, Moreira foi obrigado a regravar muitas de suas canções mais conhecidas para que seu público pudesse relembrar seus breques e, claro, colocar alguns tostões no bolso.

Somente agora, em 2012, sua discografia começa a ser redescoberta. Mas, o que leva uma gravadora a resgatar a obra de um artista que praticamente está fora do mercado há décadas?

“Longevidade, conteúdo, e um certo abandono. O Compact Disc existe há mais de 25 anos e o mercado de reedições esqueceu muitas discografias preciosas. Estamos trabalhando para corrigir isso. Basicamente reedito os discos que compraria se reeditassem”, explica Marcelo Fróes, dono do selo Discobertas e produtor executivo dos relançamentos.

Infelizmente, são poucos os registros de shows de Moreira. Ele nunca gravou um DVD ou disco ao vivo e pode, com sorte, ser visto fazendo participações. Uma rara exceção é o curta metragem Moreira da Silva, de 1973, dirigido por Ivan Cardoso, e que mostra Morengueira interpretando / dublando alguns de seus sucessos em paisagens bem cariocas como o Pão de Açúcar, o Hipódromo da Gávea e outros pontos de um Rio bem diferente dos dias de hoje (assista ao filme clicando aqui).

Moreira da Silva não deixou a música, apenas deu um breque que, assim como seus sambas, volta e meia são lembrados e cantados por alguém que ande pelo centro do Rio ou por qualquer lugar onde exista um malandro.

Moreira em versões De luxe

As caixas O Último Malandro – que reúne os discos “O Último Malandro”(1958)“A Volta do Malandro” (1959)“Malandro em Sinuca” (1961) e“Malandro Diferente” (1961) – e O Tal Malandro – que traz “O Tal Malandro” (1962)“O Último dos Moicanos” (1963), “Morengueira 64” (1964) e “Conversa de Botequim” (1966) – são o tipo de projeto que nos faz lembrar o quão rica é a MPB.

Os discos – os oito primeiros 12” gravados por Morengueira – foram remasterizados a partir das fitas originais e dão nova vida aos fonogramas – a maioria deles com pouco mais de 2 minutos de duração – onde Moreira da Silva, desfila seu estilo inconfundível, até mesmo quando faz homenagens a grandes compositores, como Noel Rosa.

A quantidade de sambas conhecidos e que arrancos risos por suas letras e temas inusitados é enorme. Moreira, além dos improvisos nos breques, também adorava criar historinhas que se encaixariam muito bem em um script cinematográfico, algumas vezes merecendo até continuações (O Rei do GatilhoO Último dos Moicanos, por exemplo), onde os protagonistas voltavam em novas aventuras.

Impressiona saber que o mais complicado em recuperar esses títulos não foi uma possível má qualidade das fitas máster e sim problemas burocráticos.

“As fitas estavam muito bem conservadas e foi fácil fazer a remasterização. Localizar as editoras musicais responsáveis pelas canções foi mais difícil, já que se trata de um repertório muito antigo – da época em que os compositores muitas vezes não editavam suas obras, apenas autorizavam diretamente as gravadoras”, diz Marcelo Fróes, responsável pelo projeto.

Os discos, que vêm com seus encartes e notas originais, ainda foram engordados com faixas extras lançadas em compactos ou retiradas de participações em outros discos, tornando-os ainda mais atraentes, um verdadeiro raio-x do samba de breque, mas um raio-x que ainda não é definitivo.

“Os 78 rpm de Moreira começaram em 1931. Já estou preparando a reedição do disco da Continental de 1970 e, para o ano que vem, possivelmente reeditaremos as gravações dos anos 50 – anteriores à contratação pela Odeon. Também estamos com o penúltimo disco dele pra reeditar. Enfim, aos poucos pretendo completar o quebra-cabeças”, promete Fróes.

Alguns depoimentos sobre Moreira

“Moreira da Silva foi genial no improviso, na graça carioca da “persona” que ele incorporou, o malandro do Rio – logo ele, um cidadão exemplar, honesto e honrado, cuja alma era lírica e seresteira como a de um passarinho. A tal ponto que a última vez que o vi, já no leito de morte, ele me tomou a mão e, aflitíssimo, pediu que o ajudasse a levantar fundos para quitar as despesas da clínica particular onde estava internado. Aliás, graças a Emilinha Borba, ele se internaria logo depois no Hospital dos Servidores, a custo zero. O que fez cessar a sua ansiedade de homem probo, o único malandro do mundo que não admitia calote” – Ricardo Cravo Albin.

“ Ele tinha um humor extraordinário. Para cada situação ele tinha uma tirada” –Jards Macalé.

Os relançamentos servem para entender melhor a obra desse malandro, que com seu humor afiado criou alguns dos sambas mais irreverentes já gravados. Mas, ao contrário do personagem que criou, Moreira era reconhecido pela sua incansável capacidade de trabalho. Filho de um músico da Polícia Militar, morto quando Moreira tinha apenas dois anos, o jovem Morengueira teve uma infância difícil, ajudando a mãe a sustentar a casa. Chegou a ser motorista de ambulância antes de entrar de cabeça na música.

“Ele sempre me dizia: fui tudo menos malandro, porque trabalho. Sou um malandro do bem”, relata o historiador Ricardo Cravo Albin, responsável peloDicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira e amigo do sambista. A carreira começou ainda na década de 1920, como cantor romântico e de seresta. Foi só na década seguinte que iniciou sua escalada no mundo do samba e apenas em 1937 deu início ao hábito de incluir frases faladas no meio dos sambas. O famoso breque. “O Moreira era um grande intérprete. A formação dele era a escola do Orlando Silva e Nelson Gonçalves. Quando ele queria e mostrar, cantava com a voz de tenor, voz de seresteiro. Depois, o samba de breque acabou se tornando a sua marca. Hoje, quando se canta um samba de breque, se vê logo a cara do Moreira. Ele brincava que esse negócio de hip hop ele já fazia desde os anos 1930”, conta o músico e parceiro Jards Macalé, com quem dividiu os palcos por mais de 30 anos.

Letras selecionadas

Amigo Urso (Henrique Gonçalves)
Amigo urso, saudação polar
Ao leres esta hás de te lembrar
Daquela grana que eu te emprestei
Quando estavas mal de vida e nunca te cobrei.
Hoje estás bem e eu me encontro em apuros,
Espero receber e pode ser sem juros.
Este é o motivo pelo qual lhe escrevi,
Agora quero que saibas como me lembrei de ti.
Conjecturando sobre a minha sorte,
Tranportei-me em pensamentos ao Pólo Norte,
E lá chegando sobre aquelas regiões,
Vai vendo só quais as minhas condições:
Morto de fome, de frio e sem abrigo
Sem encontrar em meu caminho um só amigo,
Eis que de repente vi surgir na minha frente,
Um grande urso, apavorado me senti.
E ao vê-lo caminhando sobre o gelo,
Porque não dizê-lo, foi que me lembrei de ti.
Espero que mandes pelo portador,
O que não é nenhum favor,
Estou te cobrando o que é meu.
Sem mais, queiras aceitar um forte amplexo
Deste que muito te favoreceu:
Eu não sou filho de judeu,
Dá cá o meu.

Acertei no milhar! (Wílson Batista e Geraldo Pereira)
Ganhei quinhentos contos (milhas), não vou mais trabalhar
você dê toda roupa velha aos pobres
e a mobília podemos quebrar
(breque)
“Isso é pra já, vamos quebrar. Pam, pam, bum, etc…”
Etelvina vai ter outra lua-de-mel
você vai ser madame
vai morar num grande hotel
eu vou comprar um nome não sei onde
de Marquês Morengueira de Visconde
um professor de francês mon amour
eu vou mudar seu nome pra Madame Pompadour
Até que enfim agora sou feliz
vou passear a Europa toda até Paris
e nossos filhos, oh, que inferno
eu vou pô-los num colégio interno
me telefone pro Mané do armazém
porque não quero ficar devendo nada a ninguém
e vou comprar um avião azul
para percorrer a América do Sul
mas de repente, derrepenguente
Etelvina me acordou está na hora do batente
mas de repente, derrepenguente
– Se acorda, vargulino! Saia pela porta de trás que na frente tem gente.
Foi um sonho, minha gente!
Na subida do morro
 

Na Subida do Morro Me Contaram (Moreira da Silva e Ribeiro Cunha)
Que você bateu na minha nêga
Isso não é direito
Bater numa mulher
Que não é sua
Deixou a nêga quase nua
No meio da rua
A nêga quase que virou presunto
Eu não gostei daquele assunto
Hoje venho resolvido
Vou lhe mandar para a cidade
De pé junto
Vou lhe tornar em um defunto
Você mesmo sabe
Que eu já fui um malandro malvado
Somente estou regenerado
Cheio de malícia
Dei trabalho à polícia
Prá cachorro
Dei até no dono do morro
Mas nunca abusei
De uma mulher
Que fosse de um amigo
Agora me zanguei consigo
Hoje venho animado
A lhe deixar todo cortado
Vou dar-lhe um castigo
Meto-lhe o aço no abdômen
E tiro fora o seu umbigo
Aí meti-lhe o aço, quando ele vinha caindo disse,
– ‘Morengueira, você me feriu”,
Eu então disse-lhe:
– ‘É claro, você me desrespeitou, mexeu com a minha nega’.
Você sabe que em casa de vagabundo, malandro não pede emprego. Como é que você vem com xavecada, está armado? Eu quero é ver gordura que a banha está cara!
Aí meti a mão lá na duana, na peixeira, é porque eu sou de Pernambuco, cidade pequena, porém decente, peguei o Vargolino pelo abdome, desci pelo duodeno, vesícula biliar e fiz-lhe uma tubagem; ele caiu, bum!, todo ensangüentado.
E as senhoras, como sempre, nervosas:
– “Meu Deus, esse homem morre, Moço! Coitado, olha aí, está se esvaindo em sangue’
– ‘Ora, minha senhora, dê-lhe óleo acanforado, penicilina, estreptomicina crebiosa, engrazida e até vacina Salk’
Mas o homem já estava frio. Agora, o malandro que é malandro não denuncia o outro, espera para tirar a forra.
Então diz o malandro:
Vocês não se afobem
Que o homem dessa vez
Não vai morrer
Se ele voltar dou prá valer
Vocês botem terra nesse sangue
Não é guerra, é brincadeira
Vou desguiando na carreira
A justa já vem
E vocês digam
Que estou me aprontando
Enquanto eu vou me desguiando
Vocês vão ao distrito
Ao delerusca se desculpando
Foi um malandro apaixonado
Que acabou se suicidando.

Chang-Lang (Moreira da Silva e Ribeiro Cunha)
Eu fui ao restaurante chinês, e peguei o gordurame, sem ter o
arame.
E disse ao China, “prá semana pagarei” – O Chang-Lang se queimou comigo
sem ter razão.
É, na durindana disse: “Aqui não é pensão, se você quer comer de
graça, você tem que trabalhar.
Ou deixe em depósito seu chapéu de palha. Vá se embora por
favor, que eu não sou seu pai”
Na alta roda de malandros sempre fui considerado, um
batuqueiro respeitado.
Me queimei com a ignorância do chinês, dei-lhe uma fritada prá
servir de lição.
E disse: “Chang, se agüenta. Vá por mim que eu sou direito.
Se eu me agarro com você derrubo todas prateleiras. ‘Time is
money’ quer dizer
Tempo é dinheiro, o velho tempo é grana e eu estou na durindana.
Eu pago a conta prá semana. Agüenta aí”.
Dificilmente o malandro perde o controle. Eu disse: “Está bem,
vou pagar”,
Meti a mão lá na aduana. Mas ao invés de grana puxei da minha
navalha.
Tomei o meu chapéu de palha prá poder me desguiar
“Mas Chang, o que é que há? Tá desconfiando do seu camarada?
Se eu me agarro com você derrubo todas prateleiras. ‘Time is
money’ quer dizer
Tempo é dinheiro, o velho tempo é grana e eu estou na durindana.
Eu pago a conta prá semana. Agüenta aí”Dificilmente o malandro perde o controle.
Eu disse: “Está bem, vou pagar”,
Meti a mão lá na aduana. Mas ao invés de grana puxei da minha navalha.
Tomei o meu chapéu de palha prá poder me desguiar
E disse: “O Chang, o que é que há? Eu conheço a tua terra, hein?
‘Time is money’ quer dizer tempo é dinheiro, o velho tempo é grana e eu estou na durindana.
Eu pago a conta prá semana” – Neca.

Fui a Paris (Moreira da Silva e Ribeiro Cunha)
Bonsoir madame mademoiselle
Monsier, Je vais vous chanter
Un sambé en français parce que
Je suis poligloté, n’est-ce pas?
Eu fui a França e conheci Paris
Cantei um samba e me pediram bis
Logo depois que o samba estava terminado
Uma linda francesinha chegou-se para o meu lado
E foi dizendo tudo que sentia
Mas eu não compreendia, pois não sabia o francês
Daí então ela ficou desanimada
E a minha ilusão naquela noite se desfez
Tive a lembrança de comprar um dicionário
Para não bancar o otário e me defender
Pois a francesa era linda de verdade
E eu tinha a necessidade de compreender
No dia seguinte quando a encontrei
Um “bonsoir” eu logo lhe falei
E gentilmente ela respondeu
Comment ça va mon amour, comment ça va?
Daí então eu disse tudo que aprendi
Inclusive très bien, mon amour, très jolie
E a francesa, cheia de contentamento
Falou-me em casamento e muito insistiu
Mas eu que tenho o meu amor
No Rio de Janeiro disse a ela:
Jamais mademoiselle, jamais
Qui nous pensez n’a pas d’argent
Je ne sais parce que je t’aime
Mon amour, quelle heure est’il?
Eu vou é pro Brasil

O Rei do Gatilho (Miguel Gustavo)
“O rei do gatilho…Super bang-bang de Michael Gustav,com Kid Morengueira,o mais temido pistoleiro de Wichitta.Temido pelos bandidos pois só atirava em nome da lei…”
O Rei do gatilho!
“Começa o filme com o garoto me entregando
Um telegrama do arizona, onde um bandido de lascar
Um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona
E não deixava nem defunto descansar.
Pedia urgente que eu seguisse em seu socorro
A diligencia do oeste neste dia ia levar
Vinte mil dólares do rancho Águia de Prata
Onde a mocinha costumava me encontrar
(breque)
” Venha urgente, pois estou morta de medo. Só tú poderás salvar-nos.
Beijos da tua mary.”
Botei na cinta dois revólveres que atiram
Sem que eu precise nem ao menos me coçar
Assobiei para um cavalo que passava do outro lado
E com o bandido mascarado fui lutar
Cheguei na vila e nem dei bola pro Xerife
Passei direto no Saloon, fui me encostando no balcão
Com o chapéu em cima dos olhos nem dei conta
De que o bandido me esperava a traição(breque)
”Cuidado, moreira”
Era um indio meu parceiro que sabia
Das intenções do bandoleiro contra mim
E advertia o seu amigo do perigo que corria
Devo-lhe a vida, mas isso não fica assim
A essa altura o cabaret em polvorosa
Já tinha um cheiro de cadáver se espalhando
Houve um “suspense”de matar o Hitchicock
E em close-up prô bandido fui chegando
Parou o show e as bailarinas desmaiaram
Fugiram todos só ficando ele e eu
Eu atirei, ele atirou, e nós trocamos tantos tiros
Que até hoje ninguém sabe quem morreu
Eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu
Só sei dizer que a mulher dele hoje é viúva
Que eu nunca fui de dar refresco ao inimigo
Como um filme,bang-bang vale tudo
O casamento da viúva foi comigo(breque)
“Tem um final, mas o final é meio impróprio e eu não digo,
Volte na próxima semana se quiser ser meu amigo
Eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo.”

Os Intocáveis (Miguel Gustavo)
Narrador (introdução): “Os Intocáveis. Dramático filme
policial de Michael Gustav com o famoso detetive federal
Kid Morengueira, seu fiel ajudante Elliot Ness e sua linda
secretária Nee Pall View (*), e cujo cenário é a famosa
década de trinta, quando a Lei Seca tinha fechado todos
os bares e botecos.”
Há quatro meses, ninguém via uma bebida
Nenhum pau-d’água pela rua cambaleava
Ninguém cantava mais O Ébrio do Vicente Celestino
E nem uísque nacional se fabricava
Mas em Chicago um enterro ia passando
Com muitos carros e coroas, desfilando entre orações
São tantos carros que a polícia desconfia
E os federais começam as investigações.
Narrador: “Eram exatamente 12h45 quando soaram os
alarmes da Penitenciária de Nova Iorque e o chefe de
polícia mandou oito federais para Chicago.”
Kid Moreira vai às casas funerárias
Fica sabendo que Al Capone encomendou o caixão
Falta saber qual é o nome do defunto
Que merecia tanta consideração
Vê quem morreu, olha na lista e nada consta
Ninguém morreu de ontem pra cá e os polícias federais
Cercam as ruas de Chicago e o Morengueira proclama:
– Ô, Al Capone, isto assim já é demais!
Vou dar-lhe um banho de metralha, desta não escaparás. Eu vou botar todo esse bando
na prisão de Alcatraz.
Narrador: “Eram precisamente 17h43 quando os federais
descobriram toda a trama criminosa do mais espetacular
contrabando de bebidas. Oito mil garrafas de uísque
estavam no meio das coroas. Kid Morengueira mandou
então que os homens de Elliot Ness atirassem sobre o
cortejo e acertassem em cheio no defunto.”
No tiroteio, os bandidos desertaram
E, solitário, sobre um poste o carro fúnebre bateu
E quando um tiro de metralha fez um rombo no caixão
O contrabando pelas ruas escorreu.
(Só tinha uísque no caixão, mas o defunto não bebeu.)
Enquanto o líquido jorrava, a polícia já cercava
O esconderijo de Al Capone e sua grei
Assim termina Os Intocáveis desta noite
Com a vitória da Justiça e da Lei.
Humphrey Bogart e George Raft eu mesmo encarcerei
Só tenho pena das garrafas que na rua eu quebrei
Volte na próxima semana que outro filme eu contarei!

O Último dos Moicanos (Miguel Gustavo)
Tinha jurado à minha mãe por toda vida
Não me meter em mais nenhuma trapalhada
Depois daquela do bandido em que o índio me salvara
Eu decidi levar a vida sossegada
Comprei um sítio e já ia criar galinhas
Quando a notícia no jornal me encheu de ódio
Um bandoleiro aprisionara aquele índio
Que me salvara no primeiro episódio
“Cuidado Moreiraaaaaaaa”
E tal viúva do bandido que eu matara
Com quem case perante o padre no local
Roubou meu sítio e fugiu para Nevada
Apaixonada por um velho marginal
E minha noiva por quem tanto eu lutara
Estava dançando em um saloon fora da linha
Como é que pode um pistoleiro aposentado
Comprar um sítio e querer criar galinhas
“pó, pó pó po´, pó ó ”
Montei de novo num cavalo mais ligeiro
Em Hollywood Harry Stone me esperava
E Moacyr chamava os extras para a cena
Enquanto a câmera já me focalizava
A luta agora era com os indios Moicanos
Que pelos canos nos empurram devagar
Me disfarcei, pintei a cara e apanhei a machadinha
E com a princesa comecei a namorar
“Indio cara-pálida chamar Morengueira”
“Morengueira que não é mané vai dar no pé”
Voltei à vila e arrasei os inimigos
Salvei o índio, minha dívida paguei
Dei uma surra na viúva e minha noiva
Naquele mesmo cabaré a desposei
E assim termina mais um filme americano
Com Hollywood já meio desminliguida
Eu vou passar para o cinema italiano
Pra descansar eu vou filmar La Dolce Vita
Não filme agora que a censura está sendo proibida
Perto de mim o Mastroianni não dá nem pra partida
Sofia Loren vem chegando mas já estou de saída
Arrivederti Roma ….
 

Morenguera Contra 007 (Miguel Gustavo)
Narrador (introdução): “Moreira da Silva contra 007. Sexo e violência
no mais espetacular filme de espionagem do famoso diretor americano
Abelardo ‘Chacrinha’ Barbosa. Com James Bond, Cláudia Cardinale e
Edson Arantes do Nascimento.”
Começa o filme com o 007
Saltando em Santos com a Cláudia Cardinale
Com seu decote italiano ela é tão bela
Que ninguém vê o James Bond junto dela
Os dois se hospedam na concentração do Santos
E, entre tantos, ninguém sabe por que é
Que ela desfila de biquíni na piscina
E na maior intimidade com o Pelé
Breque:
A bonitinha não percebe a tabelinha que ele faz.
Pelé controla a Cardinale, dá-lhe um beijo e avança mais.
Gol do Brasil!
O temperamento latino é fogo!…
O James Bond nesse instante dá o flagrante
Diz que Pelé tem que pagar pelo que fez
Entram em luta corporal e o ’07
Vai abater o jogador com um soco-inglês
Porém, Moreira, que assistia a toda a cena,
Entra sem pena, vai no ‘7 e manda o pé
Rabo-de-arraia e antes que caia dá-lhe um coco
Apara o soco e livra a cara do Pelé
Moreira leva James Bond para o DOPS
E na fofoca mais fofoca que eu já vi
Vem jornalista, embaixador inglês sem vida
E entra na fita todo o Itamaraty
Aí Moreira leva a Cláudia Cardinale
Para jogar um pif-paf em Guarujá
Vão no boliche e comem pizza lá no Braz
E cantam samba de Vinícius de Morais
Cláudia confessa o seu amor por Morengueira
Faz a besteira de dizer que o ama com fé
Só foi a Santos com o 007
Para ajudá-lo a raptar nosso Pelé.
Roubar Pelé pra não jogar contra a Inglaterra
Porque os ingleses sofrem de alucinação
E toda noite vêm um fantasma de chuteiras
Fazendo gol no gol da sua seleção
Breque:
E vem o time brasileiro se sagrando campeão
Termina o filme com Moreira dando um drible no espião
O James é derrotado e acabou sua missão.

Uma versão editada deste texto foi publicada no jornal O Fluminense