O debut de Clapton em versão de luxo

27/12/2009 0 Por Fernando de Oliveira

Em 1970, Eric Clapton era uma guitarrista de fama estratosférica – já havia sido chamado de Deus e, depois do aparecimento de Jimmy Hendrix, passou a ser considerado o maior guitarrista branco do mundo -, um vocalista medíocre e um artista em busca de um caminho.

Já havia passado pelo pop dos Yardbirds, pelo blues dos Bluesbrakers, de John Mayall, pela egotrip do Cream e grandiosidade sem conteúdo do Blind Faith. Grandiosidade sem conteúdo, mas com algumas boas canções, é bom frisar. Logo após o fim da única turnê do Blind Faith, Clapton se juntou ao grupo que fazia os shows de abertura (Delaney e Bonnie) e caiu na estrada, como músico de apoio.

Impressionado com o som da The Band (grupo que acompanhava Bob Dylan e que havia acabado de lançar seu primeiro disco), Clapton decidiu usar aquele som mais descontraído e um approach mais discreto para gravar seu primeiro disco solo.

Eric Clapton (1970), que acaba de ser relançado pela Universal em versão dupla, com duas mixagens e vários bônus, é um disco menor de Clapton. Seu grande mérito foi ter formado a espinha dorsal do que seria o Derek and the Dominos, que gravou a obra-prima Layla and Other Assorted Love Songs, também lançado em 1970.

O relançamento de Eric Clapton é uma boa oportunidade para fãs de Clapton e para todos os que gostam de música entenderem como funcionava a indústria da música do fim dos anos 60 / início dos 70. Clapton gravou todo o disco com a banda de Delaney Bramlett e deixou os masters com ele para serem mixados. Como Delaney achava que Clapton ainda iria regravar algumas partes, ficou segurando sua mixagem. Nesse meio tempo, a gravadora fez pressão e Tom Dowd, que entre outras coisas produziu o ótimo Disraeli Gears (Cream), acabou incumbido de fazer uma mixagem do disco, para um lançamento rápido.

Com isso, a mixagem de Delaney ficou esquecida, sendo lançada em um bootleg chamado Unsurpassed Clapton, na década de 90. Essa mixagem perdida e mais outros ótimos extras tornam o CD uma obra indispensável na discografia do guitarrista. Dizer que a mixagem de Delaney é mais suja e a de Dowd mais pop é extremamente clichê e fica sendo somente uma cópia do que esta escrito no ótimo booklet que acompanha o disco.

A verdade é que apesar de serem os mesmos takes, a identidade musical das versões é bastante independente. Enquanto Delaney tendia para ter mais balanço, mais sou, mais metais e guitarras, Dowd optou por um disco com menos elementos, mais econômico. Talvez o grande exemplo seja a faixa After Midnight – escrita por J. J. Cale e maior sucesso do disco -, que tem os backing vocals como destaque em uma mixagem e metais (que não aparecem na versão oficial) como mola mestra da outra.

Outro destaque é a faixa She Rides, que é uma versão diferente de Let it Rain. Na verdade, é a primeira versão da canção, que utiliza o mesmo instrumental, mas tem letra e melodia diferentes. Se você gosta de Let it Rain, vai gostar muito de She Rides.

Eric Clapton (o disco) ganha vida nova. Ainda fica ensanduichado entre o Blind Faith e o Derek and the Dominos, mas serve para mostrar como era a busca de uma direção por parte de Clapton (o guitarrista).