De Segunda a Sexta: Engarrafamento

08/09/2009 1 Por Fernando de Oliveira

De um dos meus blogs favortitos. De uma das minhas autoras favoritas.

Engarrafamento
por: Tiana Maciel Ellwanger

Volta de feriado, engarrafamento, oportunidade. Atravessou a rua em direção à estrada. Passou pela alameda deserta que já conhecia, arrastando os pés para espantar as cobras que poderiam estar pelo caminho. Com água que não era de Teresópolis no isopor, andou por três quilômetros para parar no ponto que descobrira perfeito para fazer dinheiro em cima dos engarrafados. Entediados. Ali, onde as três pistas viravam duas e os carros empacavam, ele ficaria parado, corridinhas que não ultrapassariam 50 metros, ninguém querendo negociar o preço. A caminhada valia o esforço.

A lua cheia subia e era refletida pelos tetos e capôs lentos, deixando os insetos confusos. Quando chegou ao ponto desejado, a velocidade dos carros, ônibus e caminhões era mais lenta que a do seu caminhar. Levantou a garrafa transparente mais gelada sobre a cabeça e, quando abria a boca para dar o primeiro grito de “Olha a Água!”, um sinal do Chevette vermelho o calou de satisfação. Foi a primeira venda das sessenta e sete águas não-minerais que despachou nos minutos seguintes. Respirou fundo, aliviado com o sucesso planejado.

A volta para casa mais leve e rica e rápida abriu-lhe o sorriso na estrada, até que encontrou Dália, comendo um cachorro-quente com os irmãos em frente à Rua Dois. Estava linda, com a blusa de alça deixando parte de sua barriga bronzeada à mostra. Conferiu a carteira e pediu uma Bohemia, oferecendo um copo a ela. Os planos de voltar para casa cedo logo diluíram-se nos goles refrescantes e na companhia inesperada. Dália devia ter o dobro de sua idade e o triplo de sua experiência. Ela falava bem quando ele já não conseguia articular as palavras, desacostumado com a bebida e com as conquistas. No bar da saideira, beijaram-se, e o gosto gelado de sua boca o deixou tão esfuziante que ele nem ouviu as reclamações do pai, aos gritos, quando chegou em casa, umas três horas depois do previsto, com menos da metade do dinheiro prometido.

Reclamações, berros, ameaças de surras e de expulsão de casa duraram, ainda bem, até o feriado seguinte, quando acrescentou água com gás e com limão às vendas, cobrando por elas R$ 1 a mais. E não se arrependeu por aquele excesso no feriado passado nem quando Dália recusou, irônica, seu pedido de namoro. Os planos, agora, seguiam numa direção: vender mais para, sim, cometer excessos que preenchiam a memória de lapsos de rotina. Oferecer amendoim aos entediados, pensou, não cairia mal no próximo engarrafamento.