Dúvidas (by segunda a sexta)

29/04/2009 1 Por Fernando de Oliveira

Alguns blogs são obrigatórios. Alguns textos são imperdíveis.

Na lista que fica ai do lado direito do blog, há alguns endereços que não podem passar desapercebidos. O segnda a sexta é mantido por cinco coleguinhas e recebe também a colaboração de convidados. Cada semana um tema e vários textos brilhantes pelo mesmo.

Abaixo um exemplo do nível dos textos encontrados por lá.

Será?

Luciene Braga

Ele virou as costas e se foi, depois de acariciar o rosto dela com um afago que ela queria e não permitiria que acabasse.

Saiu pela porta da frente calmamente, enquanto as pernas dela tremiam, mas ela nem notava. Nunca seu olhar foi tão fixo e perdido.

Ele bateu com as mãos fechadas na porta do elevador e até se esqueceu da câmera. Imediatamente transbordou a fúria que jamais deixaria que ela visse. Chorou de tremer nariz, corpo todo e as profundezas da alma dócil de criança, até tapar a boca para não urrar feito animal na jaula. Quando a porta do elevador abriu, suspirou, porque achou que morreria sem ar.

Ela quebrou o telefone com um arremesso olímpico (anos depois, orgulhou-se disso) e só não xingou porque queria uma palavra melhor para levar no espírito ao entrar no quarto e lavar o rosto diante do espelho. Olhar-se virou tarefa estranha. Tentava acompanhar a transformação do rosto para se dizer aquela, mas era duro não ter mais os olhos com brilho.

Ele pisou na rua movimentada de sábado e jurava encontrar chuva, mas o sol queimava anos solares.

Ela titubeou diante da porta. Dura.

Ele corou ao pensar em voltar atrás. Mordeu as falanges da mão, com gosto salgado.

Ela se doeu e caiu no chão do corredor, por onde, de fato, já correra, lembrava-se, dele ou atrás dele, em brincadeira secreta de crianças.

Ele titubeou diante da poça. Sentiria falta do jornaleiro.

Ela abraçou as pernas e mordeu os joelhos. Salgados.

Ele entrou no carro e ligou o rádio. Dolby.

Ela tomou um banho e se perguntou se algum dia deixaria de sentir aquela dor. Alívio.

Ele questionou se um dia voltaria a falar. Tossiu.

Não mudaram de cidade, mas ela havia mudado completamente.

Ela guarda um cartão. Ele, um isqueiro.

Não havia dúvida que não eram feitos um para o outro.

O amor. Não sabem aonde foi pirar.

Um dia, uma cartomante tocou no assunto. Não fosse por isso, ele nem se lembraria. Mas resolveu ligar para ela e contar. Ela estava no teatro e marcou com ele na pizzaria em frente. Estranhou estar tão disponível. Sorte? Azar? Brincadeira? Gincana? Punheta? Arte? Palpite? Euforia? Drogas? Ousadia????

Quando se viram, duvidaram.