Um Hamlet que deu sono

30/03/2009 2 Por Fernando de Oliveira

hamlet_wmoura1Fui ver Hamlet no domingo. Boa companhia, vários amigos indo fazer o mesmo programa e a certeza de que a escolha seria melhor do que assistir ao jogo entre Brasil e Equador. Para não ser influenciado por nenhuma opinião alheia, decidi não (re)ler nenhuma crítica feita na época da estréia.

Hamlet não é simples e Shakespeare nem sempre é fácil de se fazer palatável para o grande público, necessário para encher um teatro do tamanho do Oi Casa Grande. Por isso, fiquei intrigado ao ver o cenário (??!!) montado. Dois ‘módulos’ de dois andares parecendo andaimes, montados em cada lado do palco. ‘Deve ser uma versão modernosa’, pensei.

Mais espantado fiquei ao ver o figurino dos atores ao entrarem em cena. Pareciam usar roupas de alguma grife, com poucos acessórios. Uma armadura e uns poucos vestidos para as mulheres (alguns bonitos, é verdade). O cenário era complementado por uma poltrona para o Rei, um banquinho e um tapete empoeirado.

hamlet_wmoura2A “‘música incidental“‘ (assim mesmo, com aspas triplas), composta por um dos membros daquela banda que tocou no mesmo dia do RadioHead, é lamentável. Um conjunto de riffs e acordes que poderiam servir como introdução para alguma das canções da banda.

Wagner Moura (quase sempre excelente) escorrega em ser over em alguns momentos e tentar acrescentar doses de humor ao personagem, com gritinhos desnecessários. São muitos gestos, pulos e agachadas que não acrescentam nada. Muito melhor quando ele minimaliza sua atuação.

O texto passeia pelo tradicional e o moderno sem conseguir se focar em algum deles de modo satisfatório, dando a impressão de que a direção ficou meio perdida. Até mesmo as frases mais conhecidas sofrem pequenas modificações.

A essa altura já deu para notar que estava achando tudo muito chato, apesar da admiração em ver atores decorando um texto tão longo e complicado (são quase três horas de espetáculo, dividido em dois atos) e de aparecer até um disco dos Beatles como acessório em uma das cenas. Comecei a olhar em volta (ainda no primeiro ato) e contei 5 (CINCO) pessoas dormindo nas quatro primeiras filas. Uma delas nem voltou após o intervalo.

hamlet_wmoura3A certeza de que a coisa não foi bem (apesar do teatro lotado) foi quando ao final da peça uma pessoa gritou ‘Bravo!’ e conseguiu chamar a atenção de todos que estavam por perto. Ficou aquela pergunta no ar: ‘Quem é essa louca?’

Decidi não publicar nada no Mistura Interativa, pelo simples fato de que as críticas já foram mais ou menos nesse tom na época da estréia e porque eu sempre procuro ser mais suave, coisa impossível neste caso.